A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, de Laurence Sterne

A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, o romance dos romances.

Quando A Vida e Opiniões de Tristram Shandy* se aproxima perigosamente do fim, e nos apetece abrandar o ritmo da leitura, Tristram Shandy, o autor-narrador, informa-nos que acredita «sinceramente ter interceptado muitos pensamentos que os céus destinavam a outro homem.» Não saberemos a quem Laurence Sterne, o autor-escritor, terá roubado todos os pensamentos que ao longo das cerca de 800 páginas nos legou na sua obra-prima, e são muitos e diversos. Para discorrer sobre o plágio, por exemplo, plagia Robert Burton, autor de Anatomia da Melancolia, um dos clássicos da prosa em língua inglesa: «Estaremos condenados para sempre a fazer livros novos como os boticários fazem novas misturas, despejando de um frasco para outro?» José Saramago, que ‘encontrou’ O Ano da Morte de Ricardo Reis num quarto de hotel em Berlim, Todos os Nomes quando se preparava para aterrar em Brasília, e O Evangelho Segundo Jesus Cristo quando julgou ver este título escrito na capa de um jornal em Sevilha, referia-se frequentemente a esta ideia de ter agarrado pensamentos que talvez se destinassem a outros.

A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, numa edição da Penguin
A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, uma edição da Penguin

A Vida e Opiniões de Tristram Shandy é, cronologicamente, o terceiro grande romance moderno, depois de O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes Saavedra, e Tom Jones, de Henry Fielding; é também o livro que marca definitivamente o domínio do romance como o gênero literário mais bem sucedido e reconhecido de sempre, quer junto da elite culta, quer junto do público, destronando o drama (ao contrário de Cervantes e Fielding, Sterne não era dramaturgo), e a poesia; isto apesar de haver críticos e académicos que rejeitam a classificação de Tristram Shandy como ‘romance’; quer enquanto produto cultural, quer enquanto produto comercial, o romance é o principal dos gêneros literários. Quatrocentos anos após Dom Quixote, já muitos vaticinaram o fim do romance – mas ele continua aí – e a maior prova do seu domínio é esta: no imaginário popular ser escritor é sinônimo de ser romancista.

Tristram Shandy é o mais quixotesco de todos os romances já escritos – Dom Quixote é referido constantemente ao longo da obra, tal como o são muitas outras obras e autores: Anatomia da Melancolia, de Robert Burton, Hamlet e Otelo, de William Shakespeare, Gargântua e Pantagruel, de François Rabelais, Ensaios, de Montaigne, ou Ensaio sobre o Entendimento Humano, de John Locke, entre as mais conhecidas actualmente. Impossível é não repara nas semelhanças entre a dupla Dom Quixote / Sancho Pança, e a dupla tio Toby / cabo Trim, ou entre os amores do tio Toby com a viúva Wadman, e os amores de Dom Quixote e Dulcineia. É também, avant la lettre, o mais joyceano dos romances. Dois séculos antes de James Joyces escrever Ulysses, Laurence Sterne fez em A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, o que James Joyce faria dois séculos depois: “agarrar no gênero narrativo do romance e explorar exaustivamente as suas convenções”(1). Hoje reconhece-se a Laurence Sterne ter sido um dos precursores da técnica celebrizada por James Joyce, o fluxo de consciência, antes de a técnica ter sido sequer batizada.

