Um Fôlego conciso e fortíssimo em formato de novela

0
487

Em Fôlego, novela de Rafael Mendes, a memória do protagonista predomina sobre o presente e costura o que ele entende por passado.

Processed with VSCOcam
Rafael Mendes, autor do livro “Fôlego”

 

“Respire devagar.” (p.16)
Rafael Mendes
 

Existe outra foto além daquela guardada pelo narrador. Pelo menos ele acredita nisso, desconhecendo o sabor de uma lembrança vinda por uma foto. E não tarda para a memória do protagonista de Fôlego, novela de Rafael Mendes, predominar sobre o presente e costurar o que ele entende por passado.

O infante acompanhava o pai em seu serviço, e aguardava as instruções paternas inerte diante da imundície da vila. O pai aconselha o filho a estudar para não ter de meter a mão na sujeira, e essa fala fica gravada quase como um guia, não tanto por seu significado mas pelo que ela passa a representar em meio aos diálogos rápidos de sua família.

Velozes porque cada um tem sua briga consigo e com o mundo, quando não aquelas entre si, como se precisasse de mais; e é por meio delas, além dos fatos (re)lembrados pelo narrador, que sabemos das raízes desta história. Ela pode soar simples, mas possui uma complexidade sutil pelo dito e pelo não dito, ambos concisos e fortes, quase como se os diálogos fossem combativos (teria sido uma possível influência de Um Copo de Cólera pela força da narrativa?). Há algumas explicações, mas elas não aliviam o fôlego do personagem, não é difícil o imaginar perdido ao presenciar ou se lembrar de algo a cada respirada, principalmente quando ele se volta para o seu presente.

Afinal, ambos tempos passam em um sopro, indiferentes para com o ritmo da respiração de quem os vive e conta, como no caso desta novela. Fôlego acerta na brevidade não apenas pelo formato novela, conhecido também por sua curta extensão, mas pela concisão e maneira como se conta a história, deixando a você desbravar o que se conta a cada lufada de ar. E descobrir o sabor de uma lembrança, quem sabe.

 

Referência:

MENDES, Rafael. Fôlego. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2014