Viver e morrer infinitamente de amor: ‘Cem Sonetos’, de Pablo Neruda

0
153

Em seus sonetos, Neruda iguala sua musa Mathilde a todos os elementos da terra que o embriagavam, de modo a encontrar o corpo e alma dessa mulher para viver e morrer de amor infinitamente

No centro do Chile, em Parral, no dia 12 de julho de 1904, nascia Neftali Ricardo Reys Basoalto, verdadeiro nome de Pablo Neruda. O autor publicou diversos títulos, entre eles: Crepusculario, Veinte poemas de amor y una canción desesperada, Residencia en la tierra, Canto general, Nuevas Odas Elementales, Cien Sonetos de Amor, Memorial de Isla Negra. Em 1971, Pablo Neruda ganha o Nobel de Literatura.
Na infância, um mês após o seu nascimento, sua mãe, dona Rosa Basoalto, morre de tuberculose. O menino, então, passa a viver com o pai e a madrasta no interior, embriagando-se com a bela natureza do lugar. Foi para a sua “mamadre”, Trinidade Candia Marverde, que Neruda escreveu seu primeiro poema. No livro “Confesso que Vivi”, o poeta diz:

“Muito longe de minha infância e tendo apenas aprendido a escrever, senti uma vez uma intensa emoção e tracei algumas palavras semirrimadas mas estranhas a mim, diferentes da linguagem diária. Passei a limpo num papel, preso de uma ansiedade profunda, de um sentimento até então desconhecido, espécie de angústia e tristeza. Era um poema dedicado à minha mãe, isto é, a que conheci como tal, a madrasta angelical, cuja sombra suave protegeu toda a minha infância.” (p. 20)

Na cidade de Temuco, o menino Pablo estuda no Liceu de Homens. Alguns anos depois, o jovem ingressa na Universidade, em Santiago. Lá estuda Francês e Pedagogia. No meio acadêmico, o poeta começa a frequentar a vida noturna, as cervejarias, as mulheres. Mesmo com todo o agito, Neruda considerava-se tímido:

“A timidez é uma condição estranha da alma, uma categoria e uma dimensão que se abre para a solidão. Também é um sofrimento inseparável, como se a gente tivesse duas epidermes e a segunda pele interior se irritasse e se contraísse diante da vida. Entre as estruturações do homem, esta qualidade ou este defeito são parte do amálgama que vai fundamentando, numa longa circunstância, a perpetuidade do ser.” (p. 30)

O tímido poeta, além de suas atividades literárias, também atuou como diplomata para o governo chileno. Na carreira diplomática, Neruda trabalhou em Buenos Aires, Ceilão, Cingapura, Madri e Barcelona. No auge da Guerra Civil Espanhola, Neruda aproxima-se das ideias republicanas e acaba sendo destituído de seu cargo. Em 1945, Pablo filia-se ao Partido Comunista e elege-se senador da república. Por não concordar com a política exploradora e repressiva de seu país, Neruda passa a viver clandestinamente dentro do próprio Chile. Depois de passar pela Guerra Civil, depois de se filiar ao Partido Comunista, depois de viver exilado, a poesia de Neruda torna-se mais engajada e vira seu ofício de luta. Por sua larga experiência de vida, a poesia de Pablo passeia por diversos temas, sejam eles políticos, cotidianos, cosmopolitas, rurais, amorosos. No livro O ciclo poético de Neruda, José Miguel Ibañez Langlois diz:

“A poesia nerudiana pode ser definida por um sem número de matizes: […] oposições entre a natureza e a história, entre o objeto e a situação, entre a sensibilidade e a consciência, […] culto do hermético e o culto do claro, tendência ao solilóquio e tendência ao discurso, sonolência hipnótica e lucidez cotidiana da linguagem, cosmopolitismo e tradição autóctone, esteticismo sub-reptício e moralismo descarado; poesia gorda e poesia magra […] tais contrastes poderiam multiplicar-se sem fim.” (LANGLOIS, 1978, p.150)

Talvez os matizes mais conhecidos do poeta sejam da natureza e do amor. Depois de dois casamentos, em 1955, Pablo conhece Mathilde Urrutia, companheira até a sua morte. Foi para Mathilde que o poeta escreveu seu clássico Cem sonetos de amor. Em Confesso que Vivi, Neruda comenta sobre os sonetos e Mathilde:

