É preciso ler o livro para falar dele?

Um breve comentário sobre a exigência de burocratizar a leitura para vencer disputas literárias.

É comum leitores de obras atreladas ao que se chama Literatura Comercial reclamarem do preconceito literário que os leitores das chamadas Literatura de Nicho ou Literatura Clássica demonstram com suas preferências. O que acho curioso, pois até hoje não vi nenhum canal ou blog literário que diminua qualquer tipo de leitor/leitura. O mantra desses produtores de conteúdo parecer ser “toda experiência literária é válida”. Mas vá lá.

A reclamação geralmente vem acompanhada por um imperativo condicionante: se você nunca leu [insira título ou autor], não pode falar dele.

Qual é o raciocínio de delimitar o que se lê?

Para início de conversa, acho que esse raciocínio leva a uma burocratização desnecessária da leitura. Qualquer leitor experiente tem capacidade de perceber seu estilo, a “pegada” da narrativa. Os fatores aparecem ao folhear algumas páginas de um título na livraria. São estes, entre outros fatores, que vão influenciar sua decisão de levá-lo para casa ou não.

Se tivéssemos que ler de cabo a rabo absolutamente todos os livros que mencionássemos numa conversa informal ou encontro entre amigos, nossa lista de leituras seria preenchida apenas por dívidas literárias – o que, convenhamos, não é o sonho de nenhum leitor.

Acredito que a leitura completa e empenhada seja necessária quando a intenção é produzir um conteúdo específico sobre aquela obra: um artigo, uma palestra, uma pesquisa, uma matéria, um curso, uma resenha. Aí eu concordo, não tem como falar em profundidade sobre algo que você sequer experimentou.

Mas percebo uma contradição: os mesmos leitores que dizem que os “fãs de clássicos” teriam que ler Nicholas Sparks para de fato formarem uma opinião sobre ele não acham que deveriam ler os clássicos para serem capazes de afirmar que não fazem seu estilo.  Ou seja, você precisa ler o que eu gosto, mas eu não sou obrigado a ler livro nenhum para falar mal dele. Um pouco incongruente, não?

Das duas uma: ou você cobra que a pessoa leia tal livro para poder falar dele e faz o mesmo quando quer avaliar uma obra OU você não exige das pessoas algo que você também não está disposto a fazer.

A intenção do leitor ao ler o livro

É óbvio que qualquer produção contemporânea bebe de alguma maneira nas fontes clássicas, ou seja, no que já foi feito antes dela. Se você se der ao trabalho de cotejar cânones literários, romances contemporâneos premiados e best-sellers, vai perceber as influências e empréstimos. Faz parte. Os autores clássicos também se inspiraram em outras obras, muitos deles chegam a explicitar isso em seus textos.

Acontece que a maioria dos leitores não quer investigar quem inventou X ou Y, e sim ter uma boa experiência de leitura. E isso é muito válido. Há diversos profissionais empenhados em tecer conexões literárias entre diferentes estilos e autores, que mantêm uma produção ativa. Portanto, ninguém é obrigado a virar expert no assunto. Entender que essas “pontes” existem não significa que não haja originalidade, inventividade ou qualidade nas criações atuais.

Particularmente, acredito que existem bons livros em qualquer gênero. O que me atrai é a proposta daquela narrativa, o jeito como arranja as palavras, não a seção em que é exposta na livraria. Se a temática, estilo ou construção literária não me agradam, dificilmente esse título vai parar entre as minhas leituras – seja cânone literário ou o mais vendido do ano.

Na lista de obrigações, mantenho as obras reconhecidas como formadoras da Literatura e/ou dos gêneros literários tal qual os conhecemos. E também títulos destacados por leitores, estudiosos, prêmios e instituições que aprecio ou me interessam. Essa sou eu, enquanto leitora que escreve. Quando se trata do ofício exclusivo de leitor, acho que temos mais é que escolher aquilo que julgamos proveitoso.

Uma conclusão sobre a obrigação de ler

Não seria muito mais rico trocarmos experiências e impressões de leitura uns com os outros sem tentar ganhar uma disputa? O modo como uma pessoa fala de um livro pode me dar vontade de lê-lo, mesmo que seja de um gênero que não me atrai. Já tive altos papos com leitores de YA, mangá, poesia, literatura experimental. E muitos deles se aventuraram pelos meus gêneros ou autores favoritos justamente por causa dessas conversas.

Nesse país que lê tão pouco, ouvir que alguém cultiva esse hábito já me deixa feliz.

Ana Luiza Figueiredo
Doutoranda e mestre em Comunicação pela UFF, sendo formada em Publicidade e Propaganda pela UFRJ. Atua como consultora acadêmica, escritora, revisora, copidesque e redatora publicitária. Autora do livro infantil "O Mirabolante Doutor Rocambole", finalista no Prêmio Off Flip de Literatura. Integra a coletânea "Contos de Encantar o Céu", que compõe o catálogo da 56ª Feira de Bolonha e o acervo básico da FNLIJ. Assina a peça "Entre Nuvens e Ladrilhos", montada pelo coletivo Paraíso Cênico. Sua pesquisa de mestrado sobre maternidade nas mídias sociais, vencedora do Prêmio Compós, em breve estará disponível em formato livro. Acabou criando um site para dividir textos, dicas, investigações e projetos no mesmo espaço.
Ana Luiza Figueiredo
Doutoranda e mestre em Comunicação pela UFF, sendo formada em Publicidade e Propaganda pela UFRJ. Atua como consultora acadêmica, escritora, revisora, copidesque e redatora publicitária. Autora do livro infantil "O Mirabolante Doutor Rocambole", finalista no Prêmio Off Flip de Literatura. Integra a coletânea "Contos de Encantar o Céu", que compõe o catálogo da 56ª Feira de Bolonha e o acervo básico da FNLIJ. Assina a peça "Entre Nuvens e Ladrilhos", montada pelo coletivo Paraíso Cênico. Sua pesquisa de mestrado sobre maternidade nas mídias sociais, vencedora do Prêmio Compós, em breve estará disponível em formato livro. Acabou criando um site para dividir textos, dicas, investigações e projetos no mesmo espaço.
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