Novas iniciativas surgem no mercado editorial brasileiro

Apesar da queda nas receitas em 2016, mercado editorial brasileiro recebe novas iniciativas: duas editoras e uma revista são algumas delas

(Crédito: Gabriela Bilo/Estadão)

Sim, o mercado editorial encolheu cerca 5% em 2016, conforme a mais recente edição da pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) e pela Câmara Brasileira do Livro (CBL).

Olhando assim, de bate-pronto, boom, uma ideia vem à cabeça: a de que o mercado editorial DE FATO está diminuindo. Economicamente, sim. O faturamento diminuiu por vários motivos. Um deles, a queda nas vendas de livros religiosos. Uma reportagem boa pacas do Publishnews traz mais informações.

Entretanto, embora, contudo, porém, algumas iniciativas surgem em meio ao caos que vive o Brasil. Três, especificamente. As editoras Ubu e Todavia e a revista literária Quatro cinco um. Vale falar um pouco sobre cada uma delas.

 

Adeus, Cosac

O fato de a Cosac Naify ter fechado em 2016 deixou muita gente triste. Muita mesmo. Embora os livros fossem caros para a realidade brasileira, valia a pena deixar de gastar com cigarros e cervejas para comprar aqueeeela edição bonitona do Tolstói ou, quem sabe, as Fábulas de Esopo.

Embora a Amazon esteja fazendo mil e duas queimas de estoques com os livros da editora, o adeus da empresa do figuraça Charles Cosac ficou registrado como uma das grandes perdas do mercado editorial brasileiro no ano passado.

Dessa tragédia, eis que surgiu uma nova editora, a Ubu, no final de 2016. Idealizada por três mulheres, Gisela Gasparian, Florencia Ferrari e Elaine Ramo — as duas últimas com passagens pela Cosac – a casa chegou mostrando a que veio. O primeiro livro lançado foi a edição crítica de Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Da esquerda p. direita: Gisela Gasparian, Florencia Ferrari e Elaine Ramos (Crédito: Adriano Vizoni/Folhapress)

De acordo com uma reportagem da Folha de S. Paulo, a Ubu comprou 35 títulos da Cosac. O perfil da editora é interdisciplinar. Vai de Marcel Mauss a Antonio Prata.

  • Registre-se um: Ubu, em tupi, significa homem caiu.
  • Registre-se dois: Oito pessoas compõem a editora. Todas mulheres.

 

Em nova companhia

Em janeiro deste ano, dois editores deixaram a Companhia das Letras: Flávio Moura e André Conti. A dupla se uniu a ex-funcionários da casa e criaram a Todavia. Segundo reportagem da Folha, os quatros primeiros lançamentos virão em julho.

“Diferentemente de outras casas independentes, que buscam canais alternativos de vendas, a Todavia tem livrarias como principal foco. O perfil já havia sido anunciado: ficção, não ficção e quadrinhos”, diz a reportagem da Folha.

Um fato chamou a atenção: o maior acionista da editora é Alfredo Setubal. Ele é o presidente da holding Itaúsa, que controla o Grupo Itaú.

Detalhes: alguns desses editores trabalharam com Julián Fuks, Caetano Galindo e David Foster Wallace na Companhia das Letras. É de se apostar que algum deles mude de casa. Todavia (uepa!: conjunção adversativa aqui, não o nome da editora), é melhor esperar.

 

Livros em revista

A mais recente das ideias que veio a público é a revista Quatro cinco um, dos jornalistas Paulo Werneck e Fernanda Diamanti. A primeira edição foi publicada neste mês. O texto principal é um ensaio sobre a escritora italiana Elena Ferrante. A publicação é mensal. Assinantes da revista Piauí vão receber exemplares gratuitos até outubro.

A proposta da publicação é, CLARO!,  ser uma revista de livros. Mas não só. Na Quatro cinco um há espaço para artigos sobre política, economia e literatura de vários segmentos (culinária, por exemplo). Ao final da primeira edição há um listão com 147 lançamentos de 20 áreas. (Que Deus nos ajude para conseguir tanto dinheiro para comprar pelos menos 116 lançamentos.)

Os editores disseram em várias entrevistas que se inspiraram em revistas similares de outros países, como a The New York Review of Books, dos Estados Unidos.

Ah, por último mas não menos importante: sim, o título da publicação é uma referência àquilo que você pensou assim que leu Quatro cinco um: o romance distópico Fahrenheit 451, lançado em 1953 pelo norte-americano Ray Bradbury.

Ah, por pós-último mas não menos importante dois: a revista nasceu com apoio de gente de peso. Fazem parte do conselho editorial dela, entre outros, Otávio Frias Filho (publisher da Folha de S. Paulo), Arminio Fraga (ex-presidente do Banco Central) e Fernando Moreira Salles (um dos acionistas do Itaú Unibanco, da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração e sócio da Companhia das Letras).

 

Portanto, conclui-se que:

Cada uma dessas iniciativas merece, além dos parabéns, uma análise mais profunda sobre o trabalho desenvolvido. Como o tempo é curto, torcemos para que o leitor se interesse pelas editoras e pela revista. Quem sabe, em breve, voltemos ao tema.

Às iniciativas, vida longa; aos leitores, muita leitura; e dinheiro para comprar revistas e livros!

Porque quem não tem dinheiro escreve sobre aquilo que deseja em blogs literários.

Victor Simião Author

Interessado por literatura, política, economia e sociologia, é formado em Jornalismo (Unicesumar). Atualmente é repórter da rádio CBN (Maringá-PR), cursa Ciências sociais (UEM) e organiza o clube de leitura Bons Casmurros. (Ele também acha estranho pacas falar sobre si mesmo na terceira pessoa em uma minibiografia.) @ovictorsimiao | victorsimiao1@gmail.com.