Sangue e poesia em ‘Febre de enxofre’, de Bruno Ribeiro

Em Febre de enxofre, da editora Penalux, o autor Bruno Ribeiro se revela um verdadeiro demiurgo

FEBRE DE ENXOFRE. Com um título – e uma capa – assim, o leitor com certeza não espera ler um romance água com açúcar ou demasiado conceitual; ele está preparado para algo mais sombrio e excitante até. Ou ao menos pensa estar. Surpreendente, vertiginoso, caleidoscópico, psicodélico, atordoante, frenético: posso apostar que nem esses nem qualquer outro adjetivo do tipo serão suficientes para você poder dizer que está de fato preparado para o que lhe espera nessa obra, que provavelmente deveria ter um aviso especial para asmáticos em algum lugar.

Descrita por alguns como uma releitura de Fausto e do vampirismo, a febril história vai além, adentrando metalinguisticamente questões poéticas profundas de forma bastante onírica. Com uma escrita bem trabalhada e contemporânea, usando recursos como narrador na primeira pessoa (que, aliás, não permanece o mesmo até o final, conferindo uma perspectiva ainda mais movediça) e falas mergulhadas na narrativa, sem qualquer tipo de marcação, Bruno urde uma trama cujos fios parecem tobogãs nos quais se desliza no meio de um furacão.

Febre de Enxofre (Penalux, 2016)

Yuri Quirino é um poeta premiado que acaba de se despedir da namorada (ele mora na Paraíba e ela está indo ao Rio de Janeiro terminar um mestrado) e está perdido tanto na literatura quanto na vida. No próprio aeroporto onde Luciana pega seu avião rumo às praias cariocas, Yuri conhece um homem estranho – e de certo modo parecido consigo, chamado Manuel di Paula, que começa a lhe fazer uma proposta mais estranha ainda, interrompida pela fuga desconcertada de Quirino. Manuel quer que este escreva sua biografia em Buenos Aires. Após alguma insistência, para dizer o mínimo, o poeta acaba aceitando, e é lá, em ares nada bons, que se (des)enrola a maior parte da macabra teia.

Numa sucessão quase infinita de espelhos de circo, o autor demonstra inopinados talento e criatividade, “brincando” com a autoficção, tão em voga hoje em dia, e abraçando riscos com uma liberdade invejável. Acima de tudo, há evidente paixão nessas páginas labirínticas. Um livro ardente, sem dúvida — um monumento cuja escalada com certeza vale a pena.

 

Max Leite Autor

Tradutor literário, revisor e legendador. Além de poeta, é claro, e leitor incorrigível. Formado em Letras (Português/Literaturas) desde 2008. Criador da página de facebook Poesia Contemporânea Brasileira. Contato: max_traducoes@outlook.com