Sobre dizer Por Escrito que esse livro da Elvira Vigna é f*** pra c***

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Companhia das Letras

Porque site de literatura não devia/podia dizer tantos palavrões, mas é que o livro é foda pra caralho mesmo, mesmo. Pronto, falei. Tá, vou explicar.

(Essa é aquela hora em que você se pergunta: por onde começo?).

Não são simplesmente duas ou três histórias de personagens que, num ponto, meio livro depois, se encontram. Não. É a história de cada personagem que, num vai e volta, de passado e presente, se entrelaça o tempo todo, gerando tensão.

Valderez, a narradora,  segue em uma viagem para Paris enquanto relata para um você, espécie de amante-de-muito-muito-tempo, sua vida. O objetivo é ir ao encontro de Pedro, seu irmão que está casando. Neste ir (e depois no voltar e ainda após uma reunião de negócios), ação a princípio simples, somos envolvidos pelas memórias da narradora, seu passado ainda figurante com fatos não resolvidos – surpresas descobertas  por nós, leitores, a cada contorno que Valderez acresce à trama.

Por exemplo, há uma cena que se repete na cabeça da narradora, de Molly (de quem vou falar pouco, pois é uma espécie de “entidade” no livro (e que no começo imaginei como apenas “um alguém ficcional”)) transando com um homem vigoroso, na verdade montada sobre ele. Tal cena parece um sonho, até mesmo na forma como é narrada, pressagiando a descoberta do(a) leitor(a).

Um dos enlevos da trama que acontecem no passado, talvez um dos meus preferidos, é a história de como este você, para quem Valderez narra a história, e ela acabaram se conhecendo. É ele quem corre atrás dos patrocínios de uma adaptação de Vestido de noiva, peça de Nelson Rodrigues, para um musical. Aliás, é neste momento em que os principais personagens do livro se encontram. A peça é um projeto da russa Aleksandra, que se apaixona por Pedro, irmão de Valderez. Pedro é gay, mas mesmo assim Aleksandra insiste nesta relação amorosa improvável. Na época, este homem para quem Valderez narra o livro era casado, mas de uma hora para outra, convida-a para trepar. Ela aceita. Pronto, a semente das tragédias está lançada.

Culpa, angústia, amores e ódios, assim como em Vestido de noiva, entrelaçam-se na história de Por Escrito.

 

As mulheres assombradas de Por Escrito

É, sem dúvida alguma, um livro pertencente a/sobre mulheres. Digo sem machismo algum. Os personagens masculinos simplesmente não interessam. A própria postura deles, um tanto niilista, faz com que o leitor não se envolva com seus dramas. O amante de Valderez, a quem a narrativa se destina, é um exemplar típico do que o gênero oposto costuma afirmar sobre o masculino. Um homem sem profundidade, apenas parceiro sexual, com algo que se assemelha a um desejo de domesticá-la, de viverem juntos.

Pedro, por sua vez, personagem homossexual que sustenta um dos conflitos dramáticos, ao ser amado/desejado por Aleksandra, não tem qualquer influência no curso das ações, senão se negar a uma mulher. Ou seja, até mesmo sua decisão é um “não” e nada mais.

Enfim, opção da história, da autora.

Por outro lado, temos nas mulheres conflitos possíveis de entender por “assombrações”. O fio que as liga é, na verdade, o mesmo conflito. Valderez, Molly, Aleksandra e dona Tereza são mulheres que vão de um lugar para outro, não têm raízes, não conseguem constituir família (talvez nem queiram) e não possuem relação paterna alguma – motivo para os personagens masculinos não interessarem à história?

A mulher da fazenda, a negociante, a artista, a que trabalha em grandes corporações, todas com os mesmos conflitos, embora lidando cada uma à sua maneira? Algo a se pensar.

O fato é que uma delas resolve colocar Por Escrito e, supostamente, alcança uma redenção.

***

Tem uma coisa que sempre digo sobre os livros da Elvira, embora não em resenhas consideradas contidas e literárias etc, é a presença de algo brutal nas histórias que ela escreve.

Algo brutal e belo, ao mesmo tempo.

Por isso, encerro a resenha com dois dos meus trechos preferidos do livro, exemplos do estilão da Elvira Vigna – no qual me delicio com as frases que começam por um caminho, e depois parecem se inverter dentro delas mesmas.

“É primeiro de janeiro e lembro disso por causa do passeio que fizemos de manhã. Dormi na tua casa. Nesse dia ainda chamo tua casa de tua casa embora saiba que vá virar nossa casa logo depois. Essa, a que vai, não hoje, eu aqui escrevendo, mas a qualquer momento, virar tua casa outra vez” (pg. 9).

por-escrito“Tenho uma teoria sobre o clássico e as pessoas que curtem o clássico. Balé, música, pintura, neoliberalismo ou tailleur com broche prendendo uma echarpe. Essas pessoas acham que harmonia e perfeição existem. Acham mesmo. Se não no tempo presente, pelo menos no passado – o que equivale a dizer no futuro. Acho também que acreditar nisso é letal” (pg. 61).

 

Por escrito
Elvira Vigna
Companhia das Letras
2014
312 páginas