A ferocidade em ‘Dias de Abandono’, de Elena Ferrante

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O livro Dias de Abandono, de Elena Ferrante, apresenta a linguagem como estado de espírito e fala sobre o lugar na mulher na sociedade, que tem de lidar diariamente com suas feridas abertas


Roland Barthes, em 1967, discorreu sobre a “morte do autor”, procurando afastar a pessoa empírica, que escreve, da sua obra literária. Hoje em dia, com o crescente aumento do interesse na figura do escritor, separá-lo do seu texto fica cada vez mais difícil. E é por isso que figuras como Elena Ferrante causam tanto burburinho: ninguém sabe quem é a autora. O mistério envolvendo seu nome, um pseudônimo, permanece, pois ela acredita que “já fez tudo por seus livros escrevendo-os”. Ferrante foge da vida pública, dá raríssimas entrevistas; tudo isso para nos entregar somente seu texto, numa jogada de marketing que aumenta o interesse nele – e nela.
Numa tradução de Francesca Cricelli, que às vezes comete alguns pecados, Dias de Abandono é composto por capítulos curtos, dinâmicos, de leitura fácil e fluida. Narrativa de angústia, o enredo pode ser explicado por sua primeira frase, um início visceral: “Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar.” Maria Gabriela Llansol afirmava que “o começo de um livro é precioso”, e, neste caso, foi, além de precioso, o primeiro soco de muitos que viriam.
Acompanhamos a saga de Olga, nossa narradora que é também escritora, já com um livro publicado. Devido a esse fato, há constante metalinguagem na escrita, criando uma relação estreita com a literatura: “Estava atravessando um daqueles momentos que se relatam nos livros, quando uma personagem reage, às vezes, de forma excessiva ao normal descontentamento da vida.” Literatura essa que aparece como oásis salvador: “para me acalmar, criei o hábito de escrever até o sol raiar.” Por fim, existe uma intertextualidade interessante com Anna Karenina, citando os famosos questionamentos: “Onde estou? O que faço? Por quê?”
Além disso, a linguagem também surge como reflexo do seu estado de espírito, sendo muito importante para demonstrar o desenvolvimento da personagem: “passei do uso de uma linguagem elegante, atenta a não ferir o próximo, a um modo de me expressar sempre sarcástico, interrompido por risadas desmedidas. Devagar, apesar da minha resistência, cedi à linguagem obscena.” E agradeçamos por sua rendição, pois é essa linguagem feroz quem embala o ritmo forte do livro, trazendo peso à narrativa e assustando leitores desprevenidos, como nesse incrível monólogo:

“Falar como? Enchi o saco de nhenhenhém. Você me feriu, você está me destruindo, e eu preciso falar como uma boa esposa bem educada? Vai tomar no cu! Quais são as palavras que eu deveria usar para aquilo que você me fez, para aquilo que você está fazendo comigo? Que palavras eu tenho que usar para falar do que você anda fazendo com ela? Vamos conversar! Você lambe a boceta dela? Come o cuzinho dela? Você faz com ela todas as coisas que nunca fez comigo? Fala! Porque vejo tudo, vocês dois! […] Mas, para não perturbar o senhor, para não perturbar os seus filhos, preciso usar um linguajar limpo, preciso ser fina, preciso ser elegante! Vai embora daqui! Vai, filho da puta!”

Outro tema muito presente é o lugar da mulher na sociedade, expondo o machismo da cultura italiana, que a coloca sempre em função de um homem: “quando você não sabe segurar um homem perde tudo, relatos femininos de fim de caso, o que acontece quando, plena de amor, você não é mais amada, é deixada sem nada.” A clássica mulher abandonada, vista como louca, histérica, agora está em foco. Acompanhamos essa personagem clichê pela primeira pessoa, vendo as coisas como ela vê, o que nos abre para uma nova e inédita perspectiva, escapando dos vícios históricos.
Essa mudança de ponto de vista sobre as mulheres é, inclusive, um projeto de Ferrante, como já disse em entrevistas. Olga corrobora: “Pareciam-me emocionalmente burras [as mulheres dos livros de adolescência], eu queria ser diferente, queria escrever histórias de mulheres com muitos recursos, mulheres com palavras indestrutíveis, não um manual da esposa abandonada com o amor perdido como o primeiro pensamento da lista.” Porém, permanece a inevitabilidade da sina feminina: “O tempo é um respiro, pensei, hoje sou eu, daqui a pouco minha filha, tinha acontecido com a minha mãe, com todas as minhas antepassadas, talvez ainda acontecesse a elas – a elas e a mim, simultaneamente, acontecerá.”
Como esposa e mãe, há questionamentos interessantes. Sozinha, nossa narradora vê como é difícil a criação dos filhos: a filha se espelha na mãe desequilibrada, enquanto o menino canaliza sua raiva em atos violentos. Isso sem mencionar os indícios de relacionamento abusivo, que, depois de abandonada, ela percebe com mais clareza – Olga abdicou-se de si mesma para o bem do marido.
“Eu não era o tipo de mulher que se despedaçava com os golpes do abandono e da ausência, até enlouquecer, até morrer disso. Só havia perdido algumas lascas, de resto estava bem.” Dias de Abandono é, sobretudo, sobre uma mulher tendo que lidar com suas feridas abertas. Durante a leitura, vamos tocando nas nossas próprias fraturas – e, ao fim, aprendemos que é possível continuar caminhando, mesmo sem algumas lascas.