Um olhar sobre o feminismo de ontem e de hoje

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Mulheres e homens já tiveram mais ganhos do que perdas com o feminismo

Antes de tudo, por muitas coisas que se tem lido em comentários na internet, é preciso repetir incansavelmente que o feminismo não é o contrário de machismo. O Feminismo surgiu como um movimento social para lutar por direitos civis iguais entre homens e mulheres, já o machismo está relacionado ao sexismo, a crença na superioridade sexual. Não é necessariamente sinônimo de virilidade, há mulheres “machistas”, como há homens que apoiam causas feministas. Na sua forma mais radical podemos chamar o machismo de misoginia (ódio ou aversão às mulheres), não se sabe exatamente onde termina um e começa o outro.

É possível encontrar temas referentes aos direitos da mulher já no século XV. A poeta e filósofa italiana Cristina de Pisano que viveu na França e faleceu em 1430, criticava a misoginia no meio literário da época e defendia o papel das mulheres na sociedade. Segundo estudiosos o feminismo moderno surgiu no contexto social e político da Revolução Francesa, período do iluminismo no século XVIII, embora ainda não se atribuísse o conceito à essas manifestações, mas sua origem formal teria sido em 1848 , na convenção dos direitos da mulher em Nova York. Outros momentos que impulsionaram o feminismo foram a Revolução Industrial e o período posterior à segunda Grande Guerra, mas seu auge se deu entre o final dos anos 1960 e a década de 70 com a revolução de costumes, dizem que a única revolução que deu certo no século 20, apesar das arestas.

Ao contrário do que possa parecer, o feminismo melhorou a relação entre homens e mulheres, tirando parte do peso da cobrança social em cima de ambos, e muitos dos direitos das mulheres de hoje se deve à coragem das mulheres no passado. Hoje, no mundo e no Brasil, os movimentos feministas contemporâneos adotaram a estratégia da provocação e do confronto para chamar atenção às suas reivindicações e estão muito presentes nas redes. Sem entrar aqui no mérito dos métodos adotados, as questões levantadas vão desde à liberdade do próprio corpo até outras de viés mais político como a laicidade do Estado e o questionamento do papel da mulher no capitalismo neoliberal. Entretanto não há unidade dentro dos movimentos, há coisas delicadas e mal resolvidas como relatos de casos de discriminação entre suas próprias integrantes. Uma grande contradição se imaginarmos que o feminismo pela sua origem, deveria se opor a todo tipo de preconceito.

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Entre tantas polêmicas que envolvem o tema, o episódio mais recente sobre as reações causadas pelas declarações de uma conhecida atriz, mostrou mais uma vez como o assunto tem potencial inflamável. Mas chama a atenção uma palavra dita por ela, mas da mesma forma muito comum de se ouvir: vitimização. “A vitimização do discurso feminista me irrita mais que o machismo”, disse a atriz. Vitimização como está subentendido, é fazer-se de vítima, de coitado, ter autocompaixão. Mas vamos pensar sobre a semântica da palavra, seu significado dentro do contexto. A expressão se dirige como crítica ao feminismo, mas pode se dirigir a qualquer movimento ou manifestação de grupos que se sintam socialmente excluídos ou discriminados de alguma maneira. A palavra “vitimização” serve para desqualificar o feminismo equiparando-o à sentimentos de autocompaixão, a mensagem então é a seguinte: não o leve a sério. O interessante é notar que ir à luta de alguma forma por seus direitos e não ficar apenas reclamando, é agir exatamente ao contrário de um sentimento paralisante de autocompaixão.

Esta expressão assim como outras que surgiram nos últimos tempos, tem o efeito de confundir ou mesmo reforçar a violência verbal contra o feminismo, ou pior, depreciar aquelas mulheres que são de fato vítimas. A violência física, moral e sexual contra a mulher não é falácia, não se trata de histeria das feministas como querem alguns, é uma realidade que vem crescendo no Brasil e no mundo. Segundo dados, os crimes contra a mulher são justificados por questões de ordem cultural ou mesmo religiosas. No passado o machismo era algo normal como muitas outras coisas foram e não são mais, e no Brasil tem suas raízes na sociedade patriarcal da época da colonização, mas foi um tempo em que a mulher não saía para trabalhar, tinha pouco acesso aos estudos, se casava cedo, não tinha direito ao voto ou a representação política, e os papéis estavam portanto, bem definidos.

Há sim exageros de todas as partes. Não faz muito tempo, nos Estados Unidos, uma escola queria processar um menino de 6 anos por assédio sexual, simplesmente porque ele havia beijado uma coleguinha de classe. Vivemos uma era de confusão e medo generalizados, culpa talvez do excesso de informações que recebemos a todo instante, mas quando se coloca tudo no mesmo caldeirão da insensatez, onde confundimos o tipo de roupa da mulher ou uma mulher sozinha como um convite para sexo, mas onde também um simples flerte pode ser confundido com abordagem agressiva e a curiosidade inocente ou o despertar da sexualidade humana que nada tem de criminoso ou imoral, com assédio, parece que algo precisa ser revisto. Ao mesmo tempo que se luta para derrubar alguns conceitos ultrapassados e opressivos, queremos ditar novas regras de comportamento sem considerar as vivências pessoais e as peculiaridades de cada um, o direito individual e o meio e o tempo em que estamos. Mas apesar de tudo, no balanço geral, mulheres e homens já tiveram mais ganhos do que perdas com o feminismo.