Madame de Staël, a precursora da crítica comparatista

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Madame de Staël, a precursora da crítica comparatista
Madame de Staël

Análise das obras de Madame de Staël, autora europeia tida como precursora da crítica comparatista

Staël
Madame de Staël

Apresentação da autora

Anne-Louise Germaine Necker de Staël-Holstein (1766-1817), Madame de Staël, teve sua importância para os estudos literários em perspectiva comparada por se propor a analisar a literatura produzida fora da França, numa tentativa de adaptar o ideal romântico, cuja principal fonte seria a Alemanha, para a realidade local de seu país. Isso abriria precedentes para os estudos comparativos da literatura europeia. Mme de Staël também considerou a influência dos aspectos sociais, religiosos e morais na produção literária, e vice-versa. Defendendo sempre o ponto de vista estético romântico, a autora aplicou em sua produção teórica e ficcional um diálogo com as demais culturas da Europa.

A pesquisadora Narceli Piucco (2010) destaca o conceito amplo de literatura divulgado por Staël, que mistura o literário ao político, e a importância dada pela francesa ao cosmopolitismo como fator essencial para o progresso intelectual de uma nação. Tal feito pode ser comprovado pelas palavras da própria escritora:

As nações devem servir de guia umas às outras; todas estariam enganadas em se privar das luzes que elas podem mutuamente emprestar. Há algo muito singular na diferença de um povo a outro […] seria ideal em qualquer país acolher os pensamentos estrangeiros, pois a hospitalidade dessa sorte faz a fortuna daquele que recebe. (STAËL, 1954, p. 161-162; tradução de Narceli Piucco)

Staël teve uma vida abastada e bem relacionada, o que lhe permitiu desenvolver tais ideias. Filha de Jacques Necker, banqueiro genebrino e ministro das finanças de Luís XVI, e Suzanne Curchod, escritora suíça que possuía um dos maiores salões literários de Paris, ela conviveu com a elite intelectual de sua época e participou do grupo liberal Coppet, que se reunia no castelo de sua família na Suíça. Foi também casada com o Barão Eric de Staël-Holstein, diplomata sueco, o que lhe possibilitou viajar por diversos países da Europa. Dentre o grupo artístico de suas relações, admirava os românticos alemães e os iluministas franceses, em especial Rousseau, sobre quem escreveu a obra crítica Lettres sur J.-J. Rousseau (1788).

Em sua produção literária, explorou protagonistas femininas desiludidas no amor, além de questões políticas e sociais, como a pouca liberdade permitida às mulheres, as consequências da Revolução Francesa, a emigração na França, o protestantismo e o catolicismo. Destacam-se os romances Delphine (1802), que causou polêmica ao tratar da questão do divórcio, e Corinne ou l’Italie (1807), cuja protagonista é anglo-italiana e se apaixona por um lorde escocês, Staëlo que confere um grande cosmopolitismo à trama.

As obras mais marcantes de sua produção crítica seriam Essai sur les fictions (1795), que foi traduzida por Goethe na Alemanha, em que defende o romance como o grande gênero da modernidade, De la littérature dans ses rapports avec les institutions sociales (1800), em que examina a evolução da literatura e do pensamento intelectual através dos diferentes tipos de sociedades, de governos e de religiões, e De l’Allemagne (1810), em que analisa a cultura alemã, sobretudo no que concerne à literatura romântica, que começava a se popularizar na época.

Alguns temas caros à autora, tanto ficcional quanto criticamente, podem ser apontados: a condição da mulher numa sociedade repressora da liberdade; a defesa do diálogo entre as culturas; o conceito de uma literatura inspirada, filosófica e imaginativa, com fins morais. Os dois últimos aspectos, em especial, poderão ser melhor observados nos textos sobre os quais iremos discutir.

Literatura e nas instituições sociais (1800)

Nesta obra, Mme de Staël se propõe a examinar a evolução da literatura e do pensamento através dos diferentes tipos de sociedades, de governos e de religiões, pois a autora acredita que, por mais que já existam tratados sobre a literatura, pouco se comenta sobre sua relação com as instituições sociais. Ela considera o termo “literatura” em seu sentido amplo, isto é, o conjunto de obras das ciências humanas, e ressalta sua importância como elemento definidor de determinada cultura.

