Leitor x Escritor: A Literatura Fantástica Brasileira em Xeque

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Um panorama da literatura brasileira na atualidade, e as responsabilidades do escritor.brasil

Ditos pelos não ditos, a literatura brasileira tem seu ninho de destaque aos olhos do mundo e dos brasileiros. Os contemporâneos, e por que não usar a palavra mitos: os mitos brasileiros tal como Machado de Assis, Clarice Lispector (naturalizada brasileira), Jorge Amado, Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues, Érico Veríssimo, Ariano Suassuna, Luis Fernando Veríssimo, entre muitos outros. Todos eles já tiveram seu destaque e seus escritos ecoam história afora, dia após dia.

Todavia, já há muito dos novos leitores atuais, jovens e tecnológicos devoradores ou outros potenciais devoradores de leitura que podem não ver muito no que gostar na grafia, construções gramaticais, ideias e métodos de escrita de décadas atrás. A maturidade os impede disso! Paciência, o tempo os culminará.

Até lá esses novos leitores irão utilizar seu tempo em livros chicklicks – de modinhas. Não que isso seja ruim, mas sim, são excelentes para proporcionar fluência de leitura, crescimento de vocabulário, estimular o processo criativo, melhorar a comunicabilidade, desenvolver o senso crítico, entre outros fatores.

Ler não é bom, é ótimo!

Infelizmente, a literatura brasileira tão ovacionada no passado e lembrada até os dias atuais não vem sendo valorizada como deveria. A atenção dos leitores está sobre o que vem de fora, os títulos importados pelas editoras que visam mais o lucro à disseminação das letras em si.

Talvez essa falta de aposta e confiança no material brasileiro seja uma via de mão única, e que infelizmente desfavorece o potencial do futuro escritor de sucesso das terras tupiniquins. De um lado estão os leitores clamando por ótimos ou excelentes materiais de leitura. Pelo outro lado estão as editoras tentando saciar essa sede com o que está ao seu alcance. Porém, as editoras comerciais brasileiras em sua quase totalidade preferem gastar milhares de dólares em leitões literários no exterior e fechar contrato com títulos que têm garantia de vendagem, que têm lucro certo, do que apostar num novo talento brasileiro que tem o original aceito por seus próprios analistas, mas que pertence a uma pessoa desconhecida e que não oferece tantas vantagens mercadológicas ao negócio de vender livros.

Drummond, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Mario Quintana e Paulo Mendes Campos
Da esquerda para a direita: Carlos Drummond, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, Mario Quintana e Paulo Mendes Campos na casa do cronista Rubem Braga – grandes nomes da literatura brasileira no passado.

Eventualmente até uma terceira parte é culpada por esse problema literário: o próprio escritor, ou, o que se diz escritor.

Vejam: o Brasil é uma das poucas potências do mundo que se encontra na mesma condição de estrutura, tamanho e economia de outros países de referência na literatura, mas que não tem um mero curso superior específico para criar romancistas – salvo uma universidade do Sul do país que se propôs a dedicar parte do curso de Letras para tal, porém, sem muito sucesso. Além disso, o incentivo para novos escritores foge ao tópico de importância nos meios políticos. E nem iremos comentar a deficiência educacional nacional e a baixíssima aderência ao conhecimento que os estudantes podem ter durante seus anos letivos.

Ainda assim, essas condições não eximem os apaixonados pelas letras e heroicos preponentes a escritores, que, muitas das vezes, se embananam pelo percurso e por melhor que seja sua intenção, seus trabalhos saem de forma medíocre, pobre ou simplesmente ruim!

Embasamento não há, apenas inspiração. Dedicação acontece, foge o preparo. Ideias acontecem na mente, falta capacidade dissertativa para expor no papel. Técnica não existe, falta lapidagem literária. Fatos explícitos nas conclusões de vários iniciantes na escrita romancista e opinião de muitos editores.

