Sobre a grandeza simples de Hemingway

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Já falei aqui, anteriormente, sobre o que penso de Hemingway, ao compará-lo com Fitzgerald. Mas, em tempos de Nobel, fico saudosa deste americano do mundo que se foi cedo de mais – algo que faria, inevitavelmente. Para isso, farei um breve relato das minhas experiências de leitura com ele, já que sou daquelas que acreditam que nossa opinião sobre um autor vem, necessariamente, de como nos relacionamos com a obra dele no momento em que a lemos.

Começando pelo fim – O velho e o mar
O último dele, o primeiro que eu li. Foi marcante para mim pelo fato de ter sido o primeiro livro que li em um ônibus (voltando de Campinas para São Bernardo do Campo em um final de semana) e o primeiro que reli o final para conferir se era aquilo mesmo – prática inevitável nos livros de Hemingway, percebi depois. Me emocionei com aquele peixe que vira espinha no final e com o triste desfalecer de Santiago com seu companheiro jovem Manolín. E mais, a simplicidade com que Hemingway fabula sobre a fraqueza do homem, que envelhece e perde o viço, diante da natureza, sempre forte e incontestável é o que atinge, de fato, o leitor durante esta leitura.

Capa de "Adeus às armas" (companhia Editora, 1965)
Capa de “Adeus às armas” (companhia Editora, 1965)

Adeus às armas – e eu não pretendo reler
Nunca me recuperei do fim deste livro. Demorei anos para relê-lo e me arrependi, depois. Torci muito por aquele casal vítima da Guerra Civil, que conseguia se superar e encontrar um no outro a força para continuar. Uma história de amor que só Hemingway poderia ter escrito sem tornar piegas. E, aí vem aquele final. E eu joguei o livro longe, chorei. Depois peguei de volta e finalizei a leitura, sentindo ainda cada palavra, por mais que parecessem inocentes, me dando socos contínuos. Não se engane: nada é inocente em Hemingway. Acho que nunca nenhum outro livro da Literatura me atingiu de forma tão contundente e surpreendente como este.

Paris é uma festa – casa comigo, Hemingway?
Pausa para a tietagem. Foi aqui que descobri que Hemingway era um belo de um galã. E ainda inteligente. E ainda tomando todas enquanto produzia em Paris, acompanhado pelo amigo igualmente “fraco”, Scott (como chama Fitzgerald). As aventuras contadas em forma de minicontos autobiográficos são extremamente divertidas e prezam pela objetividade, sem “frufrus”. Cru, direto ao ponto e feito para você se sentir acompanhando Hemingway em casa um de seus momentos. O destaque vai para o que ele conta, que leu o manuscrito de Gatsby, entregue em mãos por Scott para que Hemingway desse a ele sua opinião. É uma piração dupla: prosa bem escrita e não-ficção de qualidade. Quase dá vontade de abrir um destilado, pra pelo menos viver um processo de catarse durante a leitura.

Capa de "Por quem os sinos dobram" (Companhia Editora, 1961, tradução de Monteiro Lobato)
Capa de “Por quem os sinos dobram” (Companhia Editora, 1961, tradução de Monteiro Lobato)

Por quem os sinos dobram – descritivo sem ser chato.
Roubando a máxima contemporânea de “sensual sem ser vulgar”, este é o livro em que Hemingway consegue a proeza de descrever detalhadamente cenas e o horror da Guerra Civil espanhola sem ser monótono, pelo contrário: é nas descrições que ele pega o leitor e faz com que ele deseje continuar a leitura. A inversão de um dos dogmas clássicos da leitura só comprovam que ele tinha o “unagi” da escolha de palavras. E o dom de contar histórias.

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