Staël afirma que é preciso persistir nos progressos intelectuais, em detrimento das guerras e da destruição. Vive-se um momento turbulento politicamente, com “as ruínas e esperanças” (STAËL, 2011, p. 81) trazidas pela Revolução Francesa. Por um lado, a revolução intelectual provocada pelo Iluminismo difundiu as ideias de liberdade e democracia que influenciariam todo o sistema político ocidental. Em paralelo a isso, encontram-se as mortes e a devastação geradas pelo terror jacobino, seguidas pelo golpe de Napoleão Bonaparte, que exerceria um governo ditatorial, combatido por Staël. A escritora insiste, entretanto, que os intelectuais não devem se deixar abater; a discussão de ideias conferiria ainda “alguma nobreza” à vida, serviria de guia à nação. Segundo ela, “na história do espírito humano, não existiu nem um pensamento útil, nem uma verdade profunda que não tenha encontrado seu século e seus admiradores” (STAËL, 2011, p. 81). Tal afirmativa pode ser atribuída à própria obra de Staël: ainda que suas críticas possam nos parecer desatualizadas e pouco embasadas, ela encontra seu valor nos estudos literários por pertencer a um processo de evolução do pensamento comparativo.

Quando Staël distingue as obras que tratam de moral, política e ciências, revelando os “progressos sucessivos do pensamento” (STAËL, 2011, p. 81), das “belezas poéticas”, que pertencem à imaginação, ela se aproxima da diferenciação aristotélica entre história e poesia. A história revela, segundo Aristóteles, o que acontece, e a poesia, o que poderia acontecer. De acordo com o filósofo, a poesia é mais filosófica e virtuosa do que a história, posto que esta trata do particular, enquanto aquela trabalha com o geral, o que lhe conferiria um caráter de universalidade. No entanto, ambos os tipos de obra, as históricas ou científicas e as imaginativas ou poéticas, se relacionam com a cultura em que se inserem, conforme aponta Staël. A diferença se encontraria no tratamento dado em cada tipo de obra: à objetividade histórica e científica se oporia, então, a subjetividade artística, da qual a autora se ocupará a partir Staëlde então.

A teórica analisa, em seguida, as especificidades das literaturas europeias, dividindo-as em dois grupos: as do norte e as do meio-dia, expressão empregada na época para se referir ao sul. As do norte teriam como fonte Homero. As do meio-dia, Ossian, bardo que teria vivido no século IV, famoso por seus cantos sobre religião, guerra e mulheres, que influenciariam a literatura escandinava e germânica; seus poemas foram publicados pelo escocês James Macpherson no século XVIII. Apesar de a autenticidade da publicação ter sido contestada, tendo-se atribuído os poemas ao próprio Macpherson, a figura de Ossian permaneceu como símbolo da antiga poesia germânica.

Assim, fariam parte do grupo das literaturas do norte: os ingleses, os alemães, os dinamarqueses e os suecos. Ao grupo das literaturas do meio-dia, pertenceriam: os gregos, os latinos, os italianos, os espanhóis e os franceses do século de Luís XIV. O fato de a escritora mencionar os franceses do século XVII pode ser um sinal de que ela considerava, de maneira otimista para os seus princípios, que a literatura francesa estaria em fase de transformação ao longo do século XVIII. Tais transformações necessárias serão analisadas por Staël, que distingue, logo a seguir, as literaturas do norte e do meio-dia.

O fator analisado pela autora para diferenciar as duas culturas é o clima. O sul europeu se caracterizaria por seu “frescor”, “bosques frondosos”, “límpidos riachos”, “sombra benfazeja”, “ardores impetuosos do sol”, o que estimularia “mais ações que pensamentos” (STAËL, 2011, p. 82). O norte seria composto de uma natureza sombria e nebulosa, que despertaria uma imaginação mais fecunda.

Os poetas ingleses, em especial, por seu espírito filosófico, seriam mais propensos a uma poesia melancólica. Como aponta a autora: “A poesia melancólica é a poesia mais de acordo com a filosofia. A tristeza, melhor do que qualquer outra disposição da alma, faz penetrar bem mais no caráter e no destino do homem” (STAËL, 2011, p. 82). Ela defende que a literatura do norte seria a mais adequada ao espírito de um povo livre. Porém, ainda que a adaptação das ideias do norte fosse possível em qualquer lugar, isso deveria ser feito de forma cautelosa, para não descaracterizar a cultura original de um povo. É o que revela a passagem:

As emoções causadas pelas poesias ossiânicas podem reproduzir-se em todas as nações, porque seus meios de comover são todos tomados à natureza; mas é preciso um talento prodigioso para introduzir, sem afetação, a mitologia grega na poesia francesa. Nada deve ser, em geral, mais frio e mais rebuscado do que dogmas religiosos transplantados para um país onde não são recebidos senão como metáforas engenhosas. (STAËL, 2011, p. 82)

Portanto, Mme de Staël defende a adoção do estilo literário dos povos do norte, notadamente romântico, sem que se crie, com isso, uma literatura artificial. A abertura ao novo estilo deveria ocorrer de modo progressivo e gradual.

