Ser professor vale a pena (pra quem?)

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Há muitos anos, quando eu ainda estava decidindo que curso tentar no vestibular, mandei um e-mail a um professor do cursinho. Lá, havia em uma pergunta todas as dúvidas e angústias de uma libriana forçada a se decidir com 17 anos de idade sobre o resto da vida: “Vale a pena ser professor, professor?”. Ele, muito atencioso, me respondeu. Disse uma série de coisas que pareciam verídicas: salário apertado, satisfação grande de não ter que conviver com empresários babacas, prestígio social zero; eu que decidiria se valia a pena.

Quando optei por Linguística, escolhi com arrogância. Pelo menos como pesquisadora e doutora e tudo e tal eu não ganharia tão pouco e trabalharia menos. Não tenho vergonha de assumir isso. Aliás, aqui vai a primeira coisa: não estranhe se ser professor não aparecer para você como um tipo de profecia e iluminação. Na massiva maioria das vezes, não é assim. Inclusive, se você está se sentindo muito “predestinado”, desconfie: há chances de você estar bem iludido quanto ao que você acha que é ou será a profissão. Continuando, eu comecei, é claro, a dar umas aulinhas pra ganhar um troco. E era legal, prazeroso, mas incrivelmente difícil. Professor nenhum está preparado pro quanto algo que é extremamente empolgante pode ser digno de desprezo para os alunos. Por isso, aqui fica a segunda informação: ser professor, às vezes, dói.

Foi só assumindo algumas turmas como substituta e professora de inglês que eu me vi mais distante da vida universitária. A academia, ninguém conta, mas é muito pedante e exige muito autocontrole. E, mais distante da vida universitária, me vi mais perto das pessoas. Outro lembrete: se você não gosta de gente, não pise em uma sala de aula nunca na sua vida.

E não falo por você, mas por eles. Nada é pior do que professor antissocial. Talvez uma coisa só: professor que caiu ali porque não conseguiu mais nada. Foi o que passei a ver logo depois que assumi aulas onde trabalho até hoje e onde já trabalhei. Muita gente foi dar aulas por que a demanda é grande e por que não conseguiu mais nada. Sério: estes são os piores professores que eu já conheci na minha vida. Grossos, reacionários, autoritários, carrascos, divertem-se deixando alunos de recuperação, enfim. Se não quer dar aulas, não dê. Quebra esse galho!

Hoje, tenho uns seis, sete anos já em sala de aula. Cinco com várias turmas só minhas. O que posso dizer é que, quando fiz aquela pergunta ao meu professor, eu já sabia o que eu queria ser. Amo dar aulas. Tendo dito isso, preciso contar que outro dia enviei uma mensagem a este mesmo professor. Disse que ele tinha me enganado: ser professor é exaustivo e isso ele não tinha dito. Rimos, conversamos, falamos sobre as aulas que precisam ser dadas pra ter um salário confortável e o quanto isso é cansativo.

Pra mim, então, o que ocorre é o seguinte: você é quem sabe. Com ressalvas. Você não vai ser o cara que ganha mais entre seus amigos (pode ser que haja um professor que trabalhe em vários cursinhos e afins e ganhe fortunas; ele não é referência). Você vai lidar com alunos muito diferentes, que recorrerão a você para tudo e qualquer coisa, a qualquer hora, na maioria das vezes sem filtro. Também tem as famílias, que muitas vezes são inseguras e trabalhosas. Você vai ter chefe, vai ter burocracia, vai ter trabalho pra levar pra casa e não vai ganhar por isso.

Mas você vai ver pessoas incríveis nascendo na sua frente, vai rir muito – outra coisa que ninguém fala, mas eu, pelo menos, racho o bico quase todo dia com algo que algum deles fala. Rio mesmo, de ficar sem ar. Você vai ter nas mãos a possibilidade e a responsabilidade de construir a mudança – e o desafio de entender que ela não depende só de você. Vai conversar e, caso se permita, também vai aprender. Os benefícios maiores de ser professor não são remunerados. Não da maneira que se aceita em lojas. Só vale a pena ser professor se você estiver disposto.

Professor não é enviado do céu, não é a opção que sobra, não dá pra fugir de gente, não é pra quem quer ganhar rios de dinheiro, nem pra quem quer tranquilidade e algum tipo de bálsamo, muito menos pra quem tem um problema de ego e quer se autoafirmar . Vale a pena ser professor se você, de maneira consciente, fizer a sua escolha. E, quando vale a pena, vale pra caramba.

 

Cecilia Garcia Marcon
Mestranda em Sociologia da Educação, formada em Letras e Linguística pela Unicamp e pós-graduada em Jornalismo pela PUC-Campinas. Publicou um conto na antologia "Sentimentos à flor da pele". É professora, jornalista, escritora e realmente acredita que o poder das palavras é o único capaz de mudar o mundo. Ama o ofício, pois é viciada em adrenalina.
Cecilia Garcia Marcon
Mestranda em Sociologia da Educação, formada em Letras e Linguística pela Unicamp e pós-graduada em Jornalismo pela PUC-Campinas. Publicou um conto na antologia "Sentimentos à flor da pele". É professora, jornalista, escritora e realmente acredita que o poder das palavras é o único capaz de mudar o mundo. Ama o ofício, pois é viciada em adrenalina.
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