A veadagem de João Ubaldo Ribeiro em seu último livro: Noites Lebloninas

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Sobre a visão “aveadada” que temos de Noites Lebloninas, o livro de contos em que João Ubaldo Ribeiro trabalhava quando faleceu.

João Ubaldo

Qualquer escritor que legasse ao seu país obras como Viva o povo brasileiro, A casa dos budas ditosos, Um brasileiro em Berlim, O sorriso do lagarto e Sargento Getúlio talvez pudesse se acomodar, certo de que seu trabalho estava completo. Não João Ubaldo Ribeiro. Com seu sorriso característico que dividia a atenção com o bigode, o bardo brasileiro ainda tinha muito a contribuir caso não tivesse se tornado imortal ano passado (2014), ao deixar esta vida.

Ubaldo trabalhava em um livro de contos intitulado Noites lebloninas, que foi publicado este ano (2015) pela Alfaguara. Na realidade, são apenas dois contos e o prefácio brilhante de Geraldo Carneiro. Carneiro que, amigo do bardo, nos dá pistas da direção que tomava o projeto do escritor baiano. Segundo ele, o objetivo era trazer a este volume de contos um pouco do espírito jocoso do escritor americano Damon Runyon, cujo trabalho literário compôs a mitologia da “Broadway mítica dos malandros”, mais precisamente da década de trinta.

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Noites lebloninas (Alfaguara, 2015)

Mas em vez dos malandros americanos, Ubaldo desejava retratar os cariocas. Ele, um baiano apaixonado pelo Rio de Janeiro. Daí nascem os dois contos solitários de Noites Lebloninas, marcados por forte oralidade, ambos em primeira pessoa, narrados por um baiano, porteiro de um prédio.

O primeiro conto, Noites lebloninas, homônimo ao livro, é a visão deste porteiro sobre a chegada de seu amigo Rodriguinho Saqualulu ao prédio onde trabalha, em busca de doutor Camilo, o homem que consegue lidar com quem está de porre. Enquanto ajuda a socorrer seu camarada, o porteiro rememora uma de suas noites de festa, evidenciando sua falta de experiência na noite carioca, e nas confusões que arrumam ao se meter com as coroas de um bloco de carnaval e umas paulistas muito loucas.

No conto seguinte, O cachorro Falafina e seu dono Dagoberto, que começa com a frase “Nada tenho contra aquele que pratica a veadagem…”, temos a história de um homem homossexual e sua relação de amizade com o cachorro, a partir do ponto de vista do porteiro, já que o homem reside no prédio onde ele trabalha. Sem segurar seu tom de deboche, João Ubaldo relata esta história hilária sem nunca perder o respeito pelos “veados”, para entrar no espírito do conto. É uma narrativa simples, mas surpreende por sua inventividade.

Ao concluir a leitura, ficamos com aquele gostinho de “quero mais”. Mas no fundo, no fundo, acabamos agradecidos por tudo que João Ubaldo Ribeiro nos legou, este escritor que se transvestiu dos melhores personagens que a literatura brasileira já viu.

***

Ficam dois trechinhos de tira-gosto:

“O carioca sempre valorizou o baiano e também costuma tratar o baiano com bastante respeito, porque tem certeza de que todo baiano é macumbeiro é de que praga de baiano pega mais que catapora, não sendo o carioca besta, para querer viver debaixo de praga o resto da existência. E tanto o carioca quanto o baiano têm por ideal não fazer nada, residir na praia, viver de bermuda e havaiana e jogar conversa fora por entre cervejas e risadarias, sem deixar de dar grande valor ao intercâmbio sexual e ao fenômenos artísticos, poéticos e filosóficos, são povos irmãos.” (pg. 56-57).

“Nada tenho contra aquele que pratica a veadagem e creio que esse ponto de vista é fruto de grande ignorância. Somente os ignorantes é que alimentam raiva da veadagem, porque desde que o mundo é mundo existem grandes homens veados e todo dia se descobre um que ninguém sabia que era veado, mas era.” (pg. 71).