Entrevista: Viver – e lançar um livro – é assumir o risco de ser julgado

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Entrevista com Zeka Sixx, autor da obra O Caminho dos Excessos, uma conversa sobre autopublicação, aspirações do escritor e as referências a Henry Miller e Bukowski

Zeka Sixx

Se eu tivesse que descrever o escritor Zeka Sixx em uma só palavra seria “subversivo” – no melhor sentido da expressão.

Seu livro de estreia, O Caminho dos Excessos, reúne trinta e dois contos que versam sobre nosso desregramento social, emocional, pessoal e intransferível. Exaltando e buscando a qualquer custo um estilo de vida pulsante e descomedido, o livro celebra o instinto, o sexo e o álcool como combustíveis primordiais para se atingir algo maior; para transcender seus próprios limites. Pois, para acessar um novo estágio de consciência, é preciso primeiro desconstruir o estado cauteloso e quase hipnótico no qual nos encontramos.

Zeka foi o responsável não somente pela criação e produção dos contos, mas também por todo o resto. Trabalhando de forma totalmente independente, sua marca registrada – a subversão – está presente em todos os detalhes do livro, dando para a obra a mesma personalidade desobediente e questionadora de seu autor. O Caminho dos Excessos é um convite irresistível para passear pelo nosso lado mais sombrio e selvagem.

Tive a oportunidade de conversar com Zeka Sixx, e falamos sobre punk, literatura de terno e gravata, editoras, inspiração, autodestruição, jabá, politicagem e, claro: sobre excessos.

Confira nossa conversa na íntegra:

Quem é Zeka Sixx na visão de José Manoel Rodriguez Antunes?
Pelo fato do meu nome ser composto, toda a vida fui chamado de “Zeca”. Na época da faculdade é que veio o apelido “Zeka Sixx”, porque eu era fã da banda Mötley Crüe, cujo baixista se chama Nikki Sixx. Gostei e pegou.
Mas, respondendo a pergunta, vejo Zeka Sixx como um cara exagerado, teimoso, com um apetite voraz por música, cinema e literatura, e que gosta das coisas boas da vida: “futebol, mulher & rock and roll”.

O Caminho dos Excessos - CapaEm março de 2015, você lançou seu primeiro livro, O Caminho dos Excessos, que reúne 32 contos versando sobre paixões, busca por identidade, sexo, esperança, álcool – tudo em excesso, claro. Como foi e quanto tempo durou o processo de elaboração dos contos?
Levou mais de uma década. Escrevo desde os catorze, quinze anos, mas acredito que os contos com a temática presente no livro surgiram por volta dos meus dezenove anos.
Sempre gostei de escrever, mas a ideia de lançar um livro me passava pela cabeça como um sonho distante e inalcançável. Mas então, em 2014, tive de fazer uma cirurgia no joelho que me deixou em casa por quase dois meses, afastado do trabalho. Foi aí que tive o estalo: “por que não lançar o tão sonhado livro”? Aproveitando meu tempo livre em casa, escrevi vários contos novos (modéstia à parte, acredito estarem entre as melhores coisas que já escrevi), fiz uma seleção dos contos que eu já tinha (eram mais de sessenta “aproveitáveis”) e, uma vez selecionados os contos que se somariam aos novos, procedi numa PESADA revisão dos mesmos, várias e várias e várias vezes.
E foi assim que cheguei aos trinta e dois contos que integram o livro: pode-se dizer que eles foram escritos entre 2002 e 2014.

