Conto: A Senhora Insetos

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É o terceiro do projeto 12 contos! Sempre na última quinta-feira do mês.

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Apenas sal e poucos temperos. É tudo o que Eleanor compra no mercado, há várias semanas não entra em sua cesta nenhum alimento sólido. A operadora do caixa a atende com pressa, prendendo o ar e tapando o nariz com a mão. Uma nuvem pardacenta, que só os limpos podem ver, envolve Eleanor e exala um odor nauseante. As poucas compras couberam numa sacola de papel que ela agarra como um escudo enquanto segue para casa. Na rua todos abrem caminho para ela passar, tapando o nariz e até mudando de calçada. O que se vê é uma senhora mais velha de aparência que de idade, magérrima, de pele ressecada e pálida de anemia. Em cima de suas olheiras profundas, os olhos que não mais são usados para dormir, olham a todos com medo e desalento, como se a alma lá dentro pedisse socorro em silêncio. Abalada pelas lembranças do acidente que matou sua família, Eleanor vive em constante devaneio, mesmo após receber alta da clínica de repouso.

No caminho de casa, saindo do mercado, ela para e se apoia na parede. Estava habituada á essas tonturas, de tanto senti-las, mas dessa vez há algo mais. Sente que lhe arranham a garganta por dentro, tateando e subindo em direção à boca. Uma intensa coceira avança, com minúsculas perninhas fazendo cócegas nas paredes do seu esôfago, mas ela não pode coçar. Esse corpo estranho detém-se, agora à altura da faringe, forçando o organismo a expulsá-lo. Eleanor começa uma tosse nervosa que de nada resolve, pois o incômodo continua a arranhá-la. Ela toma um pouco de ar, mas a tosse se intensifica. Sem fôlego, derruba a sacola de compras quando cai ajoelhada. Com o rosto vermelho, já não respira e a tosse, sem sucesso, insiste em expulsar o intruso da sua garganta. As pessoas se aglomeram ao redor. Assustados e com nojo, ninguém lhe oferece ajuda. Como último recurso do organismo para expulsar o corpo estranho, um jato de suco gástrico é lançado boca afora. O líquido claro, agora despejado na calçada, tem pedaços moídos de insetos e alguns ainda intactos que nadam no vômito raso. Enquanto Eleanor recolhe as compras, as pessoas exclamam de horror ao notar que duas centopeias ainda vivas saíram de dentro dela. Era o seu café da manhã.

Todos sabiam agora o que Eleanor comia e após esse acontecido ela ganhou o apelido de Senhora Insetos. Antes rejeitada pelo mau cheiro, agora era apontada como a louca que comia insetos. Outras histórias se somaram a essa para difamá-la e torná-la uma lenda urbana. Diziam vê-la comer baratas na rua ou que besouros passeiam pela sua roupa e cabelos desgrenhados e nesses últimos dias, na boca do povo, ela já se transmutara num ser meio humano meio inseto e podia ter uma carapaça ou até mesmo um ferrão. Mas como ninguém mais a vira desde então, nada se confirmou.

***

O tempo passou e com chegada do Natal, a Senhora Insetos deixa de ser o principal assunto das rodas de fofocas. Todos se ocupam em decorar suas casas e preparar a ceia. Eleanor decidiu que também faria uma ceia natalina. Transformou o pequeno quartinho de ferramentas do quintal numa estufa improvisada para armazenar seus alimentos, os insetos. Uma prateleira com vários vidros de conserva cheios, não de palmito, milho ou picles, mas de baratas, moscas, cupins e muitas abelhas, seu inseto predileto. Numa velha caixa grande de madeira ela joga restos de ratos, sapos e até gatos mortos para produzir larvas. No jardim preserva grilos, lagartas, lesmas, minhocas e acumula lixo para atrair mais insetos. Assim tem o suficiente para fazer seu jantar de Natal. Eleanor enfeita a mesa com flores e põe um único prato. Encheu também uma travessa com terra e pôs minhocas, fritou baratas e cozinhou larvas; mas alguns insetos preferiria comê-los vivos.

Sem saber a hora da ceia, pois não usava mais relógios, Eleanor foi ao quartinho pegar os potes de conserva. Entrou e fechou a porta para não deixar entrar os ratos. Quis levar muitos frascos de uma só vez e encheu os braços até a altura do queixo. Sentiu-se tonta e deixou cair dois potes cheios de moscas. Elas voaram frenéticas pelo quartinho e o mau cheiro de Eleanor as atraiu. Para proteger os olhos ela derrubou os outros potes e mais moscas zumbiram ao seu redor. Procurando a maçaneta ela bateu com a mão na prateleira e ouviu quando caíram e quebraram mais vidros e soube que eram abelhas quando sentiu as primeiras ferroadas. Não podia abrir os olhos ou gritar. Desesperada para livrar-se do enxame esbarrou outra vez na prateleira e quebrou o que restava inclusive os frascos com insetos venenosos. Sem desistir de achar a saída ela tropeça e cai na caixa de madeira cheia de larvas.

***

Semanas depois, a cidade estava tomada por insetos, como o Egito nos tempos bíblicos, assolado pela quinta praga de Moisés. Se Eleanor cultivava insetos o cultivo prosperara, podia exportar, na verdade deveria exportar, pois a cidade não comporta tamanha produção. Denúncias levaram a vigilância sanitária á casa da Senhora Insetos, mas foi preciso intervenção policial, pois ninguém abria a porta. O local foi isolado para afastar os curiosos que assistiam de longe a ação. Quando a polícia arrombou a porta, a vigilância precisou de máscaras, macacões e galochas para entrar. Os insetos cobriam tudo dentro de casa. Resquícios de um excêntrico jantar jaziam sobre a mesa. Em meio a jatos de inseticida e vômito os agentes da vigilância sanitária abriram caminho, mas Eleanor não foi vista em nenhum cômodo. Talvez tenha se escondido para evitar contato humano. Identificaram que o foco da proliferação dos insetos era o quartinho das ferramentas, por causa do forte zumbido lá dentro. Um policial chuta a porta e tudo escurece, uma densa nuvem de insetos sai do quarto como uma explosão, parecia que fugiam de algo pavoroso. Quando finalmente entraram não viram Eleanor. O local só tinha entulho e muitos insetos. Mas um cheiro putrefato denunciava que aquele lixo escondia alguma coisa. Revirando os escombros com grandes pás de lixo, encontraram um esqueleto com as estruturas recheadas de larvas que roíam os últimos pedaços de carne. Ninguém duvidou que aquilo fosse o corpo da mulher que devorava insetos, mas que acabou devorada por eles.