Saramago e a dimensão humana de Jesus

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José Saramago, em seu livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, apresenta Jesus como alguém que possui espírito inquieto e que busca respostas para as coisas do mundosaramagotextoeliane

O que afinal queria Jesus? O que ele veio fazer aqui? Ele veio mesmo para nos salvar? O livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, não foi bem aceito pela Igreja por ocasião de seu lançamento em 1991, e não é difícil imaginar as razões, por tratar-se de uma obra de ficção onde porém, para horror do cristianismo, Saramago humaniza Jesus Cristo.

Cristo era um homem comum até sua morte e como tal tinha as mesmas fraquezas, os mesmos desejos e as mesmas dúvidas de qualquer ser humano. Seus pais eram pessoas comuns, um carpinteiro e uma dona de casa, e além de Jesus tiveram outros filhos. A diferença é que sua concepção fora anunciada à sua mãe Maria de Nazaré por um anjo disfarçado de pedinte.

Saramago nos apresenta um “Jesus” de espírito inquieto, um tanto contestador, e sua inquietude existencial  torna-se maior quando descobre que José, seu pai, havia sido atormentado pela culpa até sua morte pelos romanos que o confundiram com um rebelde, por ter descoberto que Herodes iria matar todos os meninos primogênitos de Belém e arredores até 3 anos, e apesar de ter conseguido salvar seu filho, não avisou seus vizinhos, sentindo-se indiretamente culpado pela morte de outras crianças. Então, já quase adolescente, Jesus sai de casa pelo mundo em busca de respostas para dúvidas que afligem seu espírito – queria saber mais sobre pecado e culpa. É nessas andanças que ele conhece um pastor de cabras e ovelhas e passa algum tempo em sua companhia ajudando-o com o rebanho. Nas longas conversas entre os dois, Jesus acha às vezes estranhas as palavras do pastor ao questionar a unicidade e a bondade de Deus. Em muitas passagens do Velho Testamento, Deus é mesmo tido como um deus beligerante e implacável que ajuda o exército de um povo a destruir o outro em seu nome, e quando sua mão divina lança o castigo sobre os pecadores, pune tanto os maus quanto os inocentes. O pastor costuma confrontar Jesus frente a tudo que ele havia ouvido até então dos sacerdotes do templo sobre Deus, pecado e culpa. Embora Jesus fique um pouco indignado com as ideias daquele homem, ele parece ao mesmo tempo refletir sobre a infinita bondade de Deus e sobre o bem e o mal no mundo.

Naqueles tempos era costume oferecer-se animais em sacrifício como um presente divino. O livro descreve que cabras, ovelhas e pássaros tinham suas gargantas cortadas e eram queimados  em um altar dentro do templo e por toda a parte ouviam-se os gritos e sentia-se o cheiro de carne e sangue, e por ocasião das festas religiosas a quantidade de animais sacrificados era ainda maior. É portanto indicativo de uma maior benevolência de Jesus a passagem do livro em que ele se recusa a matar uma ovelha para o sacrifício, embora sabendo que isto era o ”certo” a fazer. Jesus ainda não sabia que futuramente ele seria o “cordeiro” a ser sacrificado. É também significativa a passagem do romance onde o pastor confronta Jesus com sua sexualidade e o desafia oferecendo-lhe um animal do rebanho, e depois de esperar que toda indignação de Jesus se manifeste diante de tal proposta, responde falando para os animais: “Ouvide, ouvide, ovelhas que aí  estais, ouvide o que nos vem ensinar este sábio rapaz, que não é lícito fornicar-vos, Deus não o permite, podeis estar tranquilas, mas tosquiar-vos, sim, maltratar-vos, sim, matar-vos, sim, e comer-vos, pois para isso vos criou a sua lei e vos mantém a sua providência”. Diante das duras palavras do pastor, Jesus, que havia decidido partir, muda de ideia e resolve ficar.