Os contos da obra O Caminho dos Excessos são narrados em primeira pessoa, e muitas vezes passam ao leitor a impressão de que são autobiográficos. Deste modo, escritor e personagem parecem misturar-se e confundir-se, dando ao leitor a ideia, mesmo que equivocada, de que está lendo o diário do próprio autor.
Esta exposição aos olhos do leitor não lhe incomoda?
Eu acredito que qualquer obra, salvo se claramente se declarar como uma biografia, deve ser sempre encarada como ficção; isso é o que qualquer leitor inteligente deve ter em mente.
Entretanto, não tenho problema algum em admitir que alguns contos – ou até mesmo a maioria deles – podem ser considerados “semibiográficos”, porque esse é o estilo que consagrou alguns dos meus autores favoritos, como Henry Miller e Bukowski. Eu diria que esses contos são delírios construídos em cima de experiências que vivi. O escritor André Gide disse algo como: “Um mau escritor escreve sobre sua própria vida medíocre. Um bom escritor escreve sobre suas vidas possíveis”. É exatamente isso que eu entendo serem esses contos: são vidas POSSÍVEIS, não é a minha vida.
Por outro lado, alguns contos não possuem nada de “semibiográficos”, sendo puramente ficcionais, tendo sido incluídos no livro por englobarem as mesmas temáticas. Apesar de tudo, entendo que talvez alguns leitores não consigam distinguir o autor do personagem, mas não há muito que possa ser feito sobre esta questão. Viver – e lançar um livro – é assumir o risco de ser julgado.

Pessoalmente, percebo que a nova literatura brasileira anda bastante comportada e politicamente correta – parece que ela cortou o cabelo, fez a barba e colocou um terno e uma gravata. Tenho encontrado pouquíssimos novos escritores insurgentes, desafiadores, polêmicos, rebeldes; mas você foi um deles.
Eu acredito piamente que a desobediência é necessária para a boa literatura. Você concorda com esta afirmação?
Sem dúvida. Sempre gostei dos rebeldes e transgressores. Acredito que estejamos em uma época complicada porque, aparentemente, tudo já foi feito no que diz respeito à transgressão. Bukowski já estava dizendo “FODA-SE TUDO” há meio século; Henry Miller antes, e muitos outros. O que resta ser feito para chocar, provocar uma reação? Mas vejo O Caminho dos Excessos como um bom exemplo de literatura rebelde, apesar de tudo. Não é o primeiro a falar em paus e bucetas em profusão, mas acho que, lendo o livro, se percebe uma honestidade corajosa, independentemente de sua suposta qualidade (ou falta de). Foge do plano teórico, do marketing, do arrojo retórico, e dá a mão à palmatória da vida – que é a única coisa que realmente importa. Fico feliz em saber que percebeste isso também.

De onde veio a inspiração para a criação dos contos que compõem a obra O Caminho dos Excessos?
Perdão pelo clichê, mas não há inspiração melhor que a vida. Um amigo meu dizia que todo mundo deveria escrever um livro, porque seria uma forma de obrigar a si mesmo a viver uma vida interessante e inspiradora; caso contrário, o livro seria péssimo. Posso dizer que vivi até agora uma vida plena de situações interessantes, ao menos o suficiente para preencher um livro. Não fiquei acomodado: corri atrás daquilo que achava importante para mim, e muitas vezes paguei o preço por esta decisão. Quem ler o livro perceberá isso. Como disse Henry Miller: “Isto não é um livro. Isto é injúria, calúnia, difamação de caráter. Isto não é um livro, no sentido comum da palavra. Não, isto é um prolongado insulto, uma cusparada na cara da Arte, um pontapé no traseiro de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, do Amor, da Beleza… e do que mais quiserem”.

A literatura é sua amiga ou sua inimiga?
Não sei se a enxergo desta forma, como “amiga” ou “inimiga”; eu diria que talvez a literatura seja as duas coisas. Inimiga por causa das inspirações muitas vezes perigosas que ela me traz, que me levam a me atirar de cabeça contra um muro de concreto. E amiga porque, em diversas situações, ela me ajudou a encontrar um sentido para minha vida.

Por que você escreve?
Escrevo como uma forma de capturar momentos e situações sublimes – para o bem e para o mal – que, de outra maneira, ficariam esquecidos no tempo.

