Você levou esse livro muito a sério

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Ao menos para mim, foi uma época de pouca conversa sobre livros

Foto: google
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“Você levou esse livro muito a sério”. Faz tempo que ouvi essa de um amigo, ambos com 20 anos recém-completos, nenhum juízo e nenhuma noção disso. Continuamos idiotas, mas hoje temos uma migalha de consciência da própria estupidez. Na época eu já gostava de literatura, engatinhava entre as estantes da biblioteca, as dos sebos empoeirados e as eventuais indicações de amigos ou professores. Lia pouquíssimo em comparação ao que leio hoje, informação que os mais otimistas daquele tempo desmentiriam com ‘ah pare você lia um monte’; continuarei achando que sabia e ainda sei pouco.

Em parte porque autores que conheço hoje, pelo menos de nome, sequer passavam pela minha estante, na época um canto tosco do meu quarto com não mais do que 30 volumes. Também porque naqueles anos entre 2005 a 2010 a internet não tinha presença mais do que maciça de hoje, nosso tempo inimaginável sem internet banda larga para qualquer fim, e eu conhecia poucos sites bons dedicados à literatura e demais formas de cultura – o nosso Homo Literatus não tinha nascido, nem a Escotilha, talvez nem outros hoje fáceis de achar. Até escrevia umas porcarias que eu chamava de resenhas em um site que hoje não visito mais e larguei os ‘textos’ – dava para chamar disso? – no infinito lixão virtual, aquelas coisas ruins que a gente escreve aos 20. (E também não conhecia Philip Roth, de quem parodiei na cara dura uma frase de um de seus romances mais célebres).

Eu lia um pouco sobre literatura no Rascunho, que por vezes eu pegava na Biblioteca Pública, e às vezes em uma resenha de jornal ou revista de papel. Que eu lembre não existiam tantos eventos literários aqui em Curitiba, pois o Litercultura e a Feira Literária do Medianeira nasceram depois dos anos mencionados, e nem sempre eu podia ir naqueles cuja existência eu sabia; a biblioteca perto da casa onde ainda moro com a minha mãe estava fechada para reforma, eu não conhecia livrarias além daquelas formatadas previsíveis de shopping center, sequer me imaginava entrevistando editores e autores e nem sonhava que trabalharia como vendedor em uma livraria do final de 2013 a 2015. Ao menos para mim, foi uma época de pouca troca de informação sobre literatura.

Sabia pouco mas gostava desse pouco. Eu relia alguns livros quase anualmente e um deles era o Admirável Mundo Novo, anos antes de eu saber que Aldous Huxley ofereceu muito além de sua distopia, hoje semi cultuada internet afora graças a visão do que poderia ser o futuro. Após ter pego emprestado o livro quando o li pela primeira vez, aos meus 16 anos, e te-lo comprado com o dinheiro de um emprego, devo ter comido a obra com o mesmo grau de preocupação e paranoia com que foi escrita. Convenci o amigo que mencionei no começo da crônica a ler; ele devorou em pouco tempo e demorou uns três meses para me devolver. E me falou: ‘você levou esse livro muito a sério’.

Ainda que Mundo Novo tenha deixado há anos de ser minha ficção favorita do Huxley, que eu tenha lido mais dele e de mais gente e melhor, tenha encontrado gente com quem falar de literatura, nada se compara a frase deste meu amigo. Por ter sido marca de uma era da minha vida, a maneira como todo leitor é marcado tão profundamente por uma leitura específica, que sua formação enquanto pessoa venha dela em um nível exagerado; talvez pelas poucas conversas sobre interpretação de livros. Um interesse meu em estágio larval, em oposição ao presente, em que falo disso todo dia. Leituras e também pessoas vieram, foram e algumas ficaram, as marcas delas também. Se eu contar o tanto de merda que meus amigos e eu falamos sobre livros àquele que me zoou pela suposta seriedade, ele vai ter razão de sobra para continuar tirando sarro de mim – a mesma coisa se olhar a minha estante atual, um amontoado de paginas e memórias.