A comparação estabelecida entre as literaturas do norte e do meio-dia através do clima pode ser associada ao princípio romântico da “cor local”. A literatura de uma nação deveria respeitar as características específicas de seu povo. Por isso, copiar o ideal greco-romano de arte causaria uma literatura “transplantada”, afetada, sem originalidade e autenticidade. Em vez disso, Staël propõe que se crie uma arte local, criativa, genuína, que reflita, ao mesmo tempo, a universalidade do caráter humano e os sentimentos do escritor: “Um entusiasmo refletido, uma exaltação pura podem igualmente convir a todos os povos; é a verdadeira inspiração poética cujo sentimento está em todos os corações, mas cuja expressão é dom do gênio” (STAËL, 2011, p. 82).

Percebe-se, por seus comentários relacionados aos conceitos de inspiração e de gênio, como Staël teria sido influenciada pelos escritores alemães da escola Sturm und Drang (tempestade e impulso). O movimento pré-romântico alemão, desenvolvido a partir do século XVIII e difundido pela Europa, atuou como uma reação ao progressismo da época, posto que os problemas políticos apenas se agravavam. Os integrantes deste grupo se revoltaram contra os abusos do Antigo Regime, cujos governantes perdulários e a Igreja moralista não atendiam às necessidades básicas da população. No âmbito literário, houve, assim, um movimento de oposição à rigidez estética empregada nas obras neoclássicas. Propôs-se, em contrapartida, uma literatura popular, que valorizasse o indivíduo e seus dramas pessoais face à sociedade opressora.

Os escritores do grupo Sturm und Drang valorizavam a emoção em detrimento da razão e o conceito de gênio inspirado. Conforme explica o crítico Otto Maria Carpeaux (2013), o termo “gênio”, nesse contexto inicial, não corresponderia a um indivíduo superdotado intelectualmente, porém atuaria em oposição à noção clássica de “gosto”: o gênio é capaz de criar uma obra bela sem seguir as regras eruditas impostas pelo gosto da elite. O pré-romantismo alemão tenta, assim, resgatar a poesia popular, desprezada pelo gosto clássico. O movimento teria sido influenciado pelos romances sentimentais ingleses, tais como os de Samuel Richardson, que se popularizaram pela Europa. Ambas as referências, as das obras dos escritores pré-românticos alemães, e dos escritores sentimentais ingleses, seriam cruciais para Staël.

Outras influências que a escritora compartilharia com os pré-românticos alemães seriam as poesias ossiânicas e a filosofia de Jean-Jacques Rousseau. Carpeaux comenta que as obras de Ossian teriam influenciado o imaginário alemão:

As poesias ossiânicas, publicadas pelo escocês Macpherson, provocam na Alemanha uma tempestade de entusiasmo pelas névoas nórdicas, pelos luares tristes em cima de túmulos de heróis esquecidos, pelos guerreiros de uma época remota que se acreditavam germânicos, pelas canções dos bardos e pelas lágrimas das virgens; pela prosa ritmada e os versos sem rimas; e pelos nomes, até então desconhecidos, de Oscar e Selma. Em Goettingen e em outra parte os estudantes formarão clubes para o culto da poesia ossiânica (Hainbund). E Goethe incluirá um trecho de Ossian no Werther. (CARPEAUX, 2013, p. 50)

Conforme já exposto, Staël, ao estabelecer sua divisão entre as literaturas do norte e do meio-dia, identifica como fonte, respectivamente, Ossian e Homero. Ossian simbolizaria a literatura de um povo livre, em contato direto com a natureza. A valorização dessa proximidade à natureza também se encontra na obra de Rousseau, outra grande influência para os pré-românticos alemães. O filósofo francês cultua a natureza em detrimento das convenções sociais, o sentimento em detrimento das imposições da razão, as livres manifestações do povo em detrimento do autoritário Antigo Regime aristocrático.

