Uma dilacerante reflexão da existência em “O Mapa e o Território”, Michel Houellebecq

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Do controverso autor francês Michel Houellebecq, O mapa e o território faz profundas reflexões sobre a existência

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Os irmãos Dardenne levaram às telas do cinema o drama e a angústia dos europeus diante da remodelação das condições sociais forjadas na crise do welfare state. Na produção mais recente dos diretores (Dois Dias, Uma Noite, 2014), uma trabalhadora demitida pelos próprios colegas, os quais, em votação promovida pela direção da fábrica, optaram pelo bônus financeiro em detrimento do emprego dela, ganha o direito a uma nova votação e um final de semana para reverter o voto daqueles que lhe foram desfavoráveis. É um cenário dramático, onde a invisibilidade e a condição de não-cidadão percorre a reflexão da protagonista sobre o efeito perverso do desemprego.

Assisti ao filme na mesma semana em que lia O Mapa e o Território, do controverso escritor francês Michel Houellebecq, livro que lhe garantiu o cobiçado Prêmio Goncourt de 2010 (dentre os ganhadores anteriores, estão Marcel Proust e André Malraux). As duas obras me chamaram a atenção para duas dimensões significativamente opostas de uma Europa em que o fosso que separa ricos e pobres é cada vez maior.

Essa introdução é relevante porque O Mapa e o Território foi recebido pela crítica como um um retrato do trabalho, do mundo do trabalho e dos efeitos sobre a sociabilidade no centro do capitalismo. Se na obra cinematográfica temos uma Europa degradada sob os olhos de uma trabalhadora fabril, no olhar do protagonista de Houellebecq a realidade no “topo da pirâmide” não é menos ácida e crua.

A trama é basicamente sobre o artista plástico Jed Martin, cujas obras tornam-no, paulatinamente, consagrado e rico. Os cenários parecem muitas vezes com alguma daquelas obras de Woody Allen, nas quais os círculos de relacionamento e eventos alcançam níveis de ostentação e pedantismo vulgares.

À medida que Jed Martin vai ganhando prestígio e reconhecimento, ele vai se inserindo em recintos cada vez mais restritos. Num primeiro momento, ele se insere em ambientes mais sofisticados através de sua namorada russa, Olga, do Departamento de Comunicação da Michelin France. Por meio dela, é convidado a participar de vernissages, avant-premières e coquetéis literários. Aprende nesses eventos que não é necessário ser brilhante em nada, basta escutar com gravidade e empatia, emendando um “sério?” ou um “sem dúvida…”, atitudes que, para os seus interlocutores, denotam a seriedade do artista e seu perfil trabalhador.

Os personagens, sob o olhar meticuloso do protagonista, chegam a ser caricatos por suas atitudes extravagantes e excêntricas. São também classificados, novamente como no filme Dois Dias, Uma Noite, através de sua posição no mundo do trabalho. Enquanto a protagonista deste remete à ausência de trabalho a ideia de que ela não existe, Jed vai ponderando sobre como a posição do indivíduo no processo de produção classifica e define o homem ocidental.

O protagonista reflete constantemente sobre o significado da existência e é na ponderação sobre o pai que isso alcança o resultado mais marcante. Ao lembrar sobre o dinamismo com que este dirigira a sua empresa, contratando e demitindo pessoas, seu caráter firme, suas negociações envolvendo milhões de euros e ao observar esse mesmo homem, agora aposentado e fragilizado, portando um ânus artificial, o que ele vê, então, são restos humanos forçados dolorosamente, pela morte, à humildade, ambicionando somente não incomodar as pessoas ao redor.

A morte, para Jed, tem essa aparência externa, que se expressa de modo visível e lancinante, mas é, desde antes, intensamente presente no processo de degradação que opera silenciosamente no organismo.

Há quem veja O Mapa e Território como uma investigação sobre os mecanismos de consumo ou como uma narrativa realista do nosso tempo e há quem centre sua análise nos elementos de sociabilidade. Pelas descrições que apresentei, e que povoam a obra do escritor, essa é uma história em que vida e morte e a banalidade da existência são questões que aparecem o tempo inteiro no primeiro plano, provocando uma inquietante angústia a quem ousa se questionar sobre a inevitável debilidade do organismo e o definhamento da vida.