Laurence Sterne, por Sir Joshua Reynolds
Laurence Sterne por Sir Joshua Reynolds

Publicado entre 1759 e 1767, em nove volumes, Tristram Shandy foi um sucesso junto da crítica (muito bem ou muito mal, todos falavam da Vida e Opiniões – tal como ainda hoje acontece, é uma obra de que ou se gosta muito ou se detesta – mas a que não se pode ficar indiferente depois de a ler) e do público londrino, valendo a Laurence Sterne fama, reconhecimento, e conforto financeiro em vida, o que o levou a quase abandonar a sua atividade de reverendo (sacerdote anglicano) em Iorque, para passar longas temporadas em Londres; passou também longas estadias em França e Itália, tentando tratar-se da tuberculose, de que viria a morrer a 18 de Março de 1768. Havia nascido 54 anos antes em Clonmel, Irlanda, a 24 de Novembro de 1713. Apesar do sucesso imediato de Tristram Shandy, haviam passado apenas nove anos após a publicação do último volume quando Dr. Samuel Johnson, hoje considerado pela maioria dos autores o maior crítico da literatura anglófona, lhe passou a certidão de óbito – claramente exagerada – “Tristram Shandy não sobreviveu” («Nothing odd will do long. Tristram Shandy did not last» declarou ao seu companheiro de viagem, James Boswell, autor da primeira grande biografia da literatura ocidental, a 20 de Março de 1776, justamente a biografia de Samuel Johnson, Life of Johnson, o modelo de todas as obras do gênero). Harold Bloom, um dos mais conhecidos críticos da atualidade considera, em O Cânone Ocidental, que esta “é a mais infeliz de todas as declarações johnsonianas”.

Não só Tristram Shandy sobreviveu, como a obra de Laurence Sterne influenciou direta ou indiretamente as gerações posteriores de escritores; entre eles, os românticos, nomeadamente o romantismo alemão (influenciou a obra Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, de Johann Wolfgang von Goethe, que considerava Laurence Sterne o mais belo espírito que já viveu), “através da estrutura digressiva e do sentimentalismo” (2). Entre os escritores de língua portuguesa, a influência de Laurence Sterne é evidente na obra Viagens na Minha Terra do português Almeida Garrett (neste caso a obra que mais influência terá exercido sobre Garrett terá sido Uma Viagem Sentimental por França e Itália), e nas obras Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Braz Cubas, em particular através das reflexões de Machado de Assis sobre a ficção e outros géneros, e das liberdades narrativas: o narrador de Tristam Shandy começa a narrar a sua história quando está para nascer; Braz Cubas vai mais longe, e narra a sua história depois de haver morrido.

A influência de Laurence Sterne prosseguiu durante o Modernismo, «quer pela intrincada auto-referencialidade, quer pela minuciosa notação dos meandros da consciência» (3); Tristam Shandy é tido como modelo por autores como James Joyce, Virginia Woolf, Samuel Beckett, ou Luigi Pirandello. «A figura do narrador-escritor que está a escrever a sua própria história, cujo nexo parece derivar apenas do próprio ato de escrita, numa frenética atividade de autoconcepção, acabou por tornar-se numa narrativa típica do século XX.» (4) Além dos autores referidos atrás, a influência de Sterne é ainda notada pelos críticos em obras tão diferentes como as de Denis Diderot, Honoré de Balzac, Charles Dickens, ou Thomas Mann. Curiosamente – ou não – a obra formalmente mais semelhante com Tristram Shandy, que contém inúmeras referências a outras obras e autores, não possuiu nenhuma referência a Laurence Sterne ou às suas obras: Ulysses de James Joyce; se de Leopold Bloom nunca conheceremos mais que um dia, também Tristram Shandy só nasce finalmente ao fim de 3 volumes (cerca de 300 páginas), e no final do quarto volume (mais 100 páginas) ainda não passou do primeiro dia de vida. Mais recentemente é reconhecida, pelos próprios ou pelos críticos, a influência de Laurence Sterne nas obras de Italo Calvino, Thomas Pynchon, ou David Foster Wallace.

