A sexualidade de Shakespeare em Shakespeare

Afinal, o que a obra de Shakespeare pode dizer sobre sua própria sexualidade?

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Muito se questiona sobre a vida e real existência do escritor; apesar de toda sua genialidade, ele ainda é um mistério. Dentre essas incertezas a sexualidade do bardo também é alvo de dúvidas e estudos. Afinal, qual era a preferência sexual de Shakespeare?

A única coisa ainda dada como certa em relação ao assunto é seu casamento com Anne Hathaway; juntos tiveram três filhos: Suzanna, Hamnet e Judith. O casamento aconteceu em 1582 e William tinha 18 anos (Anne já tinha 26); quando o casamento foi realizado, sua esposa já estava grávida de Suzanna. Apesar disso, parte da vida de Shakespeare foi vivida longe de sua esposa. Os registros mostram que em 1592 enquanto sua família permaneceu em Stratford-upon-Avon, o bardo já estava em Londres. Lá fez sua carreira como dramaturgo e escreveu os clássicos até hoje encenados que se voltam entre a comédia, tragédia e sonetos.

Mas afinal, o que tem em questão a sexualidade de Shakespeare? Talvez, a explicação de muitas coisas em sua obra – que é também a fonte para entender sua vida.

Não é de hoje a curiosidade sobre o assunto e muito menos as pesquisas e discussões. Oscar Wilde publicou um ensaio (o retrato do Sr. W. H.) sobre a dedicatória das iniciais W. H. encontrada em alguns textos Shakespeareanos. Iniciais estas que possivelmente remetem a Henry Wriothesley, possível patrão de Shakespeare que ganhou a dedicação nos poemas Venus e Adonis e O estupro de Lucrécia. Sendo que em O Estupro de Lucrécia há uma conotação erótica. Além da dedicatória nos poemas, o livro de sonetos também é dedicado a W.H.

De fato há algumas referências e dedicatórias a homens em alguns textos de Shakespeare. Entretanto, há também mulheres recebendo dedicatórias. Dentre elas temos a famosa Lady Dark. Os sonetos a ela dedicados são os números de 127 a 154. A partir do soneto inicial pode-se notar, inclusive, uma diferença na entonação do texto desses sonetos em comparação aos demais.

Há diversas discussões acerca dos sonetos como um todo por uma falta de clareza na definição de gêneros e também por diferentes maneiras de relatar a poesia. Alguns de seus sonetos levam a entender sua homossexualidade, outros levam a crer que Shakespeare era heterossexual. Ressaltando que há dúvidas e questionamentos sobre as publicações, adaptações e traduções que envolvem as obras. Há bastante divergência entre elas e muito se questiona sobre a possível mudança nos gêneros contra o original. Também há uma dúvida que ronda o soneto 18, considerado um dos mais bonitos sonetos de amor. A definição e a poesia desse soneto já levaram a questionamentos, principalmente devido à tradução e os gêneros aplicados neles. Já houve versões em que o soneto era claramente dedicado a um homem e versões em que o soneto falava sobre uma mulher.

Um fato que também deve ser levado em conta é que o sexo sempre esteve presente nas obras Shakespeareanas, de forma direta ou poética, sempre há um envolvimento e relações sexuais nas histórias (heterossexual ou não). Em Romeu e Julieta, a relação entre os dois jovens é, além de tudo, sexual. Nos textos em inglês pode-se ver claras referências sexuais descritas, principalmente por Romeu. Nas demais obras também há envolvimento de ações e conjecturas sexuais. Infelizmente, muito dessas descrições sexuais e também os pronomes originais foram ajustados nas publicações e traduções, e com isso, parte da verdade foi também modificada.

Outro ponto que gera muitas questões e dúvidas é a personificação do gênero nas peças de Shakespeare. Começamos com um teatro elisabetano, que era composto unicamente por homens atores que interpretam papéis masculinos e femininos. O processo era natural na época e não havia estranheza com as encenações, inclusive como casais. Entretanto, Shakespeare trás à tona outras possibilidades. Em algumas de suas peças, as personagens femininas travestiam-se de homens. A confusão fica aí: um garoto interpretando uma garota que se traveste de homem. Essas personificações são encontradas nas peças Como Gostais e Noite de Reis. A definição de gênero pode aí ter sido questionada também.

Infelizmente não há ainda um consenso sobre a questão sexual do próprio Shakespeare. A dúvida ainda deverá ser carregada até entendermos, a partir da própria obra do escritor, a sua definição sexual e de gênero.

Dayane Manfrere
Comunicóloga como primeira formação se aventura agora no mundo das Letras. Colunista e revisora no Homo Literatus (as vezes também traduz). Escreve seus pensamentos no Enquanto a Chuva Caí e tem uns contos publicados por aí. Uma Shakespeareana sem cura, que ama Poe, Wilde e Tchekhov.
Dayane Manfrere
Comunicóloga como primeira formação se aventura agora no mundo das Letras. Colunista e revisora no Homo Literatus (as vezes também traduz). Escreve seus pensamentos no Enquanto a Chuva Caí e tem uns contos publicados por aí. Uma Shakespeareana sem cura, que ama Poe, Wilde e Tchekhov.
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