Uma janela em Copacabana: Espinosa e o leitor saem à caça

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Luiz Alfredo Garcia-Roza cria em Uma janela em Copacabana um cenário complexo pelo qual o detetive Espinosa circula

Luiz Alfredo Garcia Rosa para "Um escritor na Biblioteca" na Biblioteca Pública do Paraná. Curitiba, 24 de Novembro de 2011. Foto: Kraw Penas krawpenas@seec.pr.gov.br

Pensando na forma, talvez a marca registrada de Luiz Alfredo Garcia-Roza seja a linguagem refinada, característica nem sempre associada ao roman noir. Nascido em 1936, no Rio de Janeiro, é formado em filosofia e psicologia, tendo sido professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ganhou notoriedade com O silêncio da chuva, sua estreia como escritor de romances policiais, quando recebeu os prêmios Nestlé de Literatura (1996) e Jabuti (1997). Em Uma janela em Copacabana (que recentemente foi adaptado para a série televisiva Romance Policial: Espinosa), o autor carioca demonstra mais uma vez sua habilidade em escolher o termo correto, a frase precisa e o verbo certeiro.

O leitor no papel do caçador

Antoine Compagnon, no livro O demônio da teoria, menciona o historiador italiano Carlo Ginzburg: o leitor, quando se põe diante duma obra de ficção, assume o papel do detetive, um caçador à procura de indícios que lhe permitirão dar sentido à história. O signo da ficção é aproximado ao da pegada deixada pelo animal, a arte do caçador que decifra a narrativa da passagem dum espécime pelas pegadas deixadas por ele. Esse reconhecimento conduz a uma identificação baseada em indícios tênues e marginais.

O leitor de Uma janela em Copacabana exerce a função descrita por Ginzburg: ele se verá às voltas com os mesmos dilemas do delegado Espinosa, protagonista que comanda as investigações duma série de assassinatos.

Três policiais são assassinados silenciosamente com tiros limpos e cirúrgicos à queima-roupa. Investigações iniciais mostram que eles seriam pertencentes à chamada “banda podre da polícia”, nome dado pela imprensa aos oficiais corruptos que se beneficiam de propinas pagas pelo máfia do jogo do bicho. Metiam-se nesses negócios para completar um mirrado salário. Assim, poderiam dar conforto a suas famílias e satisfazer seus desejos ligados à luxúria: todos possuíam amantes que eram bancadas na surdina. Não eram heróis. Apenas escolheram a profissão errada. Após suas mortes, essas mulheres também são assassinadas do mesmo modo. Ou quase: uma delas cai da janela do décimo andar de um prédio em Copacabana. Mas teria sido mesmo um assassinato ligado aos outros ou um suicídio totalmente aleatório?

O assassino deixa sua eficiente marca, mas nenhum rastro fica para trás. Espinosa é obrigado a montar uma pequena equipe clandestina com detetives acima de qualquer suspeita, já que não se sabe quem de fato faz parte desse esquema. Policiais da estirpe de Serpico são raros. Eles tentam se aproximar de alguma evidência, mas os olhares ressabiados e atitudes ariscas dos próprios membros da polícia, temerosos que uma queima de arquivo tenha sido desencadeada, fazem com que vaguem em busca duma sombra indecifrável. O leitor – fazendo jus à teoria de Ginzburg – aguça todos os seus sentidos em busca de algo que possa indicar por onde enveredar nessa silenciosa caçada.

O detetive do acaso e de relacionamentos casuais

Espinosa é um homem sem grandes ambições. Gosta de andar a pé, visitar sebos e acumular livros. Seu único desejo material, aliás, é se aposentar e abrir o seu próprio estabelecimento de raridades. Em constante conflito com o espaço urbano opressivo que o cerca, ele caminha diariamente pelo bairro do Peixoto, região de arquitetura saudosista pertencente a uma época em que não se imaginava que fossem existir tantos carros.

Desiludido de relacionamentos amorosos após um casamento malsucedido, cultua hábitos que se resumem a comer refeições congeladas feitas no micro-ondas, ler os cadernos culturais de dois jornais nos fins de semana e encontrar esporadicamente Irene – com quem mantém um relacionamento que fica entre namoro e amizade.

Essa instabilidade amorosa atrai mais uma figura para a trama: Serena, única a testemunhar a queda da mulher em Copacabana. Ex-atriz de teatro de revista, ela procura Espinosa para tentar explicar o que viu ou pensa ter visto. Em meio às investigações, os dois se veem às voltas com uma tensão causada pelo stress da investigação, culminando numa atração irresistivelmente carnal.

O que dificulta o sucesso de Espinosa e do leitor, que se veem cada vez mais longe concluir sua caçada.