Se desse, eu era fantasma – Diogo Marins Locci

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Tem vezes que eu acho que sou um fantasma. Vezes que eu só sei que existo porque a parte de trás do tênis está dobrada, o que irrita o calcanhar. Eu sei que existo porque tenho que tirar o tênis pra arrumar a porcaria engorvinhada. Sei que existo porque estou usando o tênis há mais de cinco horas e eu sinto bastante calor. O cheiro que sobe é cheiro de “sim, você está vivo”. O sangue circula e esquenta meus pés. Minha unha cresce. E eu, fantasma que penso que sou, arranco com os dentes. Mas só as unhas das mãos, que as dos pés eu teria muito nojo. Esse nojo humano. Nojo de coisa humanizada. Elas crescem de novo e esse ciclo quase tem graça. Não é que eu roa a unha pra fingir que não existo. É um roer todo bobo, todo cheio de “faça o tempo passar da forma mais prazerosa possível”, e é só essa a forma que eu encontro.

Eu queria ser um fantasma de verdade pra poder parar de sentir tanta fome, ou de ter tanta dor de cabeça, ou de pensar no que ainda tenho pra fazer. Fantasmas são vagabundos natos e belos, escorrendo seus não corpos pelos lugares e se intrometendo na paz dos outros. Eu me intrometo na paz dos outros sem precisar ser um fantasma e isso é injusto. É injusto que eu brigue ou que briguem comigo. Porra, me deixem em paz! Se eu fosse premeditar o que faço pra que isso cause satisfação, faria apenas o que os fantasmas fazem quando os outros estão olhando: não existindo.

Eu não queria ser o fantasma do lençol. Esse é fruto daquela idealização chata de que tudo tem que ser amenizado. Fantasma branco é que nem vampiro que brilha. Só existe pra causar menos desconforto, pra não ferrar legal com a cabeça do telespectador. Se fosse pra eu ser fantasma, queria ser só uma presença invisível que se infiltra sem urros ou burburinhos. Sem ventilar em cortinas, sem ameaçar ninguém, sem nenhuma dessas palhaçadas. Eu queria ser fantasma pra, enfim, ser um pouco menos fantasmagórico.

Eu prometo que se pudesse, que se estivesse nas condições de invisibilidade que tanto almejo, não iria mais apavorar os outros. Seria um fantasma bem mais interessante, mais jeitoso e menos desastrado. Eu atravessaria os corpos desprezando-os por inteiro. Eu ia deixar as pessoas terminarem suas rotas sem nenhuma pontuação. Ia ser bem menos fútil e bem menos curioso também. Se eu fosse, mesmo que só por um dia, o fantasma que eu gostaria de ser, eu duvido que tenha de voltar a ser isso aqui. Carne é coisa pesada demais. Imagina só um mundo com quase 70 quilos a menos. Não parece muito, certo? Mas é! Eu queria ser o fantasma-pronto-acabou. O que é. É e pronto. E esvanece. Assim assim. Calmo. Baixinho. Um pio. Assim. Calmo. Baixo. pio