‘Submissão’ – como seria afinal um país ocidental governado pelo islã?

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Na linha de 1984 e Admirável Mundo Novo, Submissão, de Michel Houellebecq, especula uma grande mudança política na França em um futuro próximo

houellebecqO que aconteceria se um político muçulmano carismático, conciliador e tido como moderado, de repente ganhasse as eleições em 2022 e se tornasse o presidente da França, um dos países mais ricos da comunidade europeia?  É o que propõe o romance Submissão, do escritor Michel Houellebecq.  Este mesmo político teria como principal plataforma de campanha o resgate de valores familiares, o fortalecimento da educação básica e de pequenos empreendimentos, e se beneficiaria do lento enfraquecimento dos partidos tanto de esquerda quanto de direita, perdidos e confusos perante seus eleitorados. O povo já não se identifica nem com o Partido Socialista Francês nem com a Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen, partido de direita que havia crescido nos últimos anos. Mohammed Ben Abbes surge então como alternativa aos dois.

Todos os acontecimentos que desembocam em sua vitória e a instalação do novo regime de governo são assistidos com indiferença por François, um professor de literatura de meia idade desiludido e solitário que tem como espécie de mentor intelectual  o personagem de sua tese de doutorado, o escritor francês Joris-Karl Huysmans  falecido em 1907, que teve em sua vida semelhanças com a vida de François e cuja personalidade ainda o intriga. Seu gosto pela literatura é evidenciado nas seguintes palavras:

[…] Só a literatura pode dar essa sensação de contato com outro espírito humano, com a integralidade desse espírito, suas fraquezas e grandezas, suas limitações, suas mesquinharias, suas ideias fixas, suas crenças; com tudo o que o comove, o interessa, o excita ou o repugna. Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, da maneira mais direta, mais completa e até mais profunda do que a conversa com um amigo – por mais profunda e duradoura que seja uma amizade, numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido […]

No romance de Houellebecq, além da literatura, encontramos referências ao feminismo, ao cristianismo primitivo, ao catolicismo, à teoria do distributivismo econômico de Chesterton, e até mesmo à filosofia de Nietzsche.

O candidato Mohammed Ben Abbes  tem discurso sedutor, desenvoltura no jogo político, a imprensa não o incomoda. Enfraquecer a oposição é questão de tempo, e seu sucesso se concretiza no segundo turno das eleições. Ele obviamente condena  o terrorismo islâmico e é contra o antissemitismo, sabe que tanto a esquerda quanto a direita vão acabar fazendo alianças com seu governo. Mas Ben Abbes tem ambições maiores que a presidência da França, ele quer ampliar a influência do islã pela Europa fazendo alianças com outros países do entorno mediterrâneo, em um bloco unido em volta das mesmas crenças e objetivos.

Não sem motivo o livro é tido como o mais polêmico do ano, comparado a 1984, de George Orwell,  e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

Tão logo se estabelece o novo governo, duas mudanças quase impossíveis de se imaginar em um passado recente num país ocidental ocorrem: o uso do véu pelas mulheres e a poligamia masculina. O governo usa a teoria da seleção natural para justificar o casamento poligâmico e o retorno ao patriarcado. O próprio François havia se mostrado desencantado com as mulheres ocidentais ao dizer que as muçulmanas, embora durante o dia usem vestimentas de acordo com as regras da lei islâmica, à noite se vestem de maneira sensual para agradar seus maridos, enquanto no ocidente as mulheres se vestem de forma atraente durante o dia para se apresentarem  ao meio social, mas à noite não fazem questão de agradar seus parceiros.

Bem Abbes se diz favorável ao distributivismo, filosofia econômica defendida por pensadores católicos como Chesterton e Belloc. Uma teoria aparentemente inofensiva e bem intencionada que se coloca como opção entre o socialismo e o capitalismo, baseada principalmente no fim da separação entre capital e trabalho, onde o núcleo produtivo da economia  é a empresa familiar. Segundo ele, o distributivismo  é perfeitamente compatível com os ensinamentos do islã.

Mas a Fraternidade Muçulmana, partido ao qual pertence Bem Abbes, não coloca a  política econômica como o centro de tudo, e sim a educação das crianças e a demografia. Sob o ponto de vista deles, triunfará aquela população que tiver a melhor taxa de reprodução e conseguir transmitir seus valores. O ensino islâmico, no entanto, é bem diferente do laico. Para começar não pode em hipótese alguma ser misto e só algumas carreiras serão abertas às mulheres. No novo governo, todos os professores, se quiserem continuar ministrando aulas, deverão se converter ou serão aposentados.

É inquietante, porém, tristemente verdadeira a conclusão do partido muçulmano:  “quem controla as crianças, controla o futuro.”  Não se trata de nenhuma novidade. Se o avanço de um povo está na educação, o seu controle também se encontra nas questões que a envolvem.  Segundo Ben Abbes a igreja católica se tornara incapaz de se opor à decadência dos costumes, de rejeitar vigorosamente o casamento homossexual, o direito ao aborto e o trabalho das mulheres.

Numa conversa com François, em uma declaração assustadora, o novo ministro da educação e ex-reitor da universidade diz que “o auge da felicidade humana está na submissão mais absoluta. Que para ele havia uma relação entre a absoluta submissão da mulher ao homem e do homem a Deus conforme encara  o islã.”

Muitos acadêmicos, colegas de François, acabam aceitando as novas regras e se convertem ao islã. O próprio François, reticente no início e com certo receio de uma vitória do partido muçulmano tendo inclusive aceitado a aposentadoria, acaba cedendo a uma boa proposta para voltar a dar aulas. Na verdade o que mais pesou na sua decisão foi agora a possibilidade de ter não uma, mas mais de uma esposa. Afinal o novo regime de governo não é tão ruim assim, o que parece ser a opinião da maioria da sociedade francesa.

Embora esse quadro político seja hoje impensável, um governo teocrático no ocidente pode não ser assim tão improvável.  Seria então o fim da liberdade de escolha conquistada muitas vezes a duras penas?  Hoje a mulher pode escolher se quer trabalhar fora ou ficar em casa e cuidar da família, escolher qual carreira seguir, como se vestir, se quer casar ou morar sozinha, se quer ter filhos ou não. Podemos escolher qual religião seguir ou não seguir nenhuma.  E a educação acadêmica não necessariamente forma um ser humano, ele precisa ter livre acesso a outras formas de pensamento.