Tradução Literária: uma conversa com Christian Schwartz sobre inglês

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A série Tradução Literária, uma breve conversa sobre a tradução continua – e o Homo Literatus conversou com Christian Schwartz, pelas mãos de quem o High Fidelity de Nick Hornby tornou-se o Alta Fidelidade, além de outras obras deste e de outros autores.Christian-Schwartz-3_Kraw-Penas1

Por que o interesse em inglês e como você aprendeu o idioma? Há alguma técnica ou recomendação especial para aprender?
Pra alguém com algum interesse em línguas (e, por tabela, literatura, histórias enfim – pra não falar de música pop em particular), não tem como escapar do inglês. A questão, portanto, nem é de ter optado pelo inglês – embora, mais tarde, eu tenha, sim, escolhido aprender também francês e, recentemente, um pouquinho de alemão; o caso é que, pela onipresença do inglês no mundo da cultura há várias décadas, alguém com pretensões artísticas e/ou intelectuais é obrigado a conhecer a língua, que, no meu caso, foi aprendida de forma autodidata. Aqui, uma observação importante: não é preciso saber desde criança a língua da qual se vai traduzir. Pode ajudar um pouco. Mas a questão não é saber FALAR uma língua como nativo – há grandes tradutores que, aliás, não falam a língua da qual traduzem. O principal é saber LER naquela língua – e ainda assim consultam-se dicionários e internet o tempo todo pra tirar dúvidas; e, talvez mais essencial, o tradutor precisa dominar a prosa literária NA PRÓPRIA LÍNGUA. Um bom tradutor, em suma, é um leitor diferenciado e que tenha bons recursos na língua ESCRITA em que será publicada a tradução.
Como você conheceu a obra de Nick Hornby?
Hornby é quase um ícone pra quem, na minha geração, soma ao gosto pela literatura outros dois: por música pop e futebol. Mas quem me apresentou mesmo o autor foi minha mulher, numa passagem curiosa da minha vida de leitor que conto ao final de um depoimento pro blog da Companhia das Letras (clique aqui).
Quais particularidades você notou durante a tradução?
A particularidade principal é a “voz” típica e cativante dos narradores de Hornby. Eles parecem conversar com a gente (e, aliás, convidam a usar muito “a gente”, essa intimidade boa do português brasileiro, no texto traduzido). Daí ter me permitido outras muitas coloquialidades nas traduções dele que fiz até agora (Alta Fidelidade, Febre de Bola e Uma Longa Queda): alguns “encontrar ela” em vez de “encontrá-la”, o uso geral de “pra”/ “pro”/ “pra um(a)” e, sobretudo, a presença de artigo diante de nome próprio — “o Barry falou”, “a Laura disse” etc. Isso pra não mencionar o gosto com que empreguei algumas expressões coloquiais e muitos, muitos palavrões. Mas, claro, todos esses recursos são mais ou menos usados conforme o livro e o narrador: Hornby escreveu uma dezena de romances diferentes entre si, mesmo que todos em chave pop.
Qual é a realidade do mercado de traduções no Brasil? São encomendadas ou podem ser escolhidas?
Há cada vez mais mercado no Brasil, me parece. Há mais editoras de grande porte – inclusive multinacionais – investindo em tradução de títulos estrangeiros, embora fundamentalmente do inglês. A remuneração varia bastante de uma casa editorial a outra. Diria que de razoável a boa. Quanto à segunda parte da questão: as obras são compradas pelas editoras conforme critérios comerciais/editoriais que elas definem, e então as traduções são encomendadas aos tradutores. Só em situações muito especiais, particularmente no caso de traduções feitas como projetos acadêmicos pouco ou nada comerciais, por exemplo, é que a iniciativa pode ser do tradutor. No entanto, dos cerca de 30 livros em que trabalhei (sozinho ou em coautoria), dois foram indicados por mim pra editora (Nossa Cultura, aqui de Curitiba): Caro Morrissey e Quem escreveu Shakespeare. Mas isso é exceção.
Qual o caminho indicado para quem quer se tornar tradutor?
O tradutor é um tipo de escritor (menos prestigiado, é verdade). Depende de uma soma de talento e formação. A vantagem do tradutor é que ele tem remuneração imediata (ainda que apenas razoável… mas melhorando!), enquanto outros tipos de autor às vezes demoram anos pra ganhar dinheiro com o que escrevem, isso quando chegam a ganhar. Então o caminho é: descubra quanto há de escritor em você; e comece a escrever/traduzir – se você for bom mesmo, as oportunidades de publicar e ganhar a vida com isso virão naturalmente.