Ser ou não ser (de esquerda), eis a questão

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As agruras de ser de esquerda hoje615x330-hamletOra compartilhamos em igual tamanho a dor e o sofrimento de um ataque terrorista; carregamos o pesado fardo da insuficiência empresarial em sustentar um acordo entre a vida e o capital, acordo este que é mais uma vez levado pela lama. Ora partimos para a uma das maiores questões que segregam e deturpam qualquer tipo de união. Com vocês, no ringue, a maior luta de todos dos tempos: “Coxinhas versus Petralhas”, “Direita versus Esquerda”, Lado Dilma versus Lado Aécio”, Socialismo versus Capitalismo, Cuba versus Estados Unidos, como preferirem.

Há algo de podre no reino da Dinamarca.[1] Diria Marcelo, em Hamlet. Sabemos que essa podridão nos cerca em diversas situações de nossas vidas, e a política poderia ser a campeã em putrefação. Contar cada verme e bactéria que corrói e faz deste sistema seu alimento, seria o mesmo que tentar contar o que está na geladeira sem abri-la. Todos eles estão lá, mas debaixo de muitos panos.

Vivemos uma corrupção estrutural, fazendo parte de um sistema falido regulado por reacionários. Temos em meio a isso, um dos fatores que contribuem com o processo biogeoquímico da política: a polarização. “Vá para um lado do ringue!” seria o esperado para o início dos contra-argumentos. Debater sobre um assunto tornou-se, em suma, defender seu lado polarizado. A opção de construir racionalmente um argumento que analise diversas vertentes e contribua no enriquecimento de um debate foi substituída pela defensoria de um lado já pré-estabelecido, sem nenhuma abertura para quaisquer que sejam as ideias contrárias ou complementares. Estamos vivendo reclusos numa casca de noz e nos considerando reis do universo infinito[2]. Nos bloqueamos em nossas próprias angústias indecifráveis; nossas emoções alarmadas; nos juízos de valores sociais diversos; nas regras sociais; nos conceitos e pré-conceitos.

Por outro lado, regulamos o que outras pessoas fazem. Não aceitamos erros; não permitimos remições. Defendemos com unhas e dentes os que partilham de uma mesma posição ideológica que a nossa, mesmo estes estando errados. Distribuímos salvas quando alguém humilha o lado oposto com atitudes violentas e/ou baixas (“Foi merecido, ‘tava’ pedindo.”). Rotulamos identidades políticas. Odiamos coletivamente. Colocamos em postos altos/pedestais pessoas que consideramos, acima de tudo, corajosas por dizerem qualquer coisa sem argumento para apenas (tentar) rebaixar a opinião alheia. Ficamos ali, parados, esperando o próximo momento do “Turn down for what”.

Todas essas atitudes de ódio contracenam com o que consideramos correto. Criamos ideias imutáveis em nossas mentes sobre como devem ser nossas atitudes; sobre como podemos nos portar e nos esquecemos de como reagimos a atitudes diversas. Levamos tudo ao pé da letra, sem ouvir o próximo. Precisamos buscar entender a própria consciência; entender como nosso corpo funciona e reage em meio a raiva, ao ódio e ao estresse. Somos, cada um de nós, um pouco arrogantes em generalizar e tentar impor o que seria melhor para nós à outras pessoas. Algumas pitadas de resiliência e compreensão não fazem mal a ninguém.

Portanto, a capacidade opinativa aumentou enquanto a capacidade de ouvir diminuiu, e isso precisa mudar, visto que nem sempre a parcialidade defendida por nós é correta. Está claro que necessitamos urgentemente usar nosso conhecimento para o entendimento das relações sociais e políticas, pois, como diria Hamlet, não existe nada de bom ou de mau; tudo depende do nosso pensamento.[3]

 

[1] Ou “Algo está podre aqui na Dinamarca” (Ato I, cena IV), pela tradução de Anna Amélia de Queiroz C. de Mendonça e Barbara Heliodora, em sua terceira edição.

[2] Baseado na fala de Hamlet: “Oh Deus, eu poderia viver preso numa casca de noz e me sentir um rei de espaços infinitos, se não fossem os maus sonhos que tenho.” (Ato II, cena II)

[3] “Ora, não será assim então para vocês; pois não existe nada de bom ou de mau que não seja assim pelo nosso pensamento. Para mim é uma prisão.” (Ato II, cena II); a adaptação utilizada diz respeito a polarização levantada no texto.