Viagem… – Gisele Corrêa

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Se encheu de prozac como se pudesse aplacar a bulimia que ela nem sabia se realmente existia. Sua mão tinha as faces pintadas de rosa, mas era o lápis preto ao redor de seus olhos azuis de menina que incomodavam o mundo. Estranhava o nome que as pessoas dão as coisas. Coisas que nunca experimentaram mas que fingem conhecer, pretendem se fazer acreditar que têm intimidade. Quantos apologistas a movimentos não conhecem sua causa? Quantos vegetarianos realmente acreditam no que fazem, quantos foram fisgados pela moda verde? Ela mesma se deixou levar pela moda do preto e pintou os belos cachos dourados… Era mesmo necessário que fosse julgada, rotulada e colocada de lado? Colocou os óculos escuros para ocultar o vermelho da viagem, fechou a jaqueta para se livrar do frio.

Seu quarto que já havia apresentado brancas paredes nuas estava repleto de fotos de pessoas e lugares que ela pensava conhecer. Seus antigos amigos pregavam-lhe peças e sorriam em fotografias amareladas. Onde mesmo fora parar a máquina infantil e analógica que ganhara do pai em seus oito anos?

Lembrava-se de que era amarela, o protetor da lente formava a cara de um cãozinho que agora brincava pelo quarto. Porque jamais lhe deixaram ter um bichano como aquele? Sua mãe lhe dizia que davam trabalho, mas deixava que fosse com a empregada até o zoológico municipal ver os macacos e tigres que eram malcheirosos, mas lhe faziam sorrir.

O pai lhe levava à praia nos fins de semana… Onde ele estaria naquele momento? Seu último postal era de Paris, mas com aqueles dois era impossível saber. Uma segunda lua-de-mel para apagar as brigas e traições, dinheiro direcionado aos bolsos de alguma secretária, amassos com o jardineiro na garagem. Os dois eram patéticos, mas faziam terapia. O terapeuta lhes arrancava os olhos, mas sentavam lado-à-lado uma vez por semana, dinheiro bem gasto…

Fechou os olhos quando o cãozinho aproximou-se de seu rosto, mas não sentiu o áspero toque da língua. Perfeito sua mãe diria que estava dopada, mas ela sabia o quão chapada realmente se sentia. Fodam-se as convenções da sociedade, fodam-se os terninhos rosados, os cartões sem limite, a cama de dossel na qual estava sentada. Fodam-se os que acreditam e os que simplesmente ignoram… Fechou os olhos tomada pela paz que o remédio lhe dava. Quando a manhã chegasse a velha empregada lhe traria um copo de achocolatado e lhe faria um carinho para recebê-la daquela estranha viagem.