Como escrever um romance sem uma história propriamente dita, ou com uma história aparentemente sem pés nem cabeça, sem princípio, meio, e fim, sem escopo, nem necessidade dele? Laurence Sterne dá-nos várias repostas ao longo da obra:

«De entre as várias maneiras de se começar um livro actualmente usadas em todo o mundo conhecido, estou seguro de que a minha forma de o fazer é a melhor – estou certo de que é a mais religiosa – pois começo por escrever a primeira frase – e logo confio a segunda a Deus Todo-poderoso.
»Seria remédio santo e haveria de curar para sempre um autor do espalhafato (…) limitar-se a observar como cada uma das minhas frases se segue à anterior, e de que maneira o todo obedece a um plano.
»Eu só queria que vísseis a confiança com que eu, semi-erguendo-me da cadeira e apoiando-me no seu braço, olho para cima – para apanhar a ideia, que às vezes ainda vem só a meio caminho -»

A história de Tristram Shandy é antes de mais a história da sua própria história, a narração da narrativa, uma longa linha que por vezes é esticada e reta, outras é emaranhada e retrocida, umas vezes anda rapidamente para a frente, outras vezes desvia-se, curva, volta atrás, ganha balanço, para depois continuar. Por vezes fala de si mesma, outras vezes entretém-se com outras histórias; como O Conto de Hafen Slawkenbergius (uma personalidade célebre que nunca existiu e que Sterne mistura com outras que foram reais; «hafen» significa “penico”, em alemão, e «slawkenbergius» significa “monte de esterco”). Discorre longamente sobre a importância dos nomes, do tamanho dos narizes, e de tudo o mais que se lembre; pode parecer, à primeira vista, que isto não faz sentido nenhum.

Ilustração de Laurence Sterne, da «linha narrativa» dos primeiros quatro volumes de Tristram Shandy
Ilustração de Laurence Sterne, da «linha narrativa» dos primeiros quatro volumes de Tristram Shandy.

Laurence Sterne, como tantos autores britânicos antes e após ele, joga com as palavras, com os duplos, triplos, quádruplos sentidos; por vezes parece que o que está a escrever não tem sentido nenhum – mas até o mais puro do non-sense tem sentido, e Tristram Shandy não é uma obra de non-sense, é uma grande, enorme, por vezes espalhafatosa, ironia. E nada escapa a essa espada afiada que rasga a realidade com a ficção e a ficção com a realidade, para melhor compreensão e crítica de ambas. É uma sátira à sociedade, às convenções sociais, aos escritores e à escrita, aos personagens, reais e inventados, a si mesmo, pois Laurence Sterne, como todos os grandes ironistas, não poupa ninguém, e não há notícia de um grande ironista que se tenha poupado a si mesmo. Como classificar Tristram Shandy? As grandes obras escapam a todas as classificações, porque estão acima (e abaixo – e ao lado – e no verso – e no reverso – e etc.) de qualquer taxionomia ou nomenclatura; estas servem para fins escolásticos, para obras acadêmicas de dissecação, para aborrecer colegiais, ou entreter aficionados. Se quiserem digam que é uma obra pré-romântica, com laivos de barroco – é tão redutor como enfiar Memórias Póstumas de Braz Cubas no realismo – ou enfiar o realismo no Dom Casmurro – ou, como diria Sterne – ou seria Tristam Shandy que o diria?

Tristram Shandy “joga” com os elementos da construção de um romance (e também de outras formas literárias); utiliza as diversas técnicas então em uso; reinventa-as à sua maneira – a mais utilizada é a associação de ideias, tal como conceptualizada por John Locke na obra referida atrás, Ensaio sobre o Entendimento Humano, que trata da relação entre a linguagem e o pensamento – chegando em diversos trechos a “imitar” a técnica futuramente conhecida como “fluxo de consciência”, deixando palavras, frases e pensamentos a meio, subitamente interrompidos pela consciência que “corre” noutras direções. Mas o “jogo” não fica pela construção do romance; Sterne “brinca” também com a construção do próprio livro-objeto: troca a ordem dos capítulos, deixa páginas em branco, e em preto, e às cores, elimina um capítulo (demasiado bom para a qualidade dos restantes, o que desequilibraria a obra na sua globalidade). É, para concluir, uma obra epi- e meta-literária: constrói-se sobre si mesma, e ao construir-se sobre si mesma, como um círculo infinito que sobe em espiral, comenta, explica, e reflete sobre si própria.

