Um tal de “B.” e o seu contrário, de Bruno Liberal

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Em O contrário de B., Bruno Liberal desenvolve contos que são verdadeiros socos no crânio

bruno-contrariodebJá dizia o Kafka que um livro deve ser “como um soco no crânio” para que valha a pena ser lido; e de fato, se a vida é um faz de contas tão sério, a revelação desse faz de contas escancaradamente, ironicamente, por meio da literatura é o que faz essa última ainda ter uma razão de ser. Por que Carroll é tão foda e Machado tão atrativo? Justamente por essa revelação irônica, sarcástica, cômica, por vezes sutil, do faz de contas. A função da arte não residiria apenas no clássico revelar o belo, mas também, e, sobretudo na revelação do submundo escroto de nossos construtos sociais e, mesmo, de nossa civilização tresloucada, cujo sentido de belo é apenas uma maquiagem que cobre às vezes a podridão.

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Confraria do Vento, 2015

Nesse sentido, o novo livro do Bruno Liberal é um ganho para a literatura que se faz nessa periferia do mundo, para essa literatura em língua portuguesa editada no Brasil. O contrário de B. (Confraria do Vento, 2015) não é necessariamente como “um soco no crânio” (preciso falar a verdade), mas é como uma náusea no estômago, ou como uma azia que não tem remédio que cure. Como um dedo na goela, poderíamos dizer assim. O fato de (para mim) não ser como um soco no crânio, indica apenas um caminho que o Bruno tem trilhado muito bem para chegar lá, para chegar no soco que será dado como um tiro de misericórdia. Li o seu segundo livro Olho morto amarelo (Cepe, 2013) que venceu (com mérito) o I Prêmio Pernambuco de Literatura e ali constatei um talento de contista, e que esse cidadão de sobrenome tão descaradamente de direita é, aliás, um economista (ele)!

O contrário de B. se mostra uma interpretação interessantíssima da base da sociedade. É como uma grande ironia, ou como uma unha invisível que pouco a pouco descasca a ferida que sangra mais uma vez sobre a pele de uma criança. Em tempos em que tantos defendem a “família tradicional”, o seu núcleo precioso, etc., tentando impedir que o diferente ganhe lugar, Bruno nos mostra o que a família, enquanto reunião de indivíduos (portanto, de mundos) é de fato: muitas vezes um entrechoque irracional de desejos frustrados em prol de um bem estar que nunca vem sincero. O seu livro inteiro parece uma reflexão continuada a partir do conto Os obedientes da Clarice Lispector.

Desfilam em suas passarelas cônjuges com relacionamentos falidos que se mantêm numa união mascarada para criar os filhos, separações traumáticas, suicídios, casamentos esquálidos mantidos por fodas maquinais de quando em vez, filhos criados sob mantos espessos de preconceitos gerados, por sua vez, em séculos de frustrações e tabus, traições que nada mais são que rebirths precipitadas, pais violentos que são, no fundo, apenas guris que cresceram sem saber e animais, muitos animais irracionais e brutais como nos livros de ciência da escola, só que todos humanos – e nesse sentido a capa fodástica de Laura Zankoul faz jus ao livro. B., escolhido como “garoto propaganda” dentre os contos, relata a história de um mendigo de rua. Um guri que vive na mendicância, e que é visto… Bem, como é mesmo que você (leitor) vê os mendigos na rua? Pois é, desse jeito!

O livro todo poderia ser epigrafado com a frase inicial do conto Esse último sorriso, assim ó: Dá uma olhada nessa escuridão. Olha! (p.63), os personagens (todos eles) estão sempre um tanto perdidos, mas interpretando (sem parar) os seus papeis. Dizem para si mesmos: Acho que estou me perdendo nessas vozes, as minhas. Mas quem é que me salva?” (p.99) e se houvesse um herói, seria tão patético e hilário quanto o Chapolin do Gómez Bolaños, só que não há sequer esses Chapolins. E vira e mexe lembramos sempre (durante a leitura) dos espasmos de B.:

B. não sente raiva.

Não sente alegria.

B. é uma pedra no chão que pode voar na cabeça de outros B’s (p.35).

E denuncia o Bruno que “o contrário de B.” seria a vida. O mendigo B. não vive mesmo, vegeta nos mares insanos da civilização. Da civilização onde todos, de uma hora para outra, são experts em processo constitucional, entendem tudo de impeachment, mas não sabem nada de prestar auxílio uns aos outros, de socorrer uma fome, de podar seus egos, de sequer perceberem-se num teatro insano que se repete dia a dia num planeta que gira doidamente no cu do universo.

Ao Bruno meus sinceros parabéns pelo livro, à Karla Melo (que ainda não conheci), mas que tem feito um trabalho tão competente na Confraria, iguais parabenizações pela publicação desse pernambucano tão preocupado com aquela Weltliteratur goethiana. E aos leitores do HL essa indicação de estupendo suplício: O contrário de B.!

Referência:

LIBERAL, Bruno. O contrário de B. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2015.