As tenebrosas raízes da ficção científica

O gênero ficção científica é velho conhecido da Literatura e está cada vez mais presente no cenário literário, mas como e onde ele surgiu?

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Júlio Verne e suas 20.000 léguas submarinas, mostrando ao leitor o oceano de uma forma revolucionária através do olhar do Nautilus. H.G. Wells e sua máquina do tempo, tornando as palavras de seus livros um bilhete de ida para eras nunca antes exploradas. Isaac Asimov e seus robôs futuristas que eventualmente criam consciência própria.

A ficção científica está bem estabelecida no cenário literário mundial desde o final do séc. 19 e ganhando mais força ainda desde o início do século 20. Sempre foi um gênero que causou fascínio ao leitor e serviu como um escape da realidade, da mesma forma que a literatura fantástica. Quando se pede para alguém pensar em ficção científica, maior parte das pessoas dirá que a primeira coisa que vem a mente são robôs, alienígenas, inventos mirabolantes e máquinas do tempo.

No entanto, as raízes do gênero acontecem num cenário muito diferente de tudo que concebemos como o lugar-comum da ficção científica, e são um tanto quanto assustadoras (pelo menos para quem vos escreve). Para contar esta história, precisamos voltar a 1818, época em que vivia a escritora Mary Shelley. Ela foi escreveu Frakenstein, considerada a primeira obra de ficção científica.

O livro surgiu durante a estadia da autora com o marido no Lago Léman, na França, junto de dois amigos escritores, John Polidori e o famoso Lord Byron. Os quatro eventualmente ficaram presos onde estavam, pois o Monte Tambora entrara em erupção e as cinzas lançadas na atmosfera cobriram todo o céu, deixando o hemisfério norte sem verão. Então, por medidas de precaução, teriam de aumentar sua estadia em Lago Léman.

Como passatempo, os quatro escritores revezavam-se contando histórias, principalmente de horror, até que Lord Byron propôs que cada um escrevesse sua própria história. O próprio escreveu uma narrativa que posteriormente seria usada em seu poema Mazeppa, Polidori escreveu a história O Vampiro (que mais tarde inspiraria Bram Stoker em seu Drácula) e Mary Shelley deu vida ao primeiro rascunho do que mais tarde seria Frankenstein.

Mary Shelley, autora de Frankenstein e precursora da ficção científica

É interessante analisar como o ambiente influencia o escritor. Naquela mesma noite, três clássicos da literatura mundial ganharam vida. Um poema de um dos maiores nomes do Romantismo, o conto que inspirou um dos maiores clássicos do horror e por fim o primeiro rascunho do que viria ser a primeira obra de ficção científica. Cogita-se também que naquela noite o marido de Mary ajudou-a bastante com o conto de Frankenstein.

Mas não foi apenas na cabeça de autores que a ficção científica tomava forma. O mundo da ciência também agitava-se com novas descobertas envolvendo a eletricidade e o uso do galvanismo. Naquela época, passaram a ser comuns experimentos envolvendo reanimação muscular de defuntos a partir de correntes elétricas injetadas por cátodos nos músculos e no cérebro do corpo.

Um caso célebre foi o de Matthew Clydesdale, condenado à forca por assassinato em novembro de 1818. Após execução em público, seu corpo foi conduzido até o centro de anatomia da Universidade de Glasgow para os cuidados do professor Andrew Ure. Os experimentos foram presenciados por estudantes de anatomia e, com eles, o professor procurava uma forma de trazer uma pessoa de volta à vida, a partir da eletricidade.

Obviamente, a eletricidade não fez reviver o condenado, mas seus músculos responderam aos estímulos elétricos. Espasmos involuntários, seguidos de expressões fantasmagóricas e movimentos das extremidades tomaram o cadáver. Alguns presentes desmaiaram, outros realmente acreditaram que o assassino voltara a vida.

O experimento galvânico do professor Andrew Ure

Os experimentos do professor Ure não foram pioneiros, tendo Giovanni Aldini feito testes semelhantes, e em público, no ano de 1803. O assunto tomava as manchetes de jornais, e caía na boca do povo. A publicação de Frankenstein foi em janeiro de 1818, e o experimento em Matthew Clydesdale em novembro do mesmo ano. Tudo isso tornou-se combustível para o imaginário popular na época, e começava a plantar as sementes do que seriam as fundações da ficção científica.

 

Victor Hugo
Graduado em Geofísica (sim, isso existe) e escritor nas horas vagas. Amante de literatura fantástica e que atualmente tenta tirar da prancheta o mundo de Atern, onde se passarão suas principais histórias. Sonha um ser um cientista como Einstein e um escritor como Tolkien (quem sabe algum dia!). Mais de suas obras em cronicasdoandarilho.com.br
Victor Hugo
Graduado em Geofísica (sim, isso existe) e escritor nas horas vagas. Amante de literatura fantástica e que atualmente tenta tirar da prancheta o mundo de Atern, onde se passarão suas principais histórias. Sonha um ser um cientista como Einstein e um escritor como Tolkien (quem sabe algum dia!). Mais de suas obras em cronicasdoandarilho.com.br
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