Destacam-se, no Strum and drang, os escritores Johann Wolfgang von Goethe e Friedrich Schiller, que conseguiram superar o movimento e participar da transição do pré-romantismo ao romantismo alemão. Nessa nova fase, acentuam-se o individualismo, baseado no irracionalismo alemão de Johann Gottlieb Fitche, e o nacionalismo. Mme de Staël comenta mais enfaticamente sobre a literatura romântica alemã, em contraste com o neoclassicismo que está sendo produzido na França, na obra De l’Allemagne.

Da Alemanha (1810)

Nesta obra, Staël apresenta a Alemanha, o aspecto do país, sua história, seus habitantes; defende o entusiasmo na literatura, a inspiração, a ideia de melancolia, contra o excessivo racionalismo iluminista e o neoclassicismo francês. Aborda mais diretamente o Romantismo, que teria surgido na Alemanha e se baseado no canto dos trovadores medievais. Em sua distinção entre poesia clássica e poesia romântica, ela atribui a origem da primeira a Homero e a da segunda a Ossian. Portanto, a poesia clássica se relacionaria aos povos do meio-dia, e a romântica aos povos do norte.

De maneira mais precisa, de acordo com os comentários da teórica, a poesia clássica seria adequada aos povos antigos, enquanto a poesia romântica conviria aos povos modernos. O “gosto antigo” tenderia a ser renovado pelo “gosto moderno”. Isso pode ser interpretado da seguinte forma: a mentalidade de vivência coletiva seria substituída por um espírito de individualidade; nisto, as epopeias e grandes tragédias, que exaltavam feitos heroicos, dariam lugar a romances do cotidiano, cujos protagonistas seriam personagens do mundo burguês, que lidariam com questões sentimentais semelhantes às do autor e do leitor.

A literatura clássica utilizaria, segundo Staël, o recurso da “sorte”, que “não conta com os sentimentos dos homens para nada” (STAËL, 2011, p. 83). Nas obras clássicas, não se pode fugir do destino imposto pelos deuses. Já a literatura romântica adotaria o princípio da “Providência”, que “não julga as ações senão de acordo com os sentimentos” (STAËL, 2011, p. 83). Haveria, portanto, um valor moral nas obras românticas: os virtuosos tendem a ser recompensados, e os corruptos punidos.

Outro fator de diferenciação dos dois tipos de literatura seria a comparação a outras artes às quais se afiliariam. De acordo com Staël, a poesia antiga pode ser relacionada à escultura: seria mais concreta, precisa, racional, conduz a uma ação. Podemos pensar, por exemplo, no Discóbulo, escultura de 455 a.C., atribuída ao grego Mírion: um homem se prepara para lançar um disco, numa competição esportiva. Os contornos anatômicos são realistas, harmônicos, e a posição escolhida é de movimento. Já a poesia romântica é relacionada, pela teórica, à pintura: seria mais abstrata, subjetiva, conduz à contemplação. Serviria como exemplo a tela Viajante sobre o mar de névoa, pintada pelo alemão Caspar David Friedrich em 1818, que traduziria o espírito romântico de meditação diante da natureza. Nela, vemos um homem que fita o mar, de cima de uma rocha. O indivíduo está centralizado no quadro e se harmoniza com a natureza, em clima de meditação: ele contempla o infinito aberto pelo mar e pelas rochas, para onde pode exercer livremente sua imaginação.

Staël conclui que os franceses, baseados na cultura greco-romana, tendem à poesia clássica, enquanto os ingleses tendem à poesia romântica. Segunda ela, na Antiguidade prezava-se o acontecimento, e na modernidade predomina o caráter, ou seja, a poesia antiga valorizaria a ação, enquanto a moderna, isto é, a romântica, enfocaria a emoção: “A poesia dos antigos é mais pura como arte; a dos modernos faz verter mais lágrimas” (STAËL, 2011, p. 83).

A literatura romântica, na concepção da autora, seria mais autêntica, mais adequada à imaginação moderna. Staël propõe que o neoclassicismo, em sua visão, estilo artificial de imitação dos povos antigos, deve ser abandonado em detrimento de uma literatura mais inspirada: “A literatura dos antigos é entre os modernos uma literatura transplantada; a literatura romântica ou cavalheiresca é entre nós indígena, e a nossa religião e as nossas instituições é que a fizeram eclodir” (STAËL, 2011, p. 83).

