Sou escritor, não vendedor!

1
701

Se eu ganhasse um real toda vez que ouvisse a frase “Sou escritor, não vendedor!”, certamente já teria construído um império.

O novo autor costuma se mostrar altamente constrangido em promover e comercializar seu próprio livro, e talvez venha daí o enorme desejo de se lançar através de um grande selo. O autor acredita que, se publicar por uma editora de renome, não terá de “vender” o seu livro, e tal constatação o deixa feliz e satisfeito.
Porém, devo dizer que o escritor é sempre um vendedor, seja publicando por uma editora miúda, seja publicando pelo maior grupo editorial do sistema solar. A diferença é que, no segundo caso, o trabalho de vendedor ganha status e glamour – apesar de continuar sendo um trabalho de vendedor.

venda de livros
Desconhecemos a autoria desta arte.

A presença do autor no processo de venda de seu livro é de extrema importância, especialmente em uma época em que tudo é imagem; em que tudo é fotografado e compartilhado em tempo real. Logo, é impossível divulgar e vender um livro sem divulgar e vender seu autor, e para tanto é preciso contar com a boa vontade e a disponibilidade do próprio autor.
Primeiramente, devemos compreender que existem somente três maneiras de publicar através de um grande selo: tendo um bom apadrinhamento; tendo muito (realmente muito) dinheiro para investir; ou já tendo vendido milhares de exemplares publicados de modo independente.
Agora supomos que você, novo autor, publique pela maior editora do país, seja por pistolão, patrocínio ou fama prévia. Você finalmente vai realizar seus sonhos: ir ao Programa do Jô, sentar De Frente com Gabi, participar do principal stand da Bienal do Livro, ministrar uma palestra na Flip. Todas estas atividades, apesar de custeadas pela editora, não serão remuneradas para o autor – isto é: você não precisará pagar a passagem de avião ou a diária do hotel, mas também não será pago para realizar tal trabalho.
E não se trata de um trabalho qualquer. É preciso estar profissionalmente preparado para conceder entrevistas decentes; emocionalmente preparado para falar para um grande público; além de fisicamente preparado para passar horas em pé, dormindo pouco e mal, viajando muito, participando de reuniões, encontros, debates e etc. Não pense que não será cansativo e estressante só por que parece glamoroso.
Assim, o autor oferecerá sua imagem, seu tempo, sua presença e seu trabalho para colaborar na divulgação e venda de seu livro. Ou seja,  não deixa de ser uma espécie de vendedor. No mínimo, um promotor de vendas.
Seu pagamento por todo este trabalho e dedicação serão os holofotes, e os 8% sobre o preço de capa que receberá sobre cada exemplar vendido – o que, em um livro que custa R$25, dá exatos R$2.
Já as editoras médias e pequenas não te levarão ao Programa do Jô, não te colocarão De Frente com Gabi, nem na Bienal, e muito menos na Flip. Todavia, não exigirão que você tenha um padrinho consistente, um rio de dinheiro para investir, ou que já tenha conseguido sozinho vender milhares de exemplares de sua obra. Através delas você também receberá uma porcentagem mais alta, geralmente de 40% sobre o preço de capa – o que, no mesmo livro de R$25, daria, ao invés de R$2, R$10 por exemplar vendido.
Só que a editora pequena, assim como a grande, também precisa da disponibilidade do autor para promover seu livro e, em consequência, suas vendas.
Isso de forma nenhuma significa que o novo autor, lançando sua obra através de um pequeno selo, deverá sair de porta em porta oferecendo seu livro tal e qual as Testemunhas de Jeová, e nem que terá de montar uma banquinha na praça para vender seus exemplares. Claro que não. Mas o autor pode – e precisa – contribuir de outras formas.
Uma delas, bastante simples, é se mostrar disposto a realizar um evento de lançamento, e se empenhar em divulgá-lo pelo menos entre seus amigos, conhecidos e familiares. Inclusive por que o autor tem mais acesso ao seu potencial público consumidor do que a editora, uma vez que – lembre-se! – estamos falando de um jovem autor, ainda desconhecido. Realizar atividades, como palestras e oficinas, em escolas e instituições de ensino, também é importante.
Eu, enquanto autora, costumo solicitar a aquisição de dez exemplares do meu livro para realizar uma palestra em uma escola particular, por exemplo. Se meu livro custa R$30, eu lucro R$120 (R$12 por livro), por uma atividade que dura cerca de duas horas. Se eu fecho com dez escolas, são cem exemplares vendidos e R$1.200 de lucro. Por 20 horas de trabalho; ou R$60 por hora.
Logicamente que a minha agenda não está lotada, e eu não fecho parcerias com escolas todos os dias. No entanto, tenho disposição de sobra, e sempre vou atrás. Ofereço minha imagem, meu tempo, minha presença e meu trabalho para colaborar na divulgação e venda do meu livro. Igualzinho o autor lançado pelo maior grupo editorial do sistema solar.
E eu ainda ganho mais, já que preciso vender somente 20% da tiragem que ele precisa para lucrar o mesmo que ele lucrará.
Porém – e aqui vem o xis da questão – obviamente o autor publicado pelo maior grupo editorial do sistema solar será mais famoso do que eu. Pois, enquanto eu estou em um colégio de uma pequena cidade interiorana, discorrendo para trinta alunos, ele está na Flip palestrando para dois mil. Ele está na TV, eu não. As postagens dele no Facebook têm quatrocentas curtidas; as minhas, dez. Eu não tenho fãs; ele sim.
E boa parte dos novos autores busca ser conhecido, antes mesmo de ser reconhecido. Querem que as pessoas os abordem no supermercado, querem holofotes, querem bajulação de leitores, da mídia, querem ser vistos, lembrados e idolatrados.
Nem cogitam transformar a literatura em sua profissão, e pagar suas contas através de seu trabalho literário. Muito pelo contrário. Estão dispostos não somente a investir – e investir alto – mas a colaborar de todas as formas possíveis com sua editora para alavancar e promover as vendas de seu livro.
Entusiasmo e dedicação que não costumam apresentar quando publicam por meio de editoras pequenas, as quais acusam de explorar seu trabalho e tratá-los como meros ‘vendedores’.
Ademais, fico pensando: como o novo autor, o mesmo que não está disposto a ir até uma escola conversar com uma turma de adolescentes, pretende ministrar uma palestra na Flip? Como o novo autor, que muitas vezes não se anima nem para convidar seus amigos, conhecidos e familiares para o seu próprio lançamento, espera participar da Bienal?
Por isso, sempre pergunto aos novos autores que cruzam o meu caminho: o que você quer da literatura? Quer efetivamente trabalhar e pagar suas contas com ela? Ou quer somente se tornar famoso através dela?
Não importa sua resposta, assim como não há uma resposta certa e uma resposta errada para estas perguntas.
No entanto, em ambos os casos o autor trabalha como vendedor; atua como promotor de vendas.
Mas, para muitos, é sempre mais sedutor e atraente ser vendedor do maior grupo editorial do sistema solar, do que da editora minúscula de uma cidadezinha do interior.