O absurdo da vida no teatro do absurdo

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O texto causa um grande estranhamento, e mesmo certa sensação de desespero, com uma dose de humor ácido, que obriga o espectador a rir para não chorar.

Ionesco
“A cantora careca”, de Eugene Ionesco, em interpretação tipográfica de Massin, e fotográfica de Henry Cohen.

O teatro do absurdo surgiu no contexto da Europa pós Segunda Guerra Mundial. Havia um sentimento geral de agonia e desilusão após a vivência dos horrores da guerra. Por isso, uma corrente intelectual passou a contestar o próprio sentido da vida e das produções humanas, tais como a literatura. No gênero dramático, foram escritas e encenadas peças com situações ilógicas, personagens vazios, falas repetitivas, cujo efeito era de chocar o leitor/espectador e promover a reflexão sobre a futilidade do dia a dia.

Na primeira cena de A Cantora Careca, de Eugène Ionesco, um dos principais representantes do teatro do absurdo, presencia-se um diálogo entre o Sr. e a Sra. Smith durante o café da manhã. A quase total falta de sentido dos discursos do casal mostra, de maneira exagerada, a banalidade cotidiana do ser humano.

SR. SMITH [Ainda lendo o jornal]: Ora veja, aqui diz que Bobby Watson morreu.

SRA. SMITH: Meu Deus, o pobrezinho! Quando foi que ele morreu?

SR. SMITH: Para que esse espanto? Você sabe perfeitamente. Ele morreu há dois anos. Então não estivemos no enterro dele há um ano e meio?

SRA. SMITH: Ah sim, é claro que eu me lembro. Eu lembrei logo. Mas o que não compreendo é por que você ficou tão espantado ao ver isso no jornal.

SR. SMITH: Isso não estava no jornal. Há três anos que se fala de sua morte. Recordei-me por associação de ideias.

SRA. SMITH: Uma pena! Ele estava tão conservado.

SR. SMITH: Ele foi o mais bonito cadáver da Inglaterra. Não aparentava a idade que tinha. Pobre Bobby estava morto há quatro anos e ainda estava quente. Um verdadeiro cadáver vivo. E como ele era alegre!

O texto causa um grande estranhamento, e mesmo certa sensação de desespero, com uma dose de humor ácido, que obriga o espectador a rir para não chorar. Outra peça de Ionesco, de caráter ainda mais crítico, é A Lição. Nesta, um professor particular, que se utiliza de métodos de ensino mirabolantes, assassina seus alunos com uma faca invisível ao final das aulas. A metáfora em relação à instituição escolar é evidente: o ensino tradicional é muitas vezes ineficiente e o professor, se não tomar cuidado, pode destruir o potencial criativo dos seus alunos, em vez de fazê-los evoluir intelectualmente.

Esperando Godot, peça de Samuel Beckett, outro autor importante do movimento, transmite um forte sentimento de vazio com a rotina cíclica de dois vagabundos, que esperam por um homem chamado Godot em determinado local combinado. Mas Godot nunca chega, mandando um menino de recados para avisar que ele virá no dia seguinte, sucessivamente. Godot representa uma esperança de salvação para os dois homens, esperança adiada eternamente, chegando-se a duvidar de sua existência. O tédio e a miséria são tão grandes que notam-se diversas insinuações ao suicídio nas falas dos personagens.

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Samuel Beckett, autor de “Esperando Godot”

O sentido do teatro do absurdo, portanto, é justamente essa falta de sentido, que remete ao non sense da existência em si. Outra corrente semelhante, da mesma época, que reúne inclusive alguns autores em comum com o teatro do absurdo, é o novo romance (nouveau roman), que nega o enredo tradicional, apagando a história e os personagens e mergulhando na descrição de objetos e cenários ou em devaneios psicológicos. Em contrapartida, há a literatura engajada de Sartre, com seu existencialismo. São diferentes maneiras que a arte encontrou para reorganizar o pensamento, após um período histórico de caos.