A novela que inaugurou o fluxo de consciência na literatura

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Pioneira na técnica do fluxo de consciência, obra esquecida do francês Édouard Dujardin foi uma das principais influências de James Joyce em Ulysses

Fluxo de Consciência
Pintura assinada por Camile Pissaro

Um entardecer de sol se pondo, ar distante, céu profundo, e massas confusas, ruídos, sombras, multidões, espaços de extensão infinita, um vago entardecer… Pois sob o caos aparente, entre o tempo e o espaço, na ilusão das coisas que se engendram e se criam, um entre os outros, um como os outros, distinto dos outros, semelhante aos outros, um igual e um a mais, do infinito das possíveis existências, surjo eu; e eis que o tempo e o espaço se precisam. – Os Loureiros Estão Cortados, Édouard Dujardin, Editora Brejo, página 19.

Daniel Prince é um jovem estudante de Direito que caminha pelas ruas e em outros demais endereços de Paris, durante as seis horas que antecedem o seu encontro com Léa, uma atriz de teatro pela qual está apaixonado. É assim que, sem grandes malabarismos folhetinescos, se delineia a trama da novela simbolista Os Loureiros Estão Cortados (Les Lauriers Sont Coupés), do francês Édouard Dujardin.

Bem como se pintasse um quadro impressionista d’um final de tarde, na charmosa Cidade Luz do século 19, que o jovem Prince tece um breve relato, de refinado trato poético, preenchido por imagens e divagações, fomentadas pela sua mente hiperativa, que registra e discursa a todo o instante pequenas e grandes sutilezas que circulam ao seu redor. O livro, escrito pela primeira vez em quatro capítulos na Revue Indépendente, em 1888, seria mais tarde uma das obras que influenciaria radicalmente o futuro do romance moderno, já que fora ele o grande pioneiro na técnica do fluxo de consciência.

Iluminado, vermelho, dourado, o café; espelhos reluzentes; um garçom de avental; as colunas cheias de chapéus e sobretudos. Há alguém aqui que eu conheça? As pessoas me vêem entrar; um senhor magro, de longas suíças, que gravidade! as mesas estão ocupadas; onde me sentarei! Lá tem uma vazia; justamente meu lugar habitual; pode-se ter um lugar habitual; Léa não teria de que caçoar(…) –  Os Loureiros Estão Cortados, Édouard Dujardin, Editora Brejo, página 29.

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James Joyce (foto acima) revelou-se um dos pupilos de Édouard Dujardin ao observar a peculiaridade em sua técnica de narrar em Os Loureiros Estão Cortados

Com a entrada do século 20, a literatura ganhou uma nova concepção em sua forma de narrar, deixando de lado a tradição clássica do gênero, com o objetivo de assimilar o espírito do homem moderno aliado ao “boom” da revolução industrial e o surgimento do cinematógrafo. Joyce, certamente, estava disposto a provocar um verdadeiro estardalhaço na literatura, ao trabalhar, durante sete anos, na feitura de um dos mais revolucionários romances de língua inglesa. Descobriu a obra de Dujardin e observou com grande interesse o emprego narrativo usado nela.

Após a publicação de Ulysses, em 1922, o escritor irlandês enviou um exemplar para Dujardin, se declarando ladrão impenitente do seu método. Este, por sua vez, ficou tão lisonjeado pela tardia glória dada à sua novela que escreveu um livro de ensaio sobre o fluxo de consciência na obra de seu pupilo e grande pai da prosa moderna, intitulado Le Monologue intérieur, son apparition, ses origines, as place dan l’oeuvre de James Joyce et dans le roman contemporain, em 1931.

Neste mesmo ensaio, o escritor descreveu o fluxo de consciência como: “Discurso sem interlocutor e não pronunciado através do qual um personagem exprime seus pensamentos mais íntimos, mais próximos do inconsciente, anteriores a qualquer organização lógica, isto é, no seu estado original, por meio de frases diretas reduzidas à sintaxe mínima, de maneira a dar a impressão de não terem sido elaborados.”

É válido ressaltar que o termo “fluxo de consciência” ganhara designo na literatura somente em 1925, no prefácio da edição definitiva de Os Loureiros Estão Cortados, assinado por Valery Larbaud, que tomou consciência do livro por intermédio de Joyce. Embora o fluxo e o monólogo interior apresentem características muito semelhantes, ambos não abarcam o mesmo conceito, como muitos acabam os classificando, inclusive alguns críticos. O primeiro recorre à proliferação de imagens e ações do campo psíquico da personagem, que se executam tanto no tempo presente quanto no passado, num mergulho introspectivo, por vezes desestruturado, onde a essência se deglute na subjetivação de um eu consciente e não consciente constantemente amalgamado. Enquanto o segundo discorre de ideias e anseios também de natureza intimista que se desaguam de forma linear sem um ouvinte específico (mas que o próprio expressar exibe um anseio por ser ouvido), como se confere nos romances Memórias do Subsolo, de Fiódor Dostoiévski; e A Obscena Senhora D., de Hilda Hilst.

