A vida imita a literatura no Dia Nacional do Samba!

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SONY DSCEla saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando os quadris e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse à vida, soltava um gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, descendo, subindo, sem nunca parar os quadris, e em seguida sapateava, miúdo e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, enquanto a carne lhe fervia toda fibra por fibra titilando. Em torno o entusiasmo tocava ao delírio; um grito de aplausos explodia de vez em quando rubro e quente como deve ser um grito saído do sangue. E as palmas insistiam cadentes, certas, num ritmo nervoso, na persistência de loucura. Os acordes vibrantes do cavaco e aquela batida de fogo no ar arrastava a todos, despoticamente, desesperando aos que não sabiam sambar. Mas, ninguém como ela; só ela, só aquele demônio, tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a morena saltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante. Naquela morena estava o grande mistério.

Igualzinho a uma cena do Cortiço, do Aluísio Azevedo – aquela em que Rita baiana cai num samba. Magia. Milagre. Revelação. Em síntese, a vida imitou a arte. Como diria o mestre Martinho da Vila, poeta do samba, “eu queria me esconder debaixo daquela saia pra fugir do mundo”. O nome da santa não vou dizer. Saibam que tinha nome de guerra, mas era de paz, paz-amor, muito amor. Acho que fui tocado pela paixão.

Isso tudo apenas pra dizer: Viva o Dia Nacional do Samba!