Conto: Um chute de desespero

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Um chute de desespero - ilustracao de Ellen Kiechle

Derrotado pelas recordações, Edmundo alisou um tufo de pelos que escapava entre a camisa e a calça, emergindo da pança protuberante. Como pôde engordar tanto? Culpa de Minerva, sempre cozinhando e cozinhando, fica difícil se manter magro como era.

Amor, ele gritou, O jantar vai demorar?

Muda de canal, ela respondeu.

O que tem pra comer?

Ai, meu fofinho, disse ela, vindo até a porta da sala, Frango ao molho curry, arrozinho à grega, uns negocinhos aqui que é surpresa, além de um vinhozinho.

Vinhozinho?

Já mudou de canal? Não vê essas coisas de futebol não.

Não te disse pra não comprar vinho, Minerva? Pagou no cartão?

Uma garrafa de tinto, Amalaya, 2009, um argentino. Pelos velhos tempos.

Argentino ainda? Não tenho mais a grana dos velhos tempos.

Muda de canal, daqui a pouco tá tudo pronto.

Edmundo mudou de canal, mas não de programação. A televisão passou a exibir os gols mais incríveis de um ex-jogador de futebol. Ao ver a plasticidade dos lances, ele se afundou ainda mais no sofá, soltando um suspiro. Só existe uma arte, pensou, e ela se chama futebol. Dentro de campo, uma batalha de onze contra onze, apenas raça, amor e paixão, como cantava o coro de umas das maiores torcidas do país. Cravou as unhas nas palmas das mãos, dizendo a si mesmo que era confortável, ali de seu sofá, ficar alimentando seu vício futebolístico. Meu Deus como era bom, era sim. Repetia para si que tudo estava bem, jurava até. Ah, se Minerva trouxesse aquela cervejinha… Aumentaria sua pança, mas seria perfeito!

Assistir a estes lances, novamente, só aumenta seu prazer. Os homens de verdade sabem tratar uma bola, considerou, concluindo que sua atitude em relação ao futebol, era a mesma de uma mulher em relação às preliminares sexuais, quando o tesão ia se acumulando e acumulando até chegar ao sexo de verdade e, finalmente, ao orgasmo, à conquista de uma taça. Voltou sua atenção para a tela à sua frente, a tempo de ver o gol que, segundo a matéria, foi o mais bonito da carreira do ex-jogador. No lance de contra-ataque, o craque saía com a bola de antes do meio-campo, deixando dois zagueiros para trás, invadia a área adversária e com um totozinho, uma raspadinha genial por debaixo da bola, encobria o goleiro, fazendo com que a redonda morresse no fundo da rede, como gostavam de narrar alguns locutores. Mas a seguir, veio a brochada, a repetição daquele lance maldito que tanto o perturbava.

Edmundo, você sabe que não devia ficar vendo esses programas na televisão. Sabe disso, meu fofinho.

Era a voz, doce e delicada, de sua Minerva, a única que ainda estava ao seu lado. Andava engordando a franguinha, mas gostava dela.

O que você quer que eu faça então?, perguntou a ele.

Devia arrumar um hobbie, uma outra coisa, sabe?

Com meu emprego de burocrata, a única coisa em que consigo pensar é catar papel nos escritórios dos outros, pra reciclagem.

É uma coisa bonitinha de se fazer, ecológica, Minerva diz, antes de voltar para a cozinha.

Se não fosse o acontecimento… Não estaria neste sofá, feito uma orca encalhada na praia, merda! A situação lhe engasga, uma falta de tesão pela vida. A melancolia cresce ainda mais quando a matéria repete o maldito lance, do jovem craque indo chutar a bola, um pênalti em semifinal de campeonato, e o gesto agressivo da grama, lhe empurrando o pé de apoio, cuspindo fora um futuro genial. Triste destino para alguém tão promissor. Nunca viu daquilo, apenas por um chute, por um chute de desespero, alguém deixar de jogar.

Após a música de fundo abaixar, a locução da reportagem aparece, Lamentavelmente, ao cair, o jogador bateu com a cabeça, ficando desacordado. Pedimos ao Dr. Saul Ramos, que cuidou do atleta, há dez anos atrás, que explicasse o que aconteceu.

Edmundo agradece a Deus pela troca da imagem do jogador caindo, até mesmo em super câmera lenta, pela do velho, com entradas no cabelo branco, ancorando as orelhas de morcego.

O médico complementou a locução da reportagem, Após a concussão, ou seja, uma lesão traumática aguda, que atingiu o cerebelo do atleta, aconteceu uma ataxia, de forma que ele não consegue mais controlar seus movimentos e, ainda por sorte, num caso raro, o trauma atingiu apenas as pernas e não os braços. Foi difícil, mas tivemos de dizer a ele que nunca mais iria jogar futebol. E embora sustentassem seu corpo, suas pernas não tinham mais a explosão física necessária. Uma pena.

Tomado pelo ódio, Edmundo apertou com as duas mãos sua pança, no ponto mais alto dessas bolas todas que parecia ter engolido. Depois, desceu a mão direita até a parte de pele que aparecia, onde a camisa não alcançava a calça. De uma só vez, arrancou alguns tufos de cabelo da barriga. A vida era uma porra injusta. Algumas lágrimas desceram de seus olhos, ainda que nem mesmo no dia do acontecimento tivesse chorado.

O jantar tá pronto, Minerva gritou.

Se apoiando no braço do sofá, Edmundo alcançou as muletas. Precisou se esforçar muito para se colocar de pé, sentindo o incômodo dos ferros apoiados em seu sovaco. Maldito futebol, pensou antes de entrar na cozinha.

 ***

Ilustração de Ellen Kiechle.