Sou de Humanas, mas sei contar

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Brincadeiras à parte, essa rivalidade entre Humanas e Exatas não é produtiva, pois traz consigo os estereótipos e preconceitos socialmente perpetuados

Rosie Music
Ilustração: autoria desconhecida

Uma pessoa paga suas compras. Ela ouve o valor, entrega o dinheiro e espera ser liberada. O atendente da loja sorri com certo constrangimento e diz que está faltando determinada quantia. A pessoa se desculpa: sou de Humanas, e entrega o que falta. Todos riem. Situação comum. Piada ordinária. Em contrapartida, é difícil encontrar algum profissional de Exatas se desculpando por não saber a ortografia de uma palavra, por exemplo. Ele não sente vergonha de sua área de conhecimento, socialmente prestigiada. Os de Humanas é que não sabem contar, vivem numa realidade alternativa, repleta de alucinógenos e miçangas, veem suas disciplinas “inúteis” ameaçadas de serem cortadas de currículos para dar espaço às “mais importantes”, aquelas cobradas no vestibular.

Toda família se orgulha de ver suas proles passarem para universidades públicas em Medicina, Engenharia, Direito, etc. Quando a notícia é de que o jovem decidiu seguir a carreira em História, Filosofia, Letras, ou pior, Música, Artes Cênicas, a reação costuma ser bem diferente. Frases desestimulantes como “Mas você é tão inteligente, poderia escolher qualquer profissão!”, “Isso não serve pra nada” e “Vai ganhar mal” são frequentes. Como se satisfação pessoal não contasse para nada. Como se não houvesse possibilidade de sucesso em qualquer profissão. Como se toda área de conhecimento não fosse válida. Como se, no final das contas, todos não fossem morrer e ir para o mesmo buraco, inevitavelmente, e isso não fizesse a menor diferença.

Desde o seu reconhecimento como ciência, os estudos voltados às humanidades lutam para manter a respeitabilidade acadêmica. Dentro de uma lógica capitalista utilitarista, é difícil provar que a arte tem seu valor. Os valores, entretanto, podem mudar. Na Grécia Antiga, médico era profissão de escravo, enquanto filósofo era uma das funções mais valorizadas. Os grandes pensadores, aliás, não se limitavam a estudar apenas uma área, atuavam em várias vertentes, passando de números a letras. Na modernidade, a delimitação rígida das disciplinas engessou o pensamento. Apesar de a interdisciplinaridade ser atualmente defendida, poucas ações são postas de fato em prática. O ensino se mantém tradicional, tecnicista, pouco atrativo. Os alunos decoram a matéria para passar, obtendo o mínimo que lhes é exigido. Quando muito, identificam-se com uma das áreas e passam a odiar as outras.

Com isso, só formamos pessoas rasas e frustradas, que acreditam que dinheiro e prestígio preencherão o vazio deixado pela falta de interesse pessoal nos estudos, no trabalho. Dinheiro e prestígio deveriam ser consequências naturais de um desempenho profissional de qualidade, não de uma escolha baseada em cobranças sociais. Não existe caminho fácil. Podemos tentar pelo menos tomar aquele que nos traz um mínimo (ou um máximo) de satisfação. E ser respeitados por isso.

Todas as profissões são dignas. Todo conhecimento é legítimo. Nenhuma ciência é de fato exata, pois sempre lida com hipóteses. Brincadeiras à parte, essa rivalidade entre Humanas e Exatas não é produtiva, pois traz consigo os estereótipos e preconceitos socialmente perpetuados. Sim, sou de Humanas. Me orgulho disso. E sei contar. Obrigada.