Texto de prazer ou fruição?

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“Texto de prazer: aquele que comenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura. Texto de fruição: aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta (talvez até um certo enfado), faz vacilar as bases históricas, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise em relação com a linguagem.” Roland Barthes (na imagem de capa).

O prazer do texto. Começo meu texto de hoje com essa citação de Barthes. Por um motivo bem simples: a literatura consola e também tira o mundo dos seus gonzos.

Ler é antes de tudo, romper com o propósito de um universo único. Lemos por que precisamos. É a sede de conhecer o que nos é diferente, estranho ou ainda exótico. Procuramos na literatura, as viagens que determinadas por espaço e tempo não podemos realizar. E então encontrando o caminho dessas viagens, passamos a procurar respostas, para um acontecimento cotidiano, para decepções, para alegrias…E quando encontramos, junto está a sensação de que algum ente no mundo, esteve na mesma situação. É ai que nos identificamos com alguma personagem, que nos dá a impressão de que é real, de que viveu semelhantes experiências. Não que a literatura seja perfeita, não que ela deva desconstruir nossa visão da vida. Não. É mais do que apenas isso.

A literatura permite uma expansão quase física de nossa existência. Trocamos de pontos de vista, continente e até mesmo de planeta. Não nos importamos com gêneros ou cor de pele. Vivenciamos o que queremos de nossas leituras. A literatura é uma escolha, então ela é de prazer, de gozo estético e de valoração da experiência.

Mas posso através da literatura, tomar conhecimento do que o autor me oferece como participação no mundo. Perceber que certos textos são portas que se abrem aos pares para que eu entenda o que se passa fora das mesmas páginas que me abstraem do mesmo mundo. Estranho pensar nisso não? Como num jogo de ir e vir no tempo e no texto.

A menina que roubava livros, de Markus Suzak
A menina que roubava livros, de Markus Suzak

Há um livro em especial que me toma de assalto. Nele encontro essas duas formas de ver a leitura: A menina que roubava livros de Markus Suzak. Liesel, personagem protagonista é uma leitora compulsiva. Ela rouba livros e das artimanhas dos roubos, segue-se o prazer de ler as histórias. Ao mesmo tempo vivendo na Alemanha nazista ela assiste todos os horrores do nazismo. A narradora da história é a Morte, que sempre esteve muito perto da menina. É fruição. Parece uma história boba, é um best-seller, vende muito; mas é também a reflexão sobre a devastação de um povo, da miséria e da maldade humana. Sob tudo isso, está a capacidade infinita do homem de sonhar. Infinito parece um adjetivo exagerado, mas enquanto houver humanidade e sonhadores, as histórias e as vontades passarão de uma geração à outra.

A literatura é a memória da humanidade. Ela se encarrega de lembrar-nos de muitas coisas. Uma memória coletiva e ao mesmo tempo individual. Cada livro carrega consigo o desejo de perpetuação de uma ideia, de uma vontade que se conjuga com a nossa. Cada leitura que fazemos funciona como um pacto entre essas vontades. E assumimos uma memória universal. O texto é de prazer e fruição. É tudo ao mesmo tempo.