Viagem para Inseto

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O dia em que prestei serviços a um inseto
ladybug

Alguns insetos são invejáveis. Não precisam fazer muito para serem notados, passeiam pelo mundo como se fosse um carrossel gigante, e falam em um idioma tão, tão próprio que mesmo nossos tradutores mais dedicados ainda não sabem o que eles falam sobre nós, gigantes de pele e dúvida.

Trago essa conclusão furada comigo após uma tarde em que prestei serviços a um inseto. Eu tinha ido a São José dos Pinhais, localizada na regiao metropolitana de Curitiba, visitar meu pai, e uma hora qualquer saímos rumo ao centro da cidade, meras três quadras de casa e estávamos no calçadão. Nem lembro o que tínhamos de importante (ou não) para fazer naquela tarde, mas lembro de ter sentido uma coceira na mão direita.

Quando a olhei, uma joaninha marrom claro estava na ponta do meu dedo médio. Enquanto a gente andava, percebi que ela continuava por ali, e decidiu escalar minha mão como a uma montanha. Subiu lentamente pelo mesmo dedo, talvez as articulações representassem falhas geográficas ao inseto, que não se intimidou e atingiu as costas da minha mão direita.

Eu olhava meio direto para a micro visitante, pois queria ver seu trajeto e talvez a joaninha soubesse disso, mesmo sem ter trocado palavra comigo – pelo menos em um idioma que eu entenda. Nenhum sinal, apenas aproveitou a carona na minha mão e voou, sumiu tão discretamente como apareceu. Imagino que diálogos teve com outros de sua espécie, ao topar com outra joaninha repousando em uma folha de árvore.

– Eu te vi há tanto tempo atrás! Como você chegou aqui tão rápido? – pergunta a joaninha, acomodada na folha, à recem chegada.

– Peguei carona com um humano.

– Humano?… Mas eles são tão grandes!

– Nada. Esse era inofensivo. Até me notou, mas não fez nada. Mas, se não tivesse me visto, não faria diferença.

E sei lá em qual direção a conversa seguiria. Talvez a caroneira falasse como nós, os ‘grandes’, nem sempre notamos como insetos – também inofensivos – se hospedam em costas de mãos, abas de chapéus, mangas de jaqueta, alças de bolsas e mochilas e demais lugares menores aos nossos olhos, que aos deles correspondem a uma viagem econômica na primeira classe com direito a passe livre.

Prestamos serviço à classe, somos freelancers sem noção da maiúscula importância dessa uma quadra em que carregamos minúscula companhia. Podemos no máximo enxergar as joaninhas e deixá-las aproveitar a brisa e o clima da passagem VIP – very important pequeno, e talvez entre elas seja comum andar de humano a outro como trocar de calçado é para nós. Somos os gigantes delas e de outros microscópicos seres que se aproveitam de nós para uma macro viagem.