«- Certamente, se é que se pode depositar alguma confiança na Lógica, e caso eu não esteja cego pelo meu amor-próprio, alguma coisa de autêntico génio terá realmente de existir em mim, apenas por este único sintoma, que é eu não saber o que é a inveja: pois mal dou com alguma invenção ou mecanismo que contribua para o melhoramento da boa escrita, de imediato o torno público, desejoso de que toda a humanidade possa escrever tão bem como eu.
»- O que estará com certeza ao seu alcance, quando toda a gente pensar tão pouco como eu.»

À maneira dos poemas épicos, Tristram Shandy / Laurence Sterne, não se esquece da Invocação – a obra está quase concluída, faltam as páginas finais, é chegado o momento de invocar o:

«Espírito gentil do bom humor, que outrora inspiraste a pena leve do meu amado Cervantes; Vós que deslizastes diariamente pela sua gelosia, transformando com a vossa presença o crepúsculo da prisão num meio-dia radioso – impregnando de Néctar celestial o seu pequeno cântaro de água, e enquanto ele escreveu sobre Sancho e o amo, sempre cobristes com o vosso manto místico o seu coto mirrado, e todos os males da sua vida –
»- Virai-vos para mim, imploro-vos! – olhai só para estes calções! – são tudo quanto possuo neste mundo – aquele rasgão que mete dó já vem de Lião -»

Contudo, é tarde demais, pois a obra já está escrita, e o espírito do bom humor, que tanto inspirou Laurence Sterne / Tristram Shandy, sem que tivesse sido invocado, se mais tivesse inspirado, teria inspirado demais.

De todos as obras literárias que li – e são muitas – muito poucas quando comparadas com o que desejaria ter lido – A Vida e Opiniões de Tristram Shandy é a única que lamento não ter lido antes, muito antes. Não teria mudado a minha vida, mas teria sabido como escrever alguma coisa de jeito – mesmo que não o fizesse de qualquer modo.

Referências:

*O título original em inglês é The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman. Na tradução portuguesa optou-se por retirar o «gentleman» (cavalheiro) do título; na tradução brasileira optou-se pelo título A Vida e Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy. O título «gentleman» dado a Tristram Shandy após a vírgula transmite uma ironia impossível de reproduzir em português; por este motivo optei por omitir a palavra «cavalheiro» durante este pequeno artigo, referindo-me à obra apenas como «Tristram Shandy» – à semelhança do tratamento dado pela maioria dos autores, e que acontece tantas vezes com outras obras, como «Dom Quixote», por exemplo.

(1), (2), (3), (4) – Portela, Manuel: Tristram Shandy ou O Livro dos Livros in Sterne, Laurence: A Vida e Opiniões de Tristram Shandy – Parte Primeira, Lisboa: Edições Antígona, 1998 (tradução de Manuel Portela); ensaio na íntegra disponível online (acedido a 15 de Agosto de 2014): http://www1.ci.uc.pt/pessoal/mportela/arslonga/MPENSAIOS/o_livro_dos_livros.htm

Bloom, Harold: O Cânone Ocidental, Lisboa: Temas e Debates / Círculo de Leitores, 2011;

Boswell, James: Life of Johnson, Oxford: Oxford University Press, 2008;

Sterne, Laurence: A Vida e Opiniões de Tristram Shandy (2 volumes), Lisboa: Edições Antígona, 1998 (tradução de Manuel Portela).

André Benjamim Autor

Escritor, Poeta, Blogger, Sonhador. Licenciado em Psicologia das Organizações (Coimbra, Portugal). Tem vagueado pelo mundo, à procura de um cais, ou uma casa, ou qualquer coisa, que um dia talvez encontre - ou descubra - por sorte, azar, ou ironia do destino. Apenas sabe que ainda não chegou. «Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.»?