Um século de Edgar Morin: a obra de uma vida

A obra do autor francês Edgar Morin, que completou 100 anos recentemente, continua preservada pela complexidade do seu tempo.

Edgar Morin

O século de Edgar Morin

Não haverá século como o último que se encerrou. Além da vaidade de historiadores, observa-se a trama, ora cruel, ora revolucionária, que estes cem anos trouxeram. Assim, não é errado dizer que o tempo passava mais devagar cem anos atrás.

No último 8 de julho, outro século chega aos seus olhares: o século de Edgar Morin. O premiado autor, sociólogo, revolucionário e ex-comunista adentrou aos cem anos dando luz ao que podemos chamar de obra de uma vida. Sua experiência secular virou ensinamento escrito em “Leçons d’un siècle de vie” (Denoël, ainda sem tradução para o português), seu recente livro publicado.

O relato flutua nas teorias interconectadas entre Morin e seu olhar lúcido como testemunha ocular do tempo: o período entre guerras, a ascensão do fascismo, a resistência parisiense, o mundo polarizado, maio de 68, a contracultura, a queda do muro de Berlim e o fim de um século que até hoje nos espreita pela fechadura. É dessa amálgama complexa que o autor francês teceu sua vida e seus pensamentos.

O tempo cultivou suas ideias e nos legou o melhor de uma mente inquietamente curiosa. Isso que conhecemos hoje por passado, Morin guarda como lembrança viva.

A obra da vida

Talvez não haja tarefa mais difícil a um escritor que eleger, dentre todos os seus escritos, a obra de sua vida. É como perguntar a uma mãe qual é o seu filho favorito. Gabriel García Márquez respondia na lata: sua obra autoral favorita era “Ninguém escreve ao coronel”. Vargas Llosa, para usar outro sul-americano, soava mais trágico – se tivesse que salvar uma obra sua do fogo (e somente nesta ocasião), esta seria “Conversa na Catedral”.

Edgar Morin, decerto, levaria algum tempo para escolher a obra da sua vida. Não apenas pela qualidade de seus tratados, estudos, ensaios e filmes, mas pela quantidade. São mais de 100 obras escritas publicadas.

Igualmente tão difícil deve ter sido para o autor resumir seus anos em apenas 160 páginas, pescando um evento aqui e devolvendo outros ao mar da memória. Completada uma centena de vida, é correto dizer que ele renasceu diversas vezes ao longo deste tempo.

Uma breve biografia

Edgar Nahoum veio de uma família de judeus sefarditas e quase não nasceu naquele 8 de julho de 1921, quando sua mãe entrou em trabalho de parto. Desaconselhada a ter filhos, Luna Beressi sofria de complicações causadas pela gripe espanhola. Ambos sobreviveram, mas dez anos depois, após a morte de sua mãe, o jovem experimentaria sua “Hiroshima interior”.

Seu pseudônimo “Morin” nasceu algum tempo depois, em 1943, em meio ao fogo cruzado de Paris. Foi o codinome escolhido nos anos de resistência ao nazismo. Anos antes, ele fazia parte de um partido de esquerda pacifista e antifascista. Morin adotava uma posição anti-stalinista, sendo contrário ao que era defendido pelo Partido Comunista Francês, mas filiou-se como única alternativa de vencer os nazistas. Tempos mais tarde, ele se afastaria do partido por divergências intelectuais, mas sem apagar a influência marxista de suas obras. Morin denunciou o caráter dogmático que o partido tomara. Ateu declarado, negou “deus” pela segunda vez – mas o deus do partido desta vez.

“Eu tinha tomado consciência do caráter místico, religioso do partido. Tinha visto que ele transformava seres inicialmente bonachões e tolerantes em fanáticos obtusos. Mas foi o excesso de mentiras e ignomínias reunidas nesse processo, como que num microcosmo, que me fez, literalmente, vomitar toda a minha crença.”

A última face de Edgar Morin, o intelectual e exímio juntador de ideias complexas, veio nascer em época próxima, embora já viesse sendo gerado há tempos entre os cânones da biblioteca. Os clássicos Dostoiévski, Proust e Jack London influenciaram em grande medida sua maneira de pensar. Foi a partir dos anos 50 que ele daria o passo inicial em ativa carreira acadêmica por vários campos das ciências sociais. É, principalmente, na tríade de estudos sobre educação, comunicação de massa e epistemologia que seu nome está eternizado nas referências e imaginário dos acadêmicos.

