Sobre ‘A pedido do embaixador’, primeiro romance de Fernando Perdigão

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Entre a pulp fiction e chanchada policial: sobre o romance A pedido do embaixador, de Fernando Perdigão

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O romance policial brasileiro possui algumas pérolas que alçaram esse gênero popular a patamares mais refinados. Para ficar nos títulos mais famosos, é impossível não lembrar de O silêncio da chuva e Uma janela em Copacabana, de Luiz Alfredo Garcia-Roza – que teve seu protagonista, o delegado Espinosa, adaptado recentemente para uma série televisiva do canal GNT.

Todos eles possuem tonalidade dramática. Questionam a ética e idoneidade moral da instituição policial. Apresentam protagonistas falíveis, abalados pelos crimes hediondos cometidos na selva de pedra. Outra característica desses investigadores é a propensão a serem amantes das artes – Espinosa, por exemplo, é viciado em literatura. Surgiram também paródias de detetives clássicos , como Ed Mort, de Luis Fernando Verissimo.

A pedido do embaixador (Record, 2015), da autoria de Fernando Perdigão, certamente não se encaixa nas características refinadas dos romances de Garcia-Roza. Poderia se pensar numa pulp fiction, já que sua linguagem é caracterizada pelos clássicos e cortantes diálogos. Mas talvez esteja mais para uma chanchada policial. A começar por Andrade, detetive encarregado de resolver um crime, como o próprio título revela, a pedido de um embaixador. Motivo: Rubens, filho de um amigo do diplomata e sócio de uma agência de turismo destinada à comunidade LGBT, é brutalmente assassinado nas proximidades da casa noturna onde, dias antes, havia se envolvido numa briga ao passar uma cantada num pit boy de academia. Durante a investigação, será visto que os dois possuíam uma relação muito mais íntima, que influiu inclusive na abertura da Golden Pot, empresa do ramo homoafetivo da qual a vítima fazia parte.

Com métodos antiéticos de investigação, abusos de autoridade e deduções baseadas em sua gritante homofobia, Andrade, em parceria com a inspetora Lurdes, tenta chegar ao autor do crime por meio de conversas com porteiros e ratos de praia, cronistas de tudo o que corre à boca pequena em Copacabana. Além dos homossexuais, nordestinos – como sua empregada – são alvos de suas ofensas e injúrias. Assim como Ed Mort, Andrade pode ser tanto uma paródia quanto um personagem caricato, com traços que acentuam os abusos cometidos por autoridades policiais com base em preconceitos. Ainda assim, está longe de ser um anti-herói carismático como, por exemplo, o Diomedes de Lourenço Mutarelli.

A pedido do embaixador é um bom entretenimento esquecível para uma tarde chuvosa.