Um pouco sobre Kafka e sua chatice

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É perigoso, ou talvez arriscado, falar sobre um dos maiores nomes da Literatura. Ainda mais quando a ideia é falar algo que pode soar cruel e sem sentido para seus leitores fiéis. A verdade é que, para muitas pessoas, Kafka e seus livros são verdadeiras chatices. No entanto, não basta sair por aí afirmando uma coisa dessas e deixar o dito pelo não dito, sem se justificar. Pois bem, a proposta, hoje, é justificar e se redimir, como vocês poderão perceber, caso continuem lendo o texto, sem querer me apedrejar.

Muitas pessoas, depois de lerem Metamorfose na íntegra, sentem um misto de decepção e frustração. O livro mais conhecido de Kafka atrai leitores pela sua fama: um clássico, profundo e instigante. O começo, genial como ele só, anima e desperta um fôlego para descobrir como é que Gregor vai sair daquela situação embaratosa (ai como adoro trocadilhos).

Pois bem, eis que lá pelas tantas, provavelmente na página 15 ou 16, as linhas passam a ser enfadonhas. O mundo parece ter se perdido, nada mais faz sentido e a impressão é de que nem o autor sabia como criar o desfecho para o enredo. Mesmo assim, o leitor convicto segue adiante, afinal, este é um dos melhores livros da Literatura Universal. Eis que finalmente, chegamos à última página e a sensação, na maioria das vezes é “Oi? O que aconteceu aqui?”.

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Foi o que aconteceu comigo: ao final da leitura, estava eu lá sem saber se amava ou odiava, ou se eu era a mais ignorante de todas por não entendido nada. Parei para pensar: gosto de metáforas e no primeiro momento não vi figuras bonitas ou valiosas dentro do livro. Depois de alguns minutos, fiquei ali lembrando de tudo o que Gregor passou, a reação da sua família, do seu chefe e suas preocupações. Mais um pouquinho e cheguei a uma conclusão. Tchananã, a grande metáfora é o enredo em si. E é aí que está a grandiosidade kafkiana (os críticos que me corrijam, caso eu esteja errada).

Depois disso, decidi que precisaria ler outro livro para saber se Kafka é realmente chato ou se o problema é comigo ou se são as duas coisas. Foi assim que cheguei ao O Processo.

Considerado uma das obras-primas de Kafka, o título em questão me causou uma série de inquietações, estranhezas e frustrações mais uma vez (se ainda não leu o livro e não gosta de spoiler, pare por aqui). No entanto, de novo, toda essa reação negativa foi, aos poucos, se transformando diante de mim, conforme vou tentar descrever aqui e agora, olha só!

  • Joseph K. age como um idiota desde o princípio

Vamos supor que você receba uma intimação, seja chamado para depor e vai a julgamento, qual é a primeira coisa que você gostaria de saber? Se você pensou ‘a acusação’, estamos no mesmo caminho. Pois para K. isso parece ter a menor importância, em nenhum momento ele se pergunta “hei, o que foi o que eu fiz? Do que estão me acusando?”. Eu virava cada página, com esperança de que na próxima estaria a resposta. MAS NÃO! O livro acaba e você nem sabe por que diabos o cara foi julgado e condenado.

Esta foi a minha primeira reação: indignação. Mas aí, novamente, parei para pensar um pouquinho. Talvez o motivo ou acusação não sejam importantes. Os capítulos parecem independentes e é como se muitas coisas se resolvessem sem que o leitor fosse informado sobre tal. Além disso, é possível que este mesmo seja o mote para prender o leitor, isto é, o recurso para despertar o interesse e fazer com que a leitura evolua.

Pensando assim, deixei de achar K. um idiota completo.

  • Falta de conexão entre os fatos e capítulos

Logo após encerrar a leitura e mesmo enquanto eu lia aquelas páginas, a ideia de livro mal escrito me deixava emburrada. Talvez seja a tradução, pode ser a editora também, mas lá no fundo fiquei desapontada com a falta de ligação entre as coisas. Surgiram vários personagens que simplesmente desapareceram, como é o caso do Pintor. Além disso, em capítulos muito próximos acontece o seguinte: em uma visita à casa do Pintor, K. compra quadros; “cenas” mais tarde, questiona um comerciante a respeito de um quadro que retrata um juiz; linhas depois, ele visita a Catedral, passagem em que consta “fazia tempo que não via quadros”.

Estes são apenas alguns detalhes que me passaram a impressão de correria, pressa em entregar o livro ou falta de capricho. Até este ‘descaso’, porém, tem uma explicação. Fui pesquisar e descobri que O Processo foi mais um dos livros inacabados de Kafka, o que explica muita coisa. Em 1920, quatro anos antes de morrer, ele entregou o manuscrito a um amigo, Max Brod.

Foi Brod, então que, por conta própria, editou o romance. Sem consultar o escritor, ele alinhou os capítulos, colocando-os em ordem da maneira que lhe pareceu mais coerente. É obvio que um livro publicado nessas condições não seria a perfeição em coerência e linearidade. E mesmo assim, se tornou uma obra profunda – olha a chatice desaparecendo!

  • Tema demasiadamente complicado

Ou melhor: a forma como o tema é apresentado pode complicar a vida do leitor. A temática de O Processo faz parte das preocupações kafkianas em relação ao seu tempo ou sociedade. A obra pode ser considerada uma verdadeira denúncia ou previsão de quão enrolada e ineficiente seria a burocracia e o sistema que rege a vida social de qualquer pessoa.

Ao longo dos capítulos, K. e o leitor se perdem entre as explicações a respeito de seu caso. Os diálogos, longos e cansativos, revelam a falta de organização e mesmo de verdade que permeia a justiça, que se diz capaz de julgar e condenar alguém.

Atrelado a isto está ainda o modo como K. lida com seu trabalho. Sua ambição é subir de cargo, ser promovido e ele está no caminho para obter sucesso nesta empreitada. No entanto, a pressão, tanto do banco quanto do processo, suga suas energias e ele acaba desanimando e perdendo pontos diante de seu chefe.

O mais interessante, porém, é a semelhança entre Gregor e K. Os dois personagens veem a sua história começar com uma “armadilha do destino” e ambos se preocupam primeiramente com a mesma coisa: a justificativa para o atraso ou para a ausência naquele dia de trabalho. No caso de Gregor, ele nunca mais volta, mas K. precisa conviver com o fardo de cumprir suas obrigações e ainda levar adiante seu processo, para conseguir um resultado satisfatório.

Estes dois exemplos bastam para demonstrar a profundidade da obra kafkiana, que inclui ainda a questão da liberdade, da hipocrisia e do vazio, questões que resumem o conflito existencial que envolve seus personagens, cativando e conquistando a cada dia novos leitores.

  • A profundidade pode ser chata

Pensar sobre problemas e questões que afligem nossa sociedade, ler mais de 200 páginas e tentar encontrar o sentido de cada linha são coisas chatas, mas essenciais, principalmente para entender a profundidade do legado de Kafka. Chato ou não, o fato é que ele é um dos maiores nomes da Literatura – e mesmo se não fosse, vale a leitura. Por isso, não desista de Kafka! Ou pense com carinho antes de desistir.