“Minha mulher é da província como eu. Nasceu numa cidade do Sul, Chillán, famosa de maneira feliz por sua cerâmica camponesa e de maneira desgraçada pelos seus terríveis terremotos. Ao falar-lhe, disse tudo em meus Cem Sonetos de Amor. Talvez estes versos definam o que ela significa para mim. A terra e a vida nos reuniu. Ainda que isto não interesse a ninguém, somos felizes.” (p. 193)

Os cem sonetos, no livro, estão divididos em 4 sessões: Manhã (32 sonetos), Meio-dia (21 sonetos), Tarde (25 sonetos) e Noite (22 sonetos). O poeta, por meio de inúmeros elementos, sobretudo os naturais, canta seu amor por Mathilde.
Em Manhã, no segundo poema, o eu-lírico fala sobre seu estado de solidão até encontrar a mulher amada; comenta sobre uma provável “impossibilidade” do amor dos dois, dos desencontros e, por fim, sobre o destino que os uniu.

“Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,/ que solidão errante até tua companhia!/ Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva./ Em Tatal não amanhece ainda a primavera./Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,/juntos desde a roupa às raízes,/ juntos de outono, de água, de quadris,/ até ser só tu, só eu juntos./ Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,/ a desembocadura da água de Boroa,/ pensar que separados por trens e nações/ tu eu tínhamos que simplesmente amar-nos,/ com todos confundidos, com homens e mulheres,/ com a terra que implanta e educa os cravos.” (p. 12)

Em Meio-dia, no soneto XLIV, Neruda trabalha com antíteses para declarar à mulher todo o seu amor por ela. Há:

“Saberás que não te amo e que te amo/ posto que de dois modos é a vida,/ a palavra é uma asa do silêncio,/ o fogo tem uma metade do frio./ Eu te amo para começar a amar-te,/ para recomeçar o infinito/ e para não deixar de amar-te nunca:/ por isso não te amo todavia./ Te amo e não te amo como se tivesse/ em minhas mãos as chaves da fortuna/ e um incerto destino desditoso./ Meu amor tem duas vidas para amar-te./ Por isso te amo quando não te amo/ e por isso te amo quando te amo.” (p. 56)

No soneto LXVI, da Tarde, o poeta segue utilizando de antíteses. Lê-se:

“Não te quero senão porque te quero/ e de querer-te a não querer-te chego/ e de esperar-te quando não te espero/ passa meu coração do frio ao fogo./ Te quero só porque a ti te quero,/ te odeio sem fim, e odiando-te rogo,/ e a medida de meu amor viageiro/ é não ver-te e amar-te como um cego./ Talvez consumirá a luz de janeiro/ seu raio cruel, meu coração inteiro,/ roubando-me a chave do sossego./ Nesta história só eu morro/ e morrerei de amor porque te quero,/ porque te quero, amor a sangue e fogo.” (p. 81)

Em Noite, no soneto LXXXIX, Pablo fala sobre a finitude do corpo, mas não do amor. Comenta sobre o amor além da vida, faz isso utilizando signos como trigo, vento, areia, flor, vocábulos tão caros à sua poesia, principalmente nos Cem Sonetos. Há:

“Quando eu morrer quero tuas mãos em meus olhos:/ quero a luz e o trigo de tuas mãos amadas/ passar uma vez mais sobre mim seu viço:/ sentir a suavidade que mudou meu destino./ Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,/ quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,/ que cheires o amor do mar que amamos juntos/ e que sigas pisando a areia que pisamos./ Quero que o que amo continue vivo/ e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,/ por isso segue tu florescendo, florida,/ para que alcances tudo o que meu amor te ordena,/ para que passeie minha sombra por teu pelo,/ para que assim conheçam a razão de meu canto.” (p. 107)

Neruda, em seus Cem Sonetos de Amor, iguala sua musa maior, Mathilde, a todos os elementos que embriagavam o poeta menino, que corria pelo interior do Chile. Mathilde é água, é fogo, é vento, é trigo, é terra… São nesses elementos que o poeta encontra o corpo e alma da mulher; corpo e alma que o sentimento amoroso do poeta quer viver e morrer, infinitamente.

***

Referências:

LANGLOIS, José Miguel Ibañez. O ciclo poético de Neruda. In: Rilke, Pound, Neruda – três mestres da poesia contemporânea. Tradução Antônio José de Almeida

NERUDA, Pablo. Cem Sonetos de Amor. Porto Alegre: L&PM, 1987.

NERUDA, Pablo. Confesso que Vivi. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.