Você não precisa falar dessa estante

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Você vai visitar alguém, que te mostra a estante de livros… e vai falar o quê?

Tá… o que eu falo?

“O que posso falar desse livro?”

Você tá na casa de alguém – amigo, amiga, namorada – que devora páginas como se fossem comida. Não deixa de ser, é alimento mental. Pode até ser que vocês tenham ritmos parecidos, leiam com a mesma voracidade; ou que você ache que não lê tanto assim perto dessa pessoa que está visitando. Claro, um pouco da conversa é sobre livros, mais claro ainda que ela vai te mostrar a estante, falar de uma leitura que precisou fazer ou leu porque quis e a empolgou. E você vai falar o quê?

“Ah, não conheço”, querendo disfarçar a falta de jeito, na verdade algo só da sua cabeça, porque pra essa pessoa que você visita é a companhia que vale. O importante é manter ouvidos e olhos atentos àquele universo particular, antes oculto do resto do mundo e agora disponível à sua observação, nem que seja só pra dizer que não conhece aquilo, achou bonito, qualquer conversa fiada na frente da estante. Às vezes, mostrar de perto a biblioteca particular pra outra pessoa significa revelar um mínimo de intimidade sem exatidão alguma, em oposição ao mundo fora de casa que vive a exigir atitudes pra ontem.

Mesmo recebendo esse tapete vermelho e tratamento VIP ao ver a estante – e vida – do outro, ainda é possível ter um pouco de receio, ficar sem palavras diante de uma parte da casa conservada com muito carinho. E se o dono pergunta à queima-roupa o que você acha DESSE AQUI – e aponta bem aquele autor … Tá, como é que fala o nome desse cara, isso aqui é romeno, norueguês, russo, não faço ideia, não sei nem falar o nome de quem escreveu o livro e o dono da estante pergunta o que acho disso aí? Tinha um nome mais fácil pra mostrar? Deixa pra lá, não sei quem foi, quem é, nunca li a respeito, vamos mudar de assunto, tem café na sua casa?

Tem café, pois dos livros você já sabe. Também sabe que a pessoa que te convidou não dispensa um café em frente à estante, recordando internamente as sensações de leituras acumuladas, espera poder te contar um pouco delas – e conta. Talvez você conheça aquela tola sensação, um pouco de vergonha por não conhecer metade do acervo na sua frente, seja porque tem outros interesses, ou por achar que não lê tantos livros assim. É uma mistura estranha de admiração e timidez.

É um privilégio poder acompanhar as paixões de alguém, ainda mais quando a pessoa compartilha isso com a gente. Pode ficar satisfeita apenas com a nossa companhia enquanto decide a próxima leitura, sem esperar nossa contemplação ou concordância. Quem visita fica sem jeito, achando que nada tem a falar, observa a biblioteca em breve silêncio, à espera de algumas palavras de quem possui aquela coleção toda. Dá-se o espaço às sensações alheias, menos insondáveis após essa confissão disfarçada de gosto por leitura.

Talvez você pense que nunca vai conhecer 100% a pessoa que te convida pra um papo em casa, ainda mais se der corda pra ela falar dos livros, isso se ela precisar de corda – gente apaixonada por leitura pode virar tagarela em questão de segundos. Não faz mal se você achar isso, nem se continuar meio sem jeito depois de ver o acervo pela vigésima vez e não ter palavras. Quem possui esses livros pode achar a mesma coisa deles e reler alguns, à cata de uma informação nova, ou só pra curtir e reler a sensação que conhece de perto. E pensar o mesmo de quem convida pra essa parte tão íntima do lar.