Certa vez Jesus, ao passar por uma aldeia de pescadores com o pé ferido, pede ajuda em uma casa sem saber que ali mora Maria de Magdala, que nós conhecemos como a prostituta Maria Madalena. Com ela descobre os prazeres do amor entre um homem e uma mulher, e por causa desse amor Maria de Magdala deixa a profissão e eles acabam vivendo juntos, enquanto Jesus ajuda os pescadores na aldeia. Consta em livros apócrifos encontrados no Egito – aqueles que os cristãos deveriam evitar – que Maria Madalena teria sido uma discípula de Jesus a quem ele ouvia com a mesma atenção que dispensava aos demais  apóstolos, mas que a Igreja tratou logo de desmoralizar por ser uma mulher. As mulheres na Igreja deveriam ser figuras secundárias e submissas. Há os que ficam furiosos só de imaginar tal possibilidade e logo dizem que tudo isso não passa de uma farsa. Mas seria muito interessante se fosse verdade, tanto quanto seria se Jesus fosse negro como no romance de Ariano Suassuna.

Chega o dia em que Deus se revela completamente para Jesus e o chama para uma conversa entre pai e filho, porém estranhamente também está presente o pastor, aquele que costumava provocar Jesus com questões controversas. Jesus fica então totalmente ciente da sua missão e do seu destino aqui na Terra e suas desconfianças se confirmam:  Deus revela que aquele pastor sem nome era o Diabo. Mas o que ele estava fazendo ali entre os dois? O Diabo já fora um dia um anjo e ele e Deus haviam sido muito próximos, mas como resultado de sua  ambição desmedida, querendo tomar o lugar do Senhor, fora proscrito. Porém eles ainda mantinham uma espécie de acordo, pois como oposições um não poderia prescindir do outro. Numa livre interpretação é possível imaginar o mundo como um grande tabuleiro de xadrez e nós como as peças onde Deus e o Diabo passam o tempo fazendo suas apostas, e, quem sabe entediados, já largaram de mão. Ou teria a humanidade sozinha as condições suficientes para arruinar-se ou se salvar? “Se aprende com Deus e se aprende com o Diabo”, disse Jesus um dia à sua mãe.

O Diabo era o “natural beneficiário dos efeitos segundos, mas não secundários, do uso da vontade e da realização efetiva dos projetos do Senhor.”  Tanto era assim, que Deus havia pedido que ele se aproximasse de Jesus por algum tempo e lhe fizesse companhia. É sobre essa relação entre o bem e o mal que o escritor e pensador  grego Nikos Kazantzákis fala quando diz que “as portas do céu e do inferno são adjacentes e idênticas”. Não é incomum nos confundir.

Mas afinal qual era a missão a qual Jesus fora incumbido? Jesus deveria, segundo as palavras de Deus, ampliar o poder de seu pai a muito mais gente além dos hebreus, ajudá-lo a tornar-se o deus dos católicos. Para isto Deus havia destinado a Jesus o papel de mártir, a melhor forma de espalhar uma crença e afervorar uma fé. Jesus ganharia poder e glória, mas somente após seu martírio e morte. No entanto antes que a nova religião se estabelecesse, muita gente morreria de forma cruel, inclusive seus amigos, e o povo hebreu carregaria para sempre o estigma de assassinos de Jesus, o que serviria como justificativa para sua perseguição, mas viria um dia também a perseguir outro povo. Jesus ficou profundamente consternado ao saber de tudo isto, mas não havia como reverter as determinações divinas. De fato muitos morreram e outros mataram em nome da nova Igreja: da perseguição aos cristãos, passando pelas Cruzadas e depois pela Inquisição; e até hoje se cometem atrocidades invocando o nome de Deus.

Não tardou muito para que se cumprisse o destino de Jesus, e não foi muito difícil convencer a população a fazê-lo, bastou um empurrãozinho de Judas de Iscariote, o único de seus seguidores que aceitou entregá-lo aos soldados romanos e passar para a história como vilão.

Parece que não era intenção de Jesus criar uma nova religião, tão pouco ele veio aqui para impor regras morais. É possível que, se Jesus voltasse nos dias de hoje, também não viria como costumamos vê-lo retratado, em geral de olhos azuis, barba e cabelos claros, uma vez que onde ele nasceu as pessoas não costumam ter essas características físicas; nem viria vestido de túnica e manto; tão pouco se revelaria para nós, nos enganaria sob vários disfarces e se a intenção dele fosse ver até que ponto somos capazes de amar o próximo, não teria que perder muito tempo por aqui, porque nossa capacidade de amar é limitada, mas o contrário não tem limites.