O amor natural: o livro de poemas eróticos de Carlos Drummond de Andrade

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Amor, amor, amor o braseiro radiante que me
dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.
(Carlos Drummond de Andrade)

Você sabia que Carlos Drummond de Andrade escreveu poemas pra lá de ousados? Pois bem, o mineiro guardou seus poemas mais eróticos para publicação póstuma, o que deu origem ao livro O amor natural.

A obra é uma coletânea de poemas eróticos, que são dotados de uma visão inquietante, uma face nova, mais despojada e extremamente fascinante do poeta. Os poemas são repletos de vida e sensualidade. O autor desbrava o corpo enquanto busca, na fluidez e sensualidade da linguagem, a nudez da própria alma.

O fato de O amor natural não ter sido publicado em vida por Drummond demonstra um anseio diante de seu tempo. O poeta tinha plena consciência dos limites entre o erotismo e a pornografia. Optou, portanto, por uma não confusão entre um e outro em seus poemas. Possivelmente por considerar um tanto vulgar o tratamento do sexo como pornografia. É evidente, inclusive, que o amor e a sexualidade são, para ele, como algo único, que não estão desassociados.

Desde o título, a obra joga com o conceito de natureza no que diz respeito ao amor. O poeta trata o sexo enquanto manifestação do amor, o sexo como algo natural do ser humano. Os poemas que constituem O amor natural apresentam o sexo como forma de atingir a plenitude da existência pela busca do prazer.  A linguagem drummondiana poetiza o ato sexual, mas ao utilizar termos como “vagina”, “pênis” e “bunda”, não o camufla.

O amor natural tem quarenta poemas que representam o prazer sexual relacionado ao sentimento amoroso. Antes de sua publicação, alguns dos poemas que constituem o livro já haviam sