MACACOS: e se a gente fosse prestar contas?

A peça MACACOS escova a história do Brasil a contrapelo para denunciar a violência sobre os corpos pretos.

Programa de sábado à noite

Ao acaso, escolhi a peça que assistiria na noite de sábado. Os critérios foram os de acessibilidade, de local e de ingresso. Já tinha assistido à exposição Movimento Armorial 50 anos, de Ariano Suassuna, tomado um café na praça da Sé e me indignado com a quantidade de pessoas pobres, e em geral pretas, morando na rua e fazendo fila para receber um prato de comida, e tanta gente que, só por passar na rua, talvez voltando do trabalho, parou para comer um prato de comida doado.

Repleta dessa vivência, cheguei ao Centro Cultural São Paulo e me deparei com uma enorme fila. Foi a primeira emoção da noite. Desde um pouco antes da pandemia, raramente encontrava teatros lotados, ingressos esgotados e filas de espera.

A sensação de talvez não conseguir o meu ingresso pela quantidade de pessoas que lá estavam me deixou um tantinho contente. “Finalmente voltamos a lotar os teatros!”, pensei. Mas, sorte a minha, consegui a entrada.

O monólogo

Um ator preto sozinho em cena em um dos palcos mais históricos da cidade de São Paulo: a sala Jardel Filho. Ao entrar em cena, o ator começa recitando o nome da peça – MACACOS – de diferentes formas e intercalando com algumas frases racistas comumente escutadas (faladas!).

Nesses primeiros segundos, o espetáculo já mostra o grande destaque da noite: a expressão corporal e todos os movimentos que Clayton Nascimento realiza para dar conta de preencher sozinho o enorme palco, o que faz muito bem. Dialogando perfeitamente com ele, de forma pontual e assertiva, a iluminação ressalta seus movimentos e contribui com a aparição de cada nova personagem que Clayton interpreta em cena.

A princípio, temos um desfile de personagens pretos que o ator interpreta enquanto conta suas histórias, ressaltando preconceitos vividos e momentos que foram facilmente apagados, como o fato de Machado de Assis ter sido preto. Também fala de suas próprias vivências, de como foi acusado de ter roubado um mercado e a forma com a qual a polícia o violentou.

A história das mães

A passagem das personagens dá lugar à história das mães de pessoas pretas que foram mortas simplesmente por serem pretas. Eduardo, Agatha, Miguel, Amarildo… São os nomes que já conhecemos dos noticiários e por conta da falta de punidade e justiça em seus casos.

Na peça, conhecemos de perto suas histórias, especialmente da mãe de Eduardo. Clayton, dessa vez sem se vestir de personagem, nos conta que, em 2016, estava se preparando para entrar em cena dessa mesma peça quando conheceu a Tereza Maria de Jesus, mãe de Eduardo. Após uma cena cômica, em que o ator, interpretando Tereza, encena como foi essa primeira conversa entre os dois, ele lê uma emocionante carta que Tereza escreveu para seu filho, já morto. Depois da peça, ela nos encontra, a Tereza mesmo, e vai ao encontro do ator, o abraça e pede ajuda ao público (alguma advogada aqui?) para continuar com o caso do seu filho.

Entendemos, então, que Macacos é um processo aberto, sempre revisto e preenchido pelos acontecimentos atuais que permeiam o criador da obra. As mais ou menos duas horas de espetáculo são peças encaixadas de um todo que o autor conseguiu desenvolver com grande criticidade. Abarcar a história das mães, falar sobre os golpes do Brasil e falar do racismo como fator histórico traz à crise política e econômica do Brasil e aos absurdos que vivemos no governo atual, sem precisar cair em lugar comum.

“Me dá seu RG”

Interpretando um policial que o interroga, o ator usa a frase “Me dá seu RG” para iniciar outra parte do espetáculo. Nela, o ator nos dá literalmente uma aula de História do Brasil. Ele inicia com a chegada dos portugueses e, fazendo do seu corpo um mapa, desenhando e se expressando através dele, mostra diversos momentos da história para chegar no Brasil atual.

Percebe-se que, ao conceber a peça, seu criador teve cuidado e um estudo muito intenso. Racismo estrutural, força bruta da polícia, empobrecimento e marginalização das pessoas negras e golpes de estado favorecendo classes altas são alguns dos pontos relevantes nessa aula cênica. E esse é um dos pontos altos que favorecem a dramaturgia e abraçam o espectador. Ao narrar a história do Brasil e falar da vida de personalidades pretas, o ator, autor e diretor aponta os preconceitos, fala sobre a construção do racismo, dá nome aos assassinatos e mostra culpas e culpados.

Além de narrar, contar e falar, a peça sempre questiona os fatos. Mas por que é assim? Quem fez? Por que fez? A mando e a favorecimento de quem? Muito mais do que dar respostas, ele elabora as perguntas certas. E ainda evoca a plateia a responder, refletindo e dialogando ali mesmo, palco aberto, sem paredes e, em alguns momentos, até deixando o público à vontade demais, falando com o ator em meio à cena. Clayton lida muito bem com os improvisos e recebe aplausos ao longo da peça.

Ao final do espetáculo, ainda em cena, ele diz algo mais ou menos assim: “Você tá pedindo ajuda desde que essa peça começou”. As pessoas pretas, porque sabem como isso acaba. Eu, enquanto pessoa branca, pela minha parcela de culpa. “E se a gente fosse prestar contas?”, ele também questiona. E então?

SERVIÇO:

MACACOS

SINOPSE: O preconceito contra os povos pretos é abordado em cena a partir do relato de um homem-negro que busca respostas para o racismo que rodeia seu cotidiano e a história de sua comunidade. Dramaturgia, atuação e direção: Clayton Nascimento. Teatro Cacilda Becker – Rua Tito,295 – Lapa – São Paulo. Quinta à sábado, 20h; domingo, 19h. Gratuito (retirar ingressos com 1 hora de antecedência). De 04 a 07 de agosto.

Créditos HL

Esse texto é de Poliana Pitteri para nossa coluna HL em Cena. Ele teve revisão de Raphael Alves e edição de Nicole Ayres, editora assistente do Homo Literatus.

Nicole Ayreshttp://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
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Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
Revisão por
Raphael Alves
Graduado em Letras-bacharelado. Escreve por trabalho e diversão. A curiosidade um dia o matará; enquanto isso, escreve sobre a agonia e o prazer das últimas descobertas.
Editoria por
Nicole Ayres
http://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
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