Suave como a morte

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Suave Como a Morte é o livro de estreia de André Luiz Cosme Ladeia.  Neste livro, o poeta faz alusão ao absurdo da existência humana e uma crítica sutil à vida em sociedade.

andré ladeiaInfluenciado pelo naturalismo do português Albino Forjaz,  pelo lirismo de Fernando Pessoa e existencialismo de Nietzsche, a poesia de André Ladeia faz alusão ao absurdo da existência humana e uma crítica sutil, porém mordaz, à vida em sociedade. Sua poesia, ao discorrer sobre a morte e o desencanto, lança na verdade um olhar sobre a vida, porque ambas são convergentes, não existindo essa oposição que fazemos entre elas. As noções de tempo e morte são exclusivas do homem, e as únicas certezas capazes de nos despir de nossa empáfia e presunção.

Com os homens aprendi a escarrar em outros
A rir dos mártires
A debochar dos pobres
E a cuspir nas ruas
Aprendi que a equidistância dos pólos não existe
E que a imparcialidade é uma invenção terrível
Aprendi que quanto maior o poder
Mais vil e tirano ele se torna
Aprendi a ser cínico
E a revirar do lixo
A imundície que cobre
A alma humana

(do poema Aprendi)

 

Se começamos a morrer assim que nascemos, morremos antes da morte, de fato, assim que começam a morrer todos aqueles do nosso tempo, todos os personagens da nossa história individual. Mas a vida é muito maior que nós e o tempo está além de nós. Seremos como todas as coisas absorvidas pela entropia e voltaremos à massa da terra. A Mãe-Terra que nos embalou na origem nos acolherá novamente e retornaremos ao reino de Monera, esse reino biológico tão presente na obra poética de Augusto dos Anjos.

A morte é um tema recorrente na literatura e um mistério que nos perturba e nos encanta tão logo tomamos conhecimento da nossa finitude. Dizem que temos atração pelo que nos assusta, pelo desconhecido, e a morte habita o pensamento humano desde a antiguidade até nossos dias. Hoje, tentamos fazer de conta que ela não existe, e que podemos prolongar nosso tempo para sempre, deixando, com isso, de apreender certas peculiaridades da vida.

Como pode o tempo
Ter voltado
Se tenho certeza
De que passou?
Como pode ter passado
Se tenho certeza
De que parou?
Onde está, você, tempo,
Que roubou o relógio da vida
E a ampulheta da morte;
Que cada dia
que passa
pára mais rápido
e se apressa
rumo ao fim?
Onde está você, tempo,
Que roubou o relógio da vida
E nem por isso (ela)
Deixou de existir.

(do poema Tempo)

 

Vários autores já fizeram uso do tema para falar sobre o absurdo da existência, mas se engana quem pensa tratar-se de uma visão pessimista. É, na verdade, uma visão lúcida, um olhar além das sombras, do desencanto, do decadente, da decomposição. Morrer para renascer, vislumbrar o nada para obter clarividência – os significados estão ocultos, obscuros. A literatura como meio de observar o mundo e a si mesmo oferece outra perspectiva da morte, no entanto ela não tem as respostas, simplesmente porque respostas não existem.

Há, desde sempre, uma relação muito próxima entre literatura e morte, enfatizada na expressão do escritor e ensaísta francês Maurice Blanchot: “escrever para poder morrer – morrer para poder escrever”.  Segundo Foucault,  “a linguagem está ligada à morte por uma relação ambígua, ao mesmo tempo em que ela necessita da aproximação com o vazio da morte (a partir do qual se fala) para poder seguir seu caminho ao infinito, por outro lado, busca da própria morte um afastamento também infinito; esta relação não seria outra coisa que a manutenção infinita da própria linguagem estendendo a vida para além dos limites da morte”.

O próprio ato de escrever como experiência da morte sem morrer, um ato solitário que fascina, um mergulho no abismo de si mesmo. A morte como libertadora de nossas concepções limitadoras, essa sim que nos leva à morte real.

Ninguém:
Pronome indefinido.
Como o Homem Contemporâneo.
Pronome que faz a palavra se amoldar ao seu significado.
Significante e significado.
Sujeito e Objeto.
Homem e mundo.
Ninguém. Ninguém.

(do poema Ninguém)

 

Leia o livro na íntegra aqui!