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Animação de obra assinada por Van Gogh

A estrutura de Os Loureiros Estão Cortados se destaca pela sua fluidez verbal conjecturada por frases curtas e harmoniosas, dando agilidade e eficiência textual, além da profunda imersão do código poético em suas linhas, o que torna a novela em si uma narrativa que soa feito verso.

Um na multidão ilimitada de existências, assim eu prossigo doravante meu caminho, definitivamente um entre os outros; assim foram em mim criados o hoje, o aqui, o agora, a vida; uma alma que flutua num sonho de afeto, é isso; é um sonho feminino, o hoje; é um corpo feminino tocando o meu aqui; meu agora é uma mulher de quem eu me aproximo; e eis aonde vai minha vida, esta moça nesta noite… E zunem as ruas, os solavancos, as rodas sobre o calçamento, a noite clara, nós sentados no carro, o ruído e os solavancos do carro que roda, as coisas que desfilam, a noite deliciosa(…) – Os Loureiros Estão Cortados, Édouard Dujardin, editora Brejo, página 93.

Outra característica encontrada na obra é o irônico senso de humor explícito nos pensamentos do protagonista enquanto os eventos ocorrem no instante em que se narra, como podemos conferir no trecho abaixo, quando Lucien Prince chega, por fim, à residência de Léa, que está sentada ao seu lado, dentro da carruagem, após um breve passeio noturno que ambos fizeram pela cidade:

Mas nos aproximamos… de sua casa, eu dizia; da casa dela; do momento decisivo então?… é absurdo perturbar-se dessa maneira, subitamente, sem razão; tenho perto de mim a mais bela jovem; acabo de dar um passeio com ela; vou entrar na casa dela; o que posso querer mais? o senhor de agora há pouco devia estar furioso; sou o mais afortunado dos homens… Ah! Mortal, mortal tormento! estou ficando louco; não tenho certeza de estar feliz, não devo estar?… Já estamos na praça Pigalle; e esse cocheiro, que vai a toda velocidade; a passagem Stévens; em um minuto, sua porta; meu Deus, meu Deus, o que ela vai me dizer? o que vai fazer? o que eu vou fazer! – Os Loureiros Estão Cortados, Édouard Dujardin, Editora Brejo, páginas 102 e 103.

Segundo Donald Schüler, no texto de apresentação que abre a caprichada edição brasileira do livro, traduzida por Hilda Pedrollo, pela editora Brejo: “O narrador, ao libertar o narrado de toda a subordinação ao ficcionalmente vivido, acompanha experiências únicas e intransferíveis no momento de acontecerem. Se a narrativa romanesca se prendia antes ao passado, Os Loureiros Estão Cortados nos leva aos acontecimentos no momento de acontecerem.”

É interessante salientar que a novela também faz uma crítica aos costumes românticos da época, trazendo concepções dicotômicas entre o ser e o almejar, como também um certo desgaste ao amor convencional (casto e romântico), que busca ser perfeito como na teoria, mas que na prática não o é. O amor burguês mostra-se inescapável pela corrupção dos interesses capitais e levianos. Ao mesmo tempo em que, de forma controversa, a inocência hesitante ainda pode ecoar doce e primaveril.

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Édouard Dujardin por Aristide Marie

Édouard Dujardin foi um jornalista, poeta, romancista, dramaturgo e ensaísta francês, nascido em 10 de novembro de 1861, na região de Saint-Gervais-la-Fôret, em Loir-et-Cher. Herdeiro majoritário da fortuna da família, o intelectual tornou-se conhecido pelos seus hábitos caros e gostos refinados, além da intensa vida noturna parisiense, recebendo dos amigos o apelido de Dandy (do inglês “elegante”).

Em sua vida amorosa, Dujardin destacou-se pelos inúmeros envolvimentos com dançarinas e atrizes de teatro. Foi responsável por dirigir a Revue Wagnérienne e, depois, a Revue Indépendante, veículos de atividade simbolista, tendo sido um dos mais profícuos críticos literários de seu tempo. Faleceu aos 88 anos em 1949.

De fato, não podemos ler Ulysses, de James Joyce; Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf; O Som e a Fúria; de William Faulkner; O inominável, de Samuel Beckett; ou Perto do Coração Selvagem; de Clarice Lispector; entre outros grandes clássicos da literatura universal, marcados por semelhante técnica — onde a mente do receptor se desnuda no desenvolvimento narrativo, ausentando-se do método aristotélico –, sem lembrar que, por trás de todas essas obras, encontra-se o mais velho patriarca da família, o discreto e elegante livrinho de Dujardin.

 

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Este artigo pertence à série Livros que você precisa conhecer, que busca apresentar ao público obras de grandes escritores, não tão conhecidas assim, embora elas tenham despertado uma profunda conexão emocional nas pessoas que as leram. E o Homo Literatus traz a você estes testemunhos.

 

Referências bibliográficas:

DUJARDIN, Édouard, Os Loureiros Estão Cortados. Tradução: Hilda Pedrollo. Porto Alegre: 2005. Editora Brejo.

VALVERDE, José Maria, Conhecer James Joyce e Sua Obra. Tradução: João Maia. Portugal. Editora Ulisseia.

BÜRGUER, Peter, Teoria da Vanguarda. Tradução: José Pedro Antunes. São Paulo: 2012. Editora Cosac Naify.