Sobre todos adorarmos os caubóis de Carol Bensimon

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Carol Bensimon

Naquela tarde, eu sentia que me movimentava em uma estranha zona de felicidade na qual duas pessoas não conseguem passar lado a lado porque o caminho é estreito demais. (pg. 132).

É alguma coisa estranha pensar em “book roads” brasileiros. Não que nosso país não seja bom o suficiente, em termos de cenário, até pelo contrário. Mas por alguma razão, temos certo receio em imaginar obras ficcionais deste estilo em terras brasileiras, ou até mesmo sul-americanas. Preconceito este quebrado quando assistimos Diários de Motocicleta, dirigido por Walter Sales, somente para citar um exemplo de obra ficcional que não apela ao cenário do oeste americano (como On The Road, de Jack Keouack, ou Lolita, de Vladimir Nabokov). Mas voltando às nossas terras, Todos nós adorávamos caubóis, de Carol Bensimon, é exatamente isso, um “book Road” brasileiro.

A princípio, o que o leitor tem em mãos é Cora, uma estudante de moda brasileira que vive em Paris, indo ao encontra de sua amiga Julia, que cursa Jornalismo em Montreal. Após alguns anos sem se verem, ambas se encontram no Brasil para realizarem uma viagem pelo interior do Rio Grande do Sul. Uma viagem que combinaram durante o tempo em que cursavam jornalismo juntas, na capital, em Porto Alegre. E é apenas isso que o leitor tem de começo, para que aos poucos vá se revelando outros detalhes do enredo, que vão enriquecendo a leitura. A viagem segue pelo interior, passando por cidades como São Marcos, Cambará e Bagé; e intercalando com fragmentos da vida de Cora em Paris, do passado entre as duas amigas, e de toda a construção da personalidade da estudante de moda.

A descrição dos cenários é algo muito característico da escritora, evidentemente, gaúcha. Há uma espécie de constante contraponto entre a tradição e a modernidade, sobrando uma dose de deboche ao incorporar a personalidade de Cora (ou Cora incorpora a da autora?) e ver certo lado negativo em tudo, como neste trecho:

Durante algum tempo, fiquei olhando para a rua. Não era mais a mesma rua, quer dizer, era a mesma rua, mas no lugar das casas dos meus amigos de infância – onde eles estavam agora? –, tinham erguido um prédio. Assustava-me pensar que as preferências estéticas de alguém podiam estar resumidas naquele mastodonte branco de dezessete andares, que se destacava na quadra como uma mulher em um congresso de freiras ou como com uma freira no I Encontro Brasileiro dos Praticantes de Poliamor. (pg. 8).

Da mesma forma, as descrições de Paris fogem ao clichê. A Cidade Luz não deixa de ter certo charme, mas fica escusa de toda a pompa comumente atribuída a ela.

Os contrastes também chamam a atenção, com direito a uma amizade entre Cora e um príncipe francês às avessas, Jean-Marc, em que os dois bailam uma música que respeita suas personalidades. As diferenças entre os personagens são acentuadas. A parceira de viagem de Cora, Julia, é logo apresentada no começo do livro como uma pessoa que qualquer leitor deve conhecer, permitindo uma rápida identificação. Contudo, no decorrer da leitura, a personagem vai ganhando suas complexidades.

O trecho abaixo é uma memória de Cora sobre Julia:

De maneira que eu e a Julia nos falamos de fato pela primeira vez em uma festa à fantasia. Ela estava vestida de Penélope Charmosa, eu de punk viciada em heroína. […] Ela era a menina que levantava a mão para perguntar a cinco minutos do final da aula. (pg. 25).

Sobre o enredo, ainda pode ser dito que os pais de Cora são separados. Ela convive desde a adolescência com o fato de o pai ter abandonado a mãe. E agora, enquanto Julia e Cora fazem esta viagem, o pai espera um filho da esposa de vinte e sete anos, a mesma idade de Cora. O sujeito tipifica um pai nestas situações, tentando usar de gírias, para poder se introduzir. A mãe de Cora também não foge à regra, sempre passando inúmeras recomendações a ela.

todos_nos_adoravamos_caubois_-_bensimonNarrado em primeira pessoa por Cora, Todos nós adorávamos caubóis, de Carol Bensimon, é um livro mais leve que os anteriores da escritora. Mais acessível também ao público jovem, algo provavelmente intencional. Mas nem por isso carece de personagens com profundidade, um enredo bem construído e um final convincente. Mesmo que certas expressões causem certo estranhamento – como numa situação em que Cora diz que Julia está curtindo “adoidado” enquanto dança –, na narração da protagonista, fazem algum sentido.

Boa viagem.

Todos nós adorávamos caubóis
Carol Bensimon
Companhia das Letras
192 Páginas

Booktrailer do livro: