Estátua de Clarice Lispector é construída no Leme

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A estátua homenageando a escritora Clarice Lispector é a primeira a homenagear uma artista mulher

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O Rio de Janeiro foi (e ainda é) palco de grande atividade cultural. No que se refere à literatura, abrigou importantes escritores, como Machado de Assis (1839-1908), que utilizava frequentemente como cenário as ruas do centro da cidade, Lima Barreto (1881-1922), conhecedor do subúrbio carioca, e Vinicius de Moraes (1913-1980), que buscava sua inspiração nas praias da zona sul. Algumas destas figuras ganharam justa homenagem em pontos turísticos. Podemos visitar a famosa estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) na praia de Copacabana, as de Machado, Manuel Bandeira (1886-1968) e Joaquim Nabuco (1849-1910) na entrada da Academia Brasileira de Letras, a de Lima Barreto na Lapa, João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) no Leblon. Existe mesmo um roteiro elaborado com indicações da localização de cada estátua simbolizando os autores.

A novidade, este ano, é a construção da escultura de Clarice Lispector (1920-1977) na praia do Leme, primeira homenagem a uma mulher das letras. Ela foi modelada pelo artista Edgar Duvivier, pai de Gregório Duvivier, humorista e escritor, que também apoiou o projeto. Além deles, os responsáveis pela iniciativa foram a atriz Beth Goulart, que interpretou Lispector no teatro, e a professora de literatura Teresa Monteiro, biógrafa da escritora, de quem teria partido a ideia. A escolha do local, próximo ao Posto 1, se deve ao fato de a autora ter residido no bairro por doze anos, juntamente com seu cachorro Ulisses, também representado na escultura.

Clarice representa uma importante mudança de parâmetro na literatura brasileira, com seu estilo em fluxo de consciência que desafiava as exigências realistas/sociológicas da crítica. Apesar da apropriação de frases soltas de sua obra (se não inventadas) como autoajuda nas redes sociais, a escritora ainda é bastante lida e estudada. Além disso, face às inúmeras estátuas de escritores homens, é importante simbolizar uma artista mulher, numa época em que muito se discute sobre feminismo e empoderamento das minorias. Torçamos para que não se torne mero adereço turístico, sujeito a depredações, como a estátua de Drummond, e que sirva de incentivo ao conhecimento da rica literatura da ucraniana naturalizada brasileira, autora de romances canônicos como A Hora da Estrela, A Paixão Segundo G.H., e diversos contos e crônicas.