Sujeitos e revolução sob o enfoque de Anatole France

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Em tempos de manifestações, os ensinamentos de Anatole France em Os deuses têm sede se mostram atuais

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A liberdade guiando o povo. Delacroix

Multidões nas ruas para protestar contra governos; outras, ao mesmo tempo e num país diferente, para denunciar acordos econômicos desfavoráveis à maioria da população; mobilizações de internautas em abaixo-assinado pedindo a despoluição de um rio ou pelo fim da matança de animais…

Diversos analistas buscaram interpretar as mobilizações coletivas através de um conjunto de narrativas tão diferentes umas das outras quanto a água é diferente do vinho. Certo é o dissenso. Há quem diga que os movimentos surgem porque há dinheiro e gente envolvida, outros analistas dizem que é porque há uma identidade compartilhada em ação e há os que veem como determinante a reação ao sistema político. E há também quem releve tudo isso e priorize a manipulação bem elaborada (e reelaborada) da realidade social.

A ideia por trás desta última concepção, uma vertente “culturalista”, é a de que os movimentos (mas também partidos políticos, empresas e a imprensa) buscam enquadrar a realidade na ótica dos seus próprios interesses a partir da seleção arbitrária de elementos de uma realidade complexa que, tornada simples, visa possibilitar seu manejamento pelo indivíduo comum. Os exemplos são recorrentes, mas a título de didatismo, vamos analisar os dois principais partidos das disputas presidenciais brasileiras: o PT apresenta-se como o partido que reduziu as desigualdades sociais e que provoca o ódio das elites inconformadas com a evolução do padrão social dos mais pobres. O PSDB, por sua vez, põe-se como defensor da estabilidade econômica e dos padrões ético-políticos. Há muito mais entrecruzamentos, sintonias e contrastes do que aquilo que se apresenta na superfície (e há a mídia que enquadra ambos os partidos sob outro prisma).

Em 2011, a diretora alemã Margarethe von Trotta dirigiu o filme Hannah Arendt, que abordou a polêmica envolvendo a autora do livro Eichmann em Jerusalém. Arendt, contrariando as expectativas que exigiam dela conclusões diferentes, defendeu que Adolf Eichman, eminente burocrata nazista e autor da Solução Final (medida adotada pelo governo de Hitler que promoveu o extermínio em massa de judeus) não era um monstro, mas um sujeito absolutamente trivial. Não era uma mentalidade diabólica, mas a sua incapacidade de pensar e de refletir que movia o nazista a ser uma máquina de destruição.

A sociedade alemã, sofisticada, foi objeto de um enquadramento da realidade que estimulava o ódio e que buscava responsáveis para as sequências de humilhações do pós-guerra. Encontraram as respostas no absoluto fechamento das possibilidades de discussões públicas e pela manipulação espetacularmente visual do modus operandi nazista que, afinal, segregava os judeus e as demais “raças inferiores” dos alemães puros. Uma série de documentários produzidos nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial mostraram como o regime totalitário alemão enquadrou e operou o cenário cultural e arquitetônico conforme seus interesses gerais.

Em Os Deuses Têm Sede, de 1911, Anatole France escreveu uma obra-prima que descreve bem as mudanças na psicologia de um indivíduo banal que, instrumentalizado para cooperar com o processo revolucionário, assume a revolução de forma fetichizada, atribuindo-lhe um valor surreal e cujo ideal torna-se o seu próprio ideal de vida, acima de qualquer outra coisa. O escritor regride ao caótico ambiente francês quatro anos após a revolução que trouxe à baila o lema republicano “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, lema que, acompanhado do assassinato torpe na guilhotina por quem fosse considerado adversário da revolução, foi manchado de sangue e levou o pavor à sociedade francesa.

O personagem principal da obra é Évariste Gamelin, um pintor de qualidades modestas, defensor radical dos ideais revolucionários e membro de uma classe social inferior. Sua grande ideia para superar a pobreza é fabricar um baralho onde o Rei, o Valete e a Dama são substituídos pelas cartas Liberdade, Igualdade e Fraternidade, proposta que recebe a zombaria de Jean Blaise, comerciante de estampas e de todo tipo de jogo. Este também era o pai da moça por quem Gamelin apaixonara-se.

Com a interveniência de Louise Masché de Rochemaure, viúva de um procurador e filha de um tenente de caça do rei, Gamelin é nomeado para o importante cargo de Jurado do Tribunal Revolucionário, contribuindo para o julgamento e a condenação de outros conterrâneos à guilhotina. À frente dessa função, ele adquire uma nova personalidade cada vez mais rigorosa, fazendo de si um instrumento em prol dos ideais revolucionários, ideais que, mantida a forma, tem seu conteúdo ajustado de acordo com os que efetivamente mandam.

A radicalidade de Gamelin vai ao ponto dele recusar-se a ajudar o marido da irmã, cuja divergência política com os revolucionários, pôs-lhe a vida em risco. Mais do que isso, ele ameaça entregar a própria irmã ao Comitê de Vigilância caso saiba de seu paradeiro, momento em que a mãe põe-se a murmurar sobre o monstro que seu filho se tornou. Décadas após de escrito Os Deuses Têm Sede, Eichman expressaria ideia semelhante no tribunal que o julgou à morte, afirmando que mataria o próprio pai caso fosse merecido.

Nos dias atuais, em que a manipulação das informações é cada vez mais recorrente para favorecer certos pontos de vista, manipulação que é mediada por recursos operacionais extremamente sofisticados, a obra de Anatole France provoca a reflexão sobre as dimensões morais e éticas do comportamento humano e a importância do pensamento crítico e reflexivo acerca da realidade. O mundo sob a ótica de Gamelin tinha dimensões completamente simplistas, mas era produto de uma manipulação eficiente e sofisticada sobre a realidade social, que era resultado, ao mesmo tempo, do encurtamento do espaço crítico. Hoje, este espaço de contestação e reflexão ganhou em dimensões, mas não em qualidade. Explicações falsas e exageradamente rudimentares, sobretudo acessíveis e manejáveis ao indivíduo comum, continuam a direcionar o comportamento humano para tal ou qual ideia.

Não à toa a comunicação de massas continua a ser um dos temas mais polêmicos que perpassam os vários graus e ambientes da sociedade. Sua instrumentalização é e continuará a ser um referencial essencial para o avanço ou o descenso civilizatório de qualquer país. A obra de Anatole France é uma crítica às utopias fracassadas que, ao se divorciarem do povo, foram tão intolerantes quanto os governos depostos. A realidade é muito mais complexa do que querem que vejamos.