Como a literatura entrou em sua vida? Onde, quando e por que tudo começou?
Minha mãe, sem dúvida, é a grande responsável. Ela é uma leitora compulsiva, daquelas de ler um livro de setecentas páginas em um dia. Minha casa sempre foi uma grande biblioteca, então esse estímulo sempre esteve presente na minha vida. Mas o “turning point” foi, sem dúvida, quando eu tinha por volta de dezoito anos, e minha mãe me presenteou com a trilogia “Sexus”, “Plexus” e “Nexus”, do Henry Miller, que ela havia encontrado em um sebo. Foi ali onde tudo começou de verdade; foi quando eu descobri que escrever era o que eu realmente queria fazer.

Durante nossas conversas, você questionou: “É possível buscar a redenção pela autodestruição”? E agora eu te pergunto, Zeka: é possível?
Acredito que sim. Às vezes precisamos destruir tudo aquilo em que acreditamos, perder nossa dignidade, nossos princípios, sofrer até os ossos para que possamos, no derradeiro momento, quando já não podemos sofrer mais, descobrir que somos mestres de nosso próprio destino. O Caminho dos Excessos trata disso.

A obra O Caminho dos Excessos foi publicada de forma totalmente autônoma, sem qualquer selo editorial. Por que você optou por lançar seu primeiro livro de modo independente, e quais as maiores dificuldades que encontrou?
Sou um cara meio imediatista e, às vezes, as boas ideias que tenho, se não executadas em seguida, ficam perdidas na minha inércia. Sei que O Caminho dos Excessos é um livro difícil, polêmico, que dificilmente seria aceito por alguma editora. Além disso, meu último objetivo com o livro é ganhar dinheiro. Quero unicamente “espalhar a palavra”, e poder dividir com os outros aquela que é minha grande paixão: escrever. Sem forma, sem cortes, sem pasteurização para melhor se adequar às necessidades do mercado. Fuck everything! Sendo assim, encontrei poucas dificuldades.
Talvez a maior seja simplesmente ter o dinheiro na mão, hahaha! Fiz tudo praticamente sozinho: diagramei, registrei no ISBN, fiz a ficha catalográfica, inscrevi no escritório de direitos autorais, tive a ideia da capa, a ideia do book trailer… Foi realmente no melhor estilo punk: faça você mesmo.

Como você vê o mercado editorial para os novos escritores brasileiros, seja enquanto autor, seja enquanto leitor?
Tenho um certo pessimismo quanto ao futuro do mercado literário. Sei que talvez pesquisas digam o contrário, mas o que percebo, falando com amigos e conhecidos, é que as pessoas estão lendo cada vez menos. Nunca houve uma época tão imediatista e “fast-food” no que se refere a ler. Vou dar um exemplo escatológico: antigamente as pessoas iam ao banheiro e levavam um livro para ler. Hoje, o que elas fazem? Levam o maldito smartphone até para o banheiro, e ficam lendo os Facebooks e WhatsApps da vida. A mesma coisa para a cama. Antigamente sempre se levava um livro para ler antes de dormir. Hoje em dia? Smartphone. E esses exemplos são de pessoas que conheço, não estou inventando.
Sei que nem todo mundo é assim, mas tenho receio de estarmos num caminho sem volta. Até mesmo no Facebook percebo isso; qualquer post com mais de dois parágrafos e as pessoas simplesmente não param para ler. Agora, se eu postar uma frase apenas, ou uma foto minha com meu cachorro, aparecem dezenas de curtidas. As pessoas não têm tempo (ou saco) para ler dois parágrafos; há muita informação para ser absorvida. Assim sendo, vejo um futuro complicado para nós, novos autores.

Existem especulações que uma das maneiras de agregar valor e aumentar a rentabilidade dos livros seria a inserção de publicidade nas edições, ou de histórias pagas por anunciantes, onde o personagem, por exemplo, utilizaria um produto de determinada marca, citando-o no decorrer da história.
O que você pensa sobre isso? Acredita que a publicidade pode se tornar aliada da literatura?
Nunca havia parado para pensar nessa possibilidade. É algo que já existe há anos na televisão e no cinema, o famoso merchan. Não sei se na literatura essa ideia colaria; talvez apenas com autores muito consagrados.
Honestamente, não vejo tanto problema assim, desde que essa inserção não desvirtue a história original que o autor tinha em mente. Se o Jack Daniel’s quiser me pagar para inserir seu nome nos meus contos, ficarei mais do que feliz em fazê-lo, hahaha!

