Todo leitor gosta de apanhar (mas os neuróticos reagem)

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A literatura nos dá tabefes para nos manter vivos e acordados; desse modo, lemos porque gostamos de ser provocados e porque temos de enfrentar nossos demônios internos, frustrações e preconceitos

Yelena Bryksenkova (2)
Ilustração: Yelena Bryksenkova

“Mme de Staël encontrara-se, em um bosque, com Luís Lambert (que fora matriculado e mantido no colégio Vendôme pela própria Mme de Staël, e cuja imortalidade tinha sido preconizada por ela), e vendo que o rapaz lia um livro pergunta-lhe se compreendia o que lia, e Lambert responde perguntando à Ilustre Senhora se ela rezava a Deus. À afirmativa de Mme de Staël, Luís Lambert pergunta-lhe novamente: ‘E compreende-o?’” (Paulo Sérgio Nolasco dos Santos, in: As Imagens em Movimento ou Imagens em Dissolução: no limiar de Virginia Woolf)

“O romance policial demonstra à perfeição o desejo de engodo e traição, de resto pertinente a toda a literatura, bem como a toda a sociedade. […] O leitor parece curtir ser enganado, não só com o enredo como com a luminosa solução final, em que a razão e a verdade triunfam e a justiça se faz, punindo-se os pecadores (a despeito da vítima que já se encontrava estirada, em decúbito dorsal, desde o começo da narrativa).” (Gustavo Bernardo, in: A Traição Pertinente)

Por que lemos? Mais especificamente, por que lemos ficção? Há décadas, os teóricos da literatura não conseguem sequer definir o termo. Trabalha-se com paratextos, estudando os gêneros, os tipos textuais, a recepção, os mecanismos estéticos etc. Mas ninguém consegue precisar essa necessidade profunda de alimentar-se de experiências alheias para lidar mais efetivamente com a própria realidade. Ler por prazer é um ato quase religioso. Um dogma. Aceita-se sem contestar. Não vá querer discutir com um leitor, desprezar seu hábito, pôr sua sanidade em dúvida. Você só ganharia um inimigo – e um inimigo com argumentos, porque é amigo das palavras.

Gostamos de ler porque gostamos. Porque isso nos torna humanos. Inevitavelmente humanos, lendo sobre outros humanos, que sofrem como nós. E rimos, choramos, torcemos, odiamos, amamos aqueles personagens, tão próximos, tão diferentes de nós. Certas emoções precisam vir à tona, ser processadas, ou somos massacrados pela rotina e passamos a viver no piloto automático. Você é o que você lê. Seu romance de cabeceira diz muito sobre sua personalidade. Suas leituras mudam porque você amadurece ou você amadurece por causa de suas leituras, que o modificaram. A vida ensina na prática, sim, mas os livros são um atalho. Melhor aprender se divertindo do que encarando a dura realidade, sem anestesia. Isto é: melhor apanhar dos livros do que apanhar da vida.

A verdade é que gostamos de ser provocados. Precisamos disso. Precisamos enfrentar nossos demônios internos. Lidar com nossas frustrações, preconceitos, crises existenciais, mesmo que de forma intuitiva e imperceptível. As metáforas da ficção nos guiam rumo ao autoconhecimento. Isso gera um poder transformador. Ler nos tira da zona de conforto e nos prepara para o campo de batalha rumo ao que queremos conquistar.

Por isso amamos as falsas pistas dos romances policiais, os plot twists, as expectativas frustradas, tudo para sermos reconfortados (ou não) ao final. E queremos mais. Sempre mais. Da puerilidade da poesia à imprevisibilidade da prosa. Da esperança romântica ao pessimismo realista. O importante é saber que continuamos vivos, com os sentimentos à flor da pele e a razão preservada, num misto paradoxal que funciona muito bem.

Todo leitor gosta de apanhar. Mas os neuróticos reagem. Procuram o alívio de um best-seller de má qualidade, não contestam o que leem nem o que vivem. Não entendem que o poeta é um fingidor – e o leitor também, já que aceita o pacto. Preferem luvas de pelica. Acham que estão protegidos numa bolha contra as armadilhas sociais, quando não poderiam estar mais expostos, pois seu interior é de vidro.

Não precisamos entender por que lemos ou por que gostamos disso. Porém, é necessário que estejamos abertos a crescer com a experiência em vez de apenas absorver passivamente o conteúdo. Precisamos ser tolerantes aos tabefes que a literatura nos dá para nos manter acordados, ou a vida nos dará uma surra muito maior.

Boa leitura!