Enfim, há escritores pipocando por todos os lados. Ou ao menos potenciais escritores. São interessados, competentes e dedicados, falta-lhes instrução e experiência, coisa que devem procurar e conquistar por conta própria. Proatividade literária e multiplicidade de habilidades são extremamente necessárias! Devem dar o famigerado jeitinho brasileiro, para que possam se destacar ou ao menos concretizar o que tanto sonham em fazer.

Hoje para quem quer se dedicar a uma vida de escritor no Brasil deve acima de tudo escrever. CLARO! Mas, até que isso aconteça, muito se deve descobrir, ler, estudar, ver, aprender, experimentar, participar, para enfim começar a rascunhar letras e palavras. A Jornada do Herói e O Herói de Mil Faces de Joseph Campbell, A Jornada do Escritor de Christopher Vogler, e Para Ler Como Um Escritor de Francine Prose, são poucos exemplos de títulos a serem lidos e levados quase como bíblia sagrada e mais que leituras obrigatórias para qualquer um que for ingressar nesse caminho árduo.

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Depois disso há ainda o método de escrita direcionada e tudo que envolve não apenas escrever nos dias atuais, mas também vender.

A escrita acima de tudo deve ser um prazer, deve-se gostar do que faz e escrever para si primeiramente, e depois para outrem. Isso não significa que não possa fazer isso tão bem feito que seja até comercialmente viável.

Conquistar uma editora comercial brasileira para publicar um brasileiro que é desconhecido pelos brasileiros e tem seu primeiro título brasileiro a ser publicado, é um ato quase brasileiramente faraônico.

Claro que para toda regra há suas exceções, e nesse caso não é diferente. André Vianco, Eduardo Spohr, Rhafael Dracon, Carolina Munhoz, entre outros, que atingiram sua amplitude dentro do panorama literário e das mentes de seus leitores, cada um com um fato anedótico interessante de seu início de carreira-coadjuvante como escritor.

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Escritores Carolina Munhóz, Raphael Draccon, Leonel Caldela e Eduardo Spohr na Feira do Livro de Porto Alegre, em 2011 – Escritores de sucesso no Brasil, atualmente.

No exemplo de Spohr, ele foca o mundo dos anjos e batalhas épicas do céu e inferno. Seu primeiro livro A Batalha do Apocalipse já vendeu mais de 400 mil cópias no Brasil – dados de 2013 –, e teve seus direitos de publicação vendidos para outros três países, todos da Europa. No entanto o jornalista conseguiu colocar sua obra no papel por ter ficado desempregado em 2006. Depois de pronta, e, diga-se de passagem, com vários de erros de ortografia, participou de um concurso literário e o venceu. O prêmio foi a impressão de 100 exemplares da obra vencedora. Muito feliz, pediu para seus amigos no site de cultura pop jovemnerd.com.br venderem os cem livros por lá. Em poucos dias tudo tinha sido vendido –  2007. A história parou por ai. Dois meses depois foram verificar o e-mail de contato que foi feito para a venda do tal livro nos meses anteriores: lá havia simplesmente a solicitação de milhares de pessoas clamando para comprar o livro. A repercussão foi estrondosa. Ele arcou com a publicação juntamente com a editora do Jovem Nerd e os exemplares de mais de setecentas páginas cada foram vendidos em poucos dias. Em 2010 a editora comercial Verus se “interessou” pela obra, ou seria pelos números da obra? E, enfim ele foi publicado a nível nacional. O livro já passa da 35ª edição e conquista fãs a cada dia. De fato a obra é excepcional.

Exceções à parte, infelizmente o potencial escritor iniciante brasileiro não pode apenas contar com a sorte, ser profissional é a melhor opção. Sonhar em se tornar um escritor e conseguir isso é algo grande, destacar-se com a qualidade dos seus escritos é algo maior ainda.

O caminho é árduo, mas a conquista é gloriosa. Pode haver pedras por onde passar, mas se for esperto será capaz de construir degraus com essas mesmas pedras para chegar ao topo de onde deseja.