Um problema enfrentado por novos autores e pequenas editoras é a divulgação de suas obras. Sabemos que grandes veículos de comunicação não costumam dar espaço para publicações independentes, e quando dão, geralmente é mediante um alto investimento financeiro.
De que maneira você está divulgando e promovendo a obra O Caminho dos Excessos?
Esse é o maior problema para uma publicação independente, sem dúvida. Como fazer com que as pessoas deem uma chance para sua obra? Difícil. Fiz o que estava ao meu alcance: divulguei no Facebook, fiz um book trailer legal, um site oficial, e agora confiarei no boca a boca para que a palavra se espalhe.

A distribuição também é um desafio para autores independentes, uma vez que as livrarias costumam solicitar 50% de desconto sobre o preço de capa, além das despesas com o frete, que ficam sempre por conta do autor. Tudo isso termina por prejudicar a distribuição da obra, já que, exigindo 50% de desconto e o pagamento do frete, praticamente desaparece o lucro do autor.
Como você está trabalhando para distribuir a obra O Caminho dos Excessos?
Estou colocando o livro à venda em estabelecimentos de amigos, que não necessariamente são livrarias, como o Kapo, que é um salão de cabeleireiros. A pessoa vai cortar o cabelo e, enquanto aguarda, dá uma olhada no livro e pode se interessar. O livro também está disponível na Palavraria, uma livraria de bairro muito legal aqui de Porto Alegre, que apoia incondicionalmente os autores locais. E estou vendendo através de contato pelo site, para quem não reside em Porto Alegre. Futuramente tenho um plano ambicioso de disponibilizar o livro para venda em casas noturnas, ideia que combina bem com a temática da obra.

Qual a sua opinião sobre prêmios literários, como o Prêmio Jabuti, o Prêmio São Paulo de Literatura, e o Prêmio Portugal Telecom de Literatura? Você pretende inscrever seu livro para concorrer em alguma premiação?
Acredito que há muita politicagem e jabá nesse meio. Inscrever uma obra autopublicada parece bem complicado. Mas, claro, por que não? O que tenho a perder?

O que você pensa sobre a Academia Brasileira de Letras?
Cinco palavras: “Marimbondos de Fogo – José Sarney”.

Enquanto leitor, quais escritores você mais admira?
Henry Miller, Charles Bukowski, John Fante, Bret Easton Ellis, Pedro Juan Gutiérrez, Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire, Jim Morrison, Anaïs Nin, Lolita Pille, Vladimir Nabokov, James Hadley Chase, Stephen King, Jack Kerouac, William S. Burroughs, Rubem Fonseca, Zeca Fonseca, Dalton Trevisan. Como eu disse antes, os rebeldes e transgressores sempre me atraem mais.

E por fim, Zeka: quais são teus planos daqui pra frente?
Primeiramente, vamos ver o barulho que o livro vai causar. Mas tenho planos sérios de escrever um romance. Foram dez anos escrevendo contos, quero agora tentar uma abordagem diferente. 

Bate-Bola Literário:

  • Livro: “Trópico de Câncer” (Henry Miller).
  • Escritor(a): Henry Miller.
  • Vício: Sexo.
  • Ídolo: Jim Morrison.
  • Música: “L.A. Woman” (The Doors).
  • Trabalho: Necessário para permitir que façamos as coisas que realmente amamos.
  • Paixão: Minha mulher e minha família.
  • : Move montanhas?
  • Literatura: Um mundo vasto e inesgotável; pobre daquele que não lê.
  • Incômodo: Ser mal interpretado.
  • Inesquecível: Percorrer “O Caminho dos Excessos” chamado vida.

* Saiba mais sobre Zeka Sixx e O Caminho dos Excessos acessando www.zekasixx.wix.com/ocaminhodosexcessos