Timur Vermes e a ironia nazista

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Em nenhum momento Timur Vermes quer reabilitar a imagem do ditador. Pelo contrário, o que Eles está de volta busca é destronar as vacas sagradas, confrontando a mística social que sustenta essa aura grave do passado alemão.

bestsellerautor-timur-vermesA eterna dúvida sobre os limites do humor lembra o dilema existencial da vaca. Se nasce em regiões específicas da Índia, é considerada uma divindade, adorada. Se vem ao mundo no Mato Grosso, em geral é retalhada e servida em churrascarias. São usos diversos, mas a mesma vaca.

Sociedades diferentes tem escrúpulos diferentes, dizem. No Brasil, por exemplo, se convencionou que ditadura militar é um tema excessivamente grave. Fazer piada com o assunto seria equivalente a um sul-africano ironizar o apartheid, a um argentino fazer pouco das Malvinas, a um alemão escrever um livro bem-humorado sobre Hitler, certo?

Errado. Em Ele está de volta, Timur Vermes desconstrói o mito da intocabilidade do nazismo na Alemanha. Mais: não só aborda campos de concentração, nacionalismo extremo e questões raciais, como faz tudo isso de maneira mais inteligente que a média.

No romance, Hitler narra em primeira pessoa seu despertar em pleno século XXI, num  parque de Berlim, depois de perder a consciência no bunker. Desorientado, caminha pela cidade, até ser acolhido pelo dono de uma banca de revista. Depois, numa sucessão de outras coincidências fantásticas, o ex-chanceler do Terceiro Reich consegue trabalho como humorista num programa de televisão, disseminando seu “discurso” ariano ao povo alemão. Novamente.

O sucesso é extraordinário. Intelectuais, jovens e parte da imprensa celebram o novo comediante como fenômeno da liberdade de expressão, descongestionador das velhas estruturas da Alemanha ocupada, essencialmente um poeta pós-moderno que vive intensamente seu personagem. O grande mérito do livro é, através de uma análise irreverente da sociedade alemã, tornar a ascensão de Hitler a ícone cultural um evento natural. Mais ou menos como deve ter sido na República de Weimar, nos anos 20 e 30.

Em nenhum momento Vermes quer reabilitar a imagem do ditador. Pelo contrário, o que Ele está de volta busca é destronar as vacas sagradas, confrontando a mística social que sustenta essa aura grave do passado alemão.

A História não ensina nada, a grande pedagogia da vida é uma lição vazia. O que se aprendeu com Dachau, Belsen e outros campos de concentração? Em qualquer dia, na África e em outros lugares, são cometidas mais atrocidades do que gostaríamos de admitir. Pior: com uma indiferença da nossa parte que pode ser lida quase como aprovação.

Demolir as questões “sérias” já é manter uma atitude mais humana diante delas – diferente da obediência automática travestida de respeito, digna de androides. O grande Kurt Tucholsky (alemão massacrado pelos nazistas) já escrevia que o motivo pelo qual algumas sociedades prezam tanto por valores caninos como fidelidade, é porque o cachorro defende com entusiasmo cretino a propriedade e a autoridade, que no final só servem à redução do cachorro ao que ele é: um animal doméstico, dócil, felizmente idiota.

Como muito bem se lê no livro de Vermes, só a irreverência realmente é capaz de desafiar esses deuses que selecionam tópicos e definem o que é e o que não é. O mundo precisa ser contestado, ironizado. Experimentado, ao invés de simplesmente vivido.