À imitação do modelo clássico, Staël opõe a inspiração, isto é, a criação de novos modelos que valorizassem o caráter em detrimento da ação dos personagens. Ela defende o romance como o grande gênero da modernidade, já que ele é próprio a esse tipo de exploração psicológica dos personagens. É válido lembrar que o romantismo se popularizou principalmente por meio de folhetins, em especial na Inglaterra e posteriormente na Alemanha. O romance é mais livre estruturalmente, pode incorporar características dos outros gêneros e se adaptar a diferentes enredos e estilos. Seus motes partem da vida cotidiana e das escolhas individuais, em oposição aos grandes épicos e tragédias antigas, com narrativas que faziam referência à coletividade e a heróis cujo destino era decidido pelos deuses.

A pertinência do ideal clássico de harmonia e equilíbrio na modernidade é contestada por Staël. Segunda a autora, o neoclassicismo francês cria obras bem acabadas, porém impopulares, distantes do público moderno a que se dirige. A insistência em reproduzir esse tipo de literatura na França dá margem a uma poesia artificial, sem caráter popular ou nacional. A literatura francesa, apesar de muito admirada pelo resto da Europa, é pouco conhecida e apreciada pela população da classe mais baixa e da burguesia dentro do próprio país, já que não representaria seu povo.

Ao contrário, a literatura alemã atinge mais diretamente o leitor moderno, pois dialoga com suas emoções:

A poesia clássica deve passar pelas reminiscências do paganismo para chegar até nós; a poesia dos germanos é a era cristã das belas-artes; ela se serve de nossas impressões pessoais para nos comover; o gênio que a inspira dirige-se imediatamente ao nosso coração, e parece evocar nossa própria vida como um fantasma, o mais poderoso e terrível de todos. (STAËL, 2011, p. 83)

Nessa passagem, também apresentam-se, novamente, elementos como a inspiração romântica e a ideia do gênio criador. Victor Hugo aborda esses princípios no prefácio de Cromwell, intitulado “Do Grotesco e do Sublime”, em 1827. Ele defende como gênero representativo da modernidade, diferentemente de Staël, a poesia dramática, em especial a comédia, que permitiria combinar o sublime ao grotesco, o feio ao belo, numa união harmônica dos contrastes. Após uma análise da evolução dos gêneros no contexto do progresso do pensamento da cultura ocidental, o escritor conclui que o homem moderno é voltado à reflexão, à análise da controvérsia, e sucumbe a um “sentimento novo, desconhecido dos Antigos e singularmente desenvolvido entre os Modernos, um sentimento que é mais que a gravidade e menos que a tristeza: a melancolia” (HUGO, 2002, p. 5). Staël também enaltece a melancolia, que seria própria dos ingleses e dos povos do norte em geral.

Hugo ressalta ainda a importância da inspiração: “O poeta […] não deve, pois, pedir conselho senão à natureza, à verdade e à inspiração” (HUGO, 2002, p. 18). E considera que a finalidade da arte seria iluminar o interior e o exterior dos homens, utilizando-se recursos como os apartes e monólogos para o primeiro caso e os discursos e as ações, para o segundo. Assim, como explica o autor, o “drama da vida” e o “drama da consciência” se cruzariam.

O “drama da vida” pode ser relacionado aos aspectos exteriores ao homem, como a sociedade, a religião, a política, em suma, as instituições sociais consideradas por Staël como fatores de influência na produção ficcional. O “drama da consciência” seria a introspecção propriamente romântica, a valoração dos dramas individuais, das emoções dos personagens, já considerados anteriormente por Staël.

Hugo aponta o cristianismo como fator divisor entre o antigo e o moderno: com a instituição do cristianismo, o homem teria se voltado para o exame de si mesmo, a introspecção, o que seria um passo para a melancolia. Ele analisa:

[…] no instante em que veio estabelecer-se a sociedade cristã, o antigo continente estava agitado. Tudo estava abalado até a raiz. Os acontecimentos, encarregados de arruinar a antiga Europa e de reconstruir uma nova, se chocavam, se precipitavam sem trégua, e impeliam desordenadamente as nações, estas para o dia, aquelas para a noite. Fazia-se tanto ruído na terra, que era impossível que alguma coisa deste tumulto não chegasse até o coração dos povos. Foi mais que um eco, foi um contragolpe. O homem, concentrando-se em si mesmo em presença destas profundas vicissitudes, começou a sentir dó da humanidade, a meditar sobre as amargas irrisões da vida. Deste sentimento, que tinha sido para Catão pagão o desespero, o cristianismo fez a melancolia. (HUGO, 2002, p. 5)

Staël também associa o cristianismo ao recolhimento, à reflexão individual:

Os antigos tinham, por assim dizer, uma alma corporal, cujos movimentos eram fortes, diretos e consequentes; não ocorre o mesmo com o coração humano desenvolvido pelo cristianismo: os modernos hauriram no arrependimento cristão o hábito de se recolher continuamente em si mesmos. (STAËL, 2011, p. 83)

Tanto Victor Hugo quanto Mme de Staël possuem uma escrita empolgada, especulativa e imprecisa, incorporando em sua crítica elementos da literatura romântica. Hugo não chega a conceituar, em seu texto, o grotesco ou o sublime em que se baseia para caracterizar a literatura moderna. Staël muitas vezes se perde em descrições de paisagens e não fornece diretamente suas referências. Apesar disso, reconhece-se o esforço de ambos em divulgar alguns princípios básicos do movimento romântico e discutir as novas preferências dos leitores modernos.

Os pontos de contato em relação à interpretação do Romantismo por Staël e Hugo seriam, assim: o culto à melancolia, o espírito moderno adotado após o cristianismo, a valorização da inspiração artística e a exploração da consciência dos personagens num viés psicologizante.

O texto de Victor Hugo tornou-se canônico para os estudos literários, em especial do período moderno romântico, por expor conceitos difundidos até a atualidade, como a questão autoral, a originalidade artística, a inspiração. Percebe-se, portanto, a importância de Mme de Staël em introduzir o ideal romântico alemão na França, o que permitiu a outros autores desenvolver e divulgar seus princípios.

Conclusão

Por tentar estabelecer uma análise comparativa entre as literaturas do norte e do sul europeus, Mme de Staël pode ser considerada uma precursora da crítica comparativa. Marie-Hélène Catherine Torres (2015) destaca, na obra de Staël, a questão da alteridade, a abertura a outras culturas, princípio da literatura comparada. A pesquisadora afirma: “Presságio de uma nova era, o método de análise de Mme de Staël permite considerar a literatura sob uma nova luz, ou seja, não somente em relação às instituições sociais, mas ainda como parte integrante destas” (TORRES, 2015, p. 76). Staël considera a literatura como parte integrante da cultura, do pensamento intelectual de uma nação. Ela analisa a influência dos aspectos sociais na produção literária, e também o movimento contrário – a literatura é transformável e transformadora; adaptável, portanto, a diversos cenários e estilos.

Pelo diálogo intercultural proposto pela autora francesa, Daniel Henri-Pageaux (2005) também considera Mme de Staël como patrona da disciplina comparatista, ao lado do grego Heródoto. Anteriormente, Jean-Joseph Texte (1885) já destacava o trabalho comparatista de Mme de Staël, por sua obra fundamental De la littérature considérée dans ses rapports avec les institutions sociales. Percebe-se, assim, como a crítica literária releva o trabalho comparativo de Mme de Staël, apesar de, conforme aponta Marie-Hélène Catherine Torres, ela ter sido esquecida durante muito tempo pelos estudos literários.

Adepta do princípio iluminista de liberdade e da inspiração romântica, Staël aplica, em sua ficção e em sua crítica, o cosmopolitismo de ideias, o universalismo de caráteres, o sentimentalismo e a valoração moral. Ela foi uma figura importante para a difusão do ideal romântico na França, e inspirou trabalhos como os de Victor Hugo, que estabelece, em “Do Grotesco e do Sublime”, os princípios do romantismo francês, difundidos pela modernidade.

 

Referências

http://www.stael.org/

CARPEAUX, Otto Maria. A história concisa da literatura alemã. São Paulo: Faro Editorial, 2013.

HUGO, Victor. Do grotesco e do sublime; prefácio de Cromwell. Tradução e notas de Célia Berretini. São Paulo: Perspectiva, 2002.

PIUCCO, Narceli. Traduzir Mme de Staël, difusora de identidades literárias da época romântica. In: CALIGRAMA, Belo Horizonte, v. 15, n. 1, 2010. pp. 67-84.

STAËL, Mme de. Sobre as literaturas do norte e do meio dia. In: SOUZA, Roberto Acízelo de, org. Uma ideia moderna de literatura: textos seminais para os estudos literários (1666-1922). Argos: Rio de Janeiro, 2011. pp. 81-83 [1800].

______. Oeuvres de jeunesse. Éditions Desjonquères, Paris, 1997.

TORRES, Marie-Hélène Catherine. Mme de Staël : literatura e tradução. In: Cadernos de Tradução, Florianópolis, v. 35, n. especial 1, jan-jun. 2015. pp. 75-86.

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