Série Postais – Tempo // Remetente: Tiago Germano, Destinatário: Alex Andrade

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Na série ‘Postais’, um autor envia um cartão a um outro autor, cuja imagem este terá de se inspirar para a escrita de um conto. ‘Tempo’, de Alex Andrade, foi baseado na fotografia de Tiago Germano.

Postais Tiago

Tempo

 

Mesmo que escapem as vontades, os sentidos, os medos, as angústias, e antes que tudo isso possa ruir e sobrar apenas os fragmentos e que não venham valer mais nada. Antes que se pudesse abrir as comportas e deixar que a água toda escape e a cidade esteja enfim alagada, que os dias estejam alagados, que as pessoas naufragadas em seus sonhos tentem escapar e esse turbilhão de sentimentos possa acordá-las. E mesmo assim o mundo reage, e vai seguindo impávido como se tudo retrocedesse como fita cassete que toca, pausa, grava, apaga, vai e volta e enrola e se embola toda e agarra no aparelho velho que remete ao tempo das nossas ilusões. Ele quis fugir. Mas já era tarde. Abriu a janela do carro importado porque o vidro blindado e fumê escurecia a sua memória e ele precisava ver com os olhos de quem viveu e sobreviveu apesar de.

Já era quase fim de tarde, uma névoa ajudava a borrar as imagens, mas a memória era preenchida de solavancos e precipícios.

Nesse cenário construído por vitórias e tropeços, a memória é como um atropelamento nas cercanias da vida, como água que escorre sem direção, onde formam-se rios, alagamentos e quiçá afogados.

Mesmo assim ele voltou, e voltou outras vezes também.

Nunca teve coragem de ir além daquele lugar. Gostava de ficar ali, acionava meticulosamente com o dedo o botão para abaixar o vidro elétrico do carro, antes observava pelo espelho retrovisor o rosto do motorista e esperava que ele perguntasse: “Doutor, por que o senhor cisma em voltar a esse lugar?  Já lhe disse, esse lugar é perigoso”. Mesmo assim, ele abaixava o vidro e ficava olhando, sem dizer uma palavra.

Gostava de sentir essa solidão de olhar para o que de certa forma ficou para trás, ficou parado no tempo, no tempo das ilusões infinitas, onde tudo pouco a pouco desaparecia, e lembrava a infância, os banhos de chuva no campo alagado, os amigos correndo atrás da pipa que ia, ia, ia longe demais do alcance de tudo. Ele olhava pela janela do carro as imagens de outra história, que não mais lhe pertencia, mas que doía como um sopro dentro da tez da sua pele, tão longe de tudo e sem medir, juntava os fragmentos para perceber o sentido que a vida tinha. Não tinha, concluía. Nas corridas pelo campo atrás da bola nunca teve certeza se um dia seria infeliz ou se poderia sonhar.

Deu-lhe uma vontade enorme de viver, esse estado de plenitude que surge quando se nasce, que despenca quando se vive, que desmorona quando percebemos que o tempo é menor que a própria vontade.

E mesmo assim ele voltava. E como um movimento involuntário, tornava a acionar o botão da janela do carro e ficava olhando a mesma imagem, por detrás da trave do campinho de futebol, onde por muitas vezes ouviu o grito dos meninos, suspenso pela memória, que lhe traía pouco a pouco.

Como Ruth, que deixou um rastro de medo e defesa dentro dele, e passeava desaparecendo e aparecendo pelas imagens que ele enxergava através da janela do carro, sempre sorrindo, sempre cantando, arrastando os outros meninos pela barra do vestido enquanto ele só amava, apenas isso.

Está vendo aquele lugar? Uma cidadela pendurada no morro, paredes pichadas, o tempo borrando tudo, o rosto das meninas, enrugando as casas, essa névoa, a água descendo e levando os pequenos sonhos, as grandes esperanças, o vento, o campo de futebol com a grama subindo além da linha da área do gol, a possibilidade de um dia nada mais ter sentido.

E fechou o vidro da janela do carro.

O motorista ainda perguntou: “O senhor está bem? Podemos ir?”

Mas, dessa vez, abriu a porta do carro e desceu. O homem de terno azul escuro, com os sapatos bem engraxados e o cabelo milimetricamente bem cortado, saiu do carro e, mesmo com a intervenção do rapaz ao volante, foi andando até o campo silenciosamente, sem sequer olhar para trás, os olhos marejados, uma vontade enorme de correr como se o tempo tivesse lhe roubado as boas roupas, os bons modos, os costumes, o crachá de presidente da empresa e lhe trouxesse apenas uma coisa: a solidão. Mas não era essa solidão que teima em nos assolar pela falta de alguém, de um amor. Era a solidão do que tinha saído de dentro e que escapa como a água das comportas e deixa o corpo seco, opaco, árido, procurando respirar sem o ar, que vai também atrás do vento, a névoa, a bruma desabando, a mesma música que toca, que ressoa nos ouvidos, e que não cessa nem quando se deita para dormir.

Sentou-se no meio da grama e pôs-se a chorar.

Começou a chover. Uma chuva fininha que parecia que nem estava chovendo. E ele riu e chorou, porque lembrou-se de ter escutado uma vez, ali naquele mesmo lugar, que chuva era nuvem que chora. E os meninos riram. E Ruth também riu, mas continuou cantando e arrastando a barra do vestido para que os garotos fossem atrás dela para os fundos da casa abandonada. Ele nunca foi. E foi nesse dia que percebeu o que de fato era o amor, essa coisa que doí e não passa. Ou passa. Ou o tempo faz se esconder atrás das nuvens, que também passam.

Se Ruth o visse hoje, como reagiria?

Ele era o menor do grupo de meninos, não contava, era o café com leite, não derramava nada, ainda nem sabia brincar de médico. Ruth estava sempre doente, os meninos examinavam. Conta para mim como ela fica boa, ele perguntava inocentemente. Os meninos riam.

Depois ele se foi para longe, ela casou com um primo porque estava grávida de alguém, soube por conta de um amigo. Naquele dia em que estava para partir, sentou no campinho para apreciar a cidadela pendurada no morro, pela última vez. Pensou que nunca mais voltaria. Ruth apareceu procurando os meninos. Só ele estava lá. Ela cantou sorrindo e arrastou a barra da saía até sumir atrás da casa abandonada. Demorou um tempinho até tomar coragem e ir ver o que tinha acontecido.

Atrás da casa ele viu Ruth, ele beijou Ruth, ele tocou Ruth como nunca tinha pensado, mas por muitas noites tinha sonhado. Não choveu, o tempo ficou paralisado enquanto eles se amavam.

Depois veio a notícia: Ruth está grávida, e o filho é seu! Enviada por carta pelo amigo. Ele rasgou a primeira, depois queimou a segunda, e nunca mais teve notícia. Soube que Ruth casara com um primo que resolveu assumir a paternidade da criança. Chama-se Roberto. Pelo tempo que passou tem por volta de 20 anos.

Ficou horas apenas olhando tudo à sua volta. Voltar para aquele lugar tinha mais sentido do que poderia imaginar. Mas o tempo é inexorável.

A buzina do carro foi acionada pelo motorista, que piscou também o farol. O clarão que se fez na penumbra da noite o trouxe de volta à realidade.

Fechou a janela do carro e olhou aquela paisagem pela última vez.

A velha trave testemunha de tantos gols, o grito dos meninos, Ruth cantando e arrastando a barra da saia ou do vestido, o que fosse, o menino que jamais conheceu, todas essas memórias, a solidão de ser quem jamais sonhou, o tempo, a incerteza de saber se seria infeliz ou se ainda poderia sonhar.

E não há nada que se possa fazer.

Eis a vida que escorre como se as comportas estivessem abertas para a água escapar. Transbordando tudo.

 

***

Alex Andrade é escritor e arte educador nascido no Rio de Janeiro, onde reside. Publicou os livros de contos A suspeita da imperfeição e Poema; os infantis O pequeno Hamlet e A galinha malcriada; e os romances Longe dos olhos e Amores, truques e outras versões; além de ter contos publicados no selo digital Formas Breves e em revistas de literatura.