Um momento ruim

O momento mais importante da competição. Todos os olhares estão voltados para você, têm esperança em você. Sob os seus próprios olhos, a barra delgada na qual se equilibra. Muitos admiram suas manobras sobre ela; os saltos que você, dono de muitos títulos nessa categoria de ginástica olímpica, consegue dar e pousar em pé. É hora de repetir suas façanhas. Agora é o momento em que elas, de fato, importam.

Você dá o primeiro salto. Repete o impulso que já realizou centenas, milhares, de vezes nos treinos. Você sempre acerta, quase sempre de forma irretocável. Dessa vez, no entanto, na final do campeonato mundial, não foi das melhores. Não foi nenhum grande deslize, você caiu de pé e equilibrado, mas sente que passou longe de ser o melhor que você tem a oferecer.

Você respira fundo, tenta restabelecer a concentração. Foque no que está fazendo, cara; isso é a coisa mais importante da sua vida. É o que você sabe fazer; aliás, é praticamente a única coisa que você saber fazer de verdade. Vamos lá, é apenas o que você pratica todos os dias. Basta se concentrar.

Uma nova sequência, um segundo salto e… seu pé não se firma sobre a barra. Escorrega e você quase cai. Você sente todo o estádio se contrair num suspiro nervoso. Esqueça isso tudo, deixe isso tudo pra lá. Concentre-se, caralho. Faça a sua parte e só.



Agora cada um dos passos tem que trespassar a sombra do escorregão anterior. Você tenta se concentrar, mas aquela pisada em falso cruza seu pensamento a toda hora. Com ela, vem a perspectiva de que suas notas podem já estar arruinadas a essa altura, não importa o que você faça. A partir dessa constatação, você pensa que talvez tenha que mostrar uma performance ainda melhor do que a sua de costume para compensar. Daí você se pergunta se deve se arriscar mais ou não: por um lado você precisa se superar para conseguir boas notas, e por outro você não está num dia bom – não está dando conta nem das suas manobras básicas. Então você tenta esquecer tudo isso e se concentrar na sua rotina já treinada.

Você faz algumas das manobras mais elementares da série. Talvez isso ajude a colocá-lo de volta no prumo. Mas nenhuma delas funciona exatamente como devia. Você não consegue entender por quê. Não há nada de erado com a barra, não há nada de errado com seus calçados, não há nada de errado com você – além do fato de seu corpo e a gravidade parecerem não estarem calibrados da mesma forma de sempre. Ok, talvez seu nervosismo esteja se retroalimentando e piorando as coisas; mas você iniciou sua apresentação tão calmo como sempre.

Você já realizou essa mesma série centenas de vezes. Sabe que ainda a repetirá outras centenas, todas muito mais precisas do que essa, desse momento. Você sabe que dali a algumas horas fará esses mesmo gestos com perfeição, esses gestos que lhe escapam agora. Sabe que dirá para si mesmo: “Por que não consegui fazer isso naquela hora, quando importava?” Você sabe que não existirá resposta para essa pergunta.

Você tenta diminuir o peso de sua responsabilidade. Tenta pensar naquilo como se fora uma brincadeira: qual o sentido se não te alegra, não é mesmo? Você lembra de quando começou essa história de ginástica olímpica: uma criança se divertindo ao pular na barra.

Você realiza as últimas manobras. Não caiu, não fez nada de muito errado. Mas já nem consegue saber se analisa sua própria performance dessa maneira porque ela foi de fato razoável, ou se nos pequenos detalhes ela foi uma porcaria, e você apenas a julga suficiente em face de seu desamparo ou, o que é pior, sua auto-indulgência. No fim você vê que, pra ser honesto consigo mesmo, sua performance está ruim; e isso faz ela piorar. Você percebe, na verdade, que sua vontade é de acabar logo com aquilo.

Mas “aquilo” é a coisa mais importante da sua vida. É muito triste a coisa mais importante da sua vida virar um fardo. Você dedica toda sua energia e tempo a ela. É ela que define você. E agora você quer fugir da única coisa que lhe serve de medida. Você quer mandar tudo aquilo à merda, e, no entanto, sabe que não lhe resta muito mais a fazer no mundo se você não estiver fazendo isso bem. E é incrivelmente frustrante falhar na única coisa que lhe importa. Falhar naqueles pouco minutos que valiam uma vida, um legado. Por nada. Porque seu pé não se firma.

É mais ou menos essa a sensação do bloqueio criativo para um escritor. Só que dura mais tempo.



Rafael Gallo
é escritor, músico e professor. Seu livro de estreia, "Réveillon e outros dias", foi vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2011/2012. Como músico e professor, atua nas áreas de trilha sonora para TV, Cinema e outras mídias, fazendo parte do corpo docente da AIC - Academia Internacional de Cinema. Mantém um blog pessoal sobre literatura e outros temas (www.labirintoinvisivel.wordpress.com), e um sobre trilhas sonoras (www.ouvindofilmes.wordpress.com).
Rafael Gallo
é escritor, músico e professor. Seu livro de estreia, "Réveillon e outros dias", foi vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2011/2012. Como músico e professor, atua nas áreas de trilha sonora para TV, Cinema e outras mídias, fazendo parte do corpo docente da AIC - Academia Internacional de Cinema. Mantém um blog pessoal sobre literatura e outros temas (www.labirintoinvisivel.wordpress.com), e um sobre trilhas sonoras (www.ouvindofilmes.wordpress.com).
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