Para saber mais sobre a biografia de Edgar Morin, acesse: Biografia de Edgar Morin em Quadrinhos

O pensamento complexo ou uma nova forma de pensar

Sua maior contribuição, mesmo que ele não defina como tal, foi no aprofundamento acurado da chamada “teoria da complexidade”. O pensador põe em dúvida o atual modelo cartesiano de produzir ciência, segregando conhecimentos amplos em fronteiras isoladas. Em contraponto, ele propõe uma tese de interligação dos conhecimentos em uma grande teia em que uma ideia se conecta a outra. Uma de suas bandeiras está contra uma “hiperespecialização” do ensino.

Ideia apenas mais complexa (mas não complicada) que seu cânone pessoal: a conversa entre seus textos é evidente. Morin considera que definir o homem como Homo Sapiens Sapiens é dogmático demais para definir sua profundidade como ser pensante. Ao epíteto ele adiciona um Demens no fim.

Ao mesmo tempo em que o homem se vê capaz de raciocinar e produzir interligações epistemológicas, ele se vê regido pela emoção e “desrazão” primitiva. Unindo uma contradição aparente, porém complementar, Morin superou a dialética enraizada no pensamento científico. A este efeito de juntar contradições, chamou-a dialógica.

Dificilmente haverá entre nós outro Homo Sapiens Sapiens Demens, capaz de raciocinar friamente enquanto se perde na emoção e tão “complexo” quanto Edgar Morin. Ao reunir tantas ideias, ele se faz presente mesmo que não saibamos. O pensamento conservado nos traz uma forma de pensar “dialogicamente” super original.

Lições para um próximo século

Edgar Morin não promete nenhum ensinamento ou reflexão em seu último livro. Na contramão do título, o francês nos insiste em mostrar que a história até pode ser “inteligível a posteriori, mas imprevisível a priori.

“Que seja entendido que eu dou lições a ninguém. Eu tento tirá-las de uma experiência secular e uma vida centenária, e espero que sejam úteis a todos, não só para questionar a própria vida, mas também para encontrar seu próprio caminho”, faz a “auto-descrição” de sua obra.

Jurando não nos dar lições, Morin cai mais uma vez em sua “contradição” dialógica. O “pacifista e guerrilheiro, comunista e anti-stalinista”, como o definiu o jornal Le Monde, tem muito ainda a nos ensinar, em seus mais diversos estudos, para os próximos séculos que virão. Todo dia acaba um século diferente, é verdade, mas com certeza o de Morin teve um sabor especial.

Referências:

Le Monde. Disponível em https://www.lemonde.fr/idees/article/2021/07/07/lecons-d-un-siecle-de-vie-ou-cent-ans-de-sollicitude_6087294_3232.html . Acesso em 12/07/2021

Jornal da USP. Disponível em https://jornal.usp.br/cultura/cem-anos-de-sabedoria-e-complexidades/ . Acesso em 13/07/2021

Folha de São Paulo. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/07/edgar-morin-conta-por-que-rompeu-com-comunismo-em-biografia-inedita-leia.shtml?utm_source=twitter&utm_medium=social&utm_campaign=twfolha . Acesso em 12/07/2021

Ninis, Alessandra Bortoni e Bilibio, Marco AurélioHomo sapiens, Homo demens e Homo degradandis: a psiquê humana e a crise ambiental. Psicologia & Sociedade [online]. 2012, v. 24, n. 1 [Acessado 12 Julho 2021] , pp. 46-55. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0102-71822012000100006>. Epub 24 Abr 2012. ISSN 1807-0310. https://doi.org/10.1590/S0102-71822012000100006.

Site do SESC ao centenário de Edgar Morin. Disponível em: https://edgarmorin.sescsp.org.br/ Acesso em 12/07/2021

Dom Bosco. Disponível em: https://www.dombosco.com.br/noticias/como-desenvolver-o-pensamento-complexo-de-seus-alunos-.html . Acesso em 13/07/2021

Eduardo Reitz
Graduando em Jornalismo, escreveu para o blog Pasch-Net, braço do Goethe Institut, e teve um conto selecionado no concurso "Ich habe einen Traum", do Ministério de Relações Exteriores da Alemanha. Acredita que o jornalismo vai muito além do lide e que a literatura não acaba com o fechar do livro.
Eduardo Reitz
Graduando em Jornalismo, escreveu para o blog Pasch-Net, braço do Goethe Institut, e teve um conto selecionado no concurso "Ich habe einen Traum", do Ministério de Relações Exteriores da Alemanha. Acredita que o jornalismo vai muito além do lide e que a literatura não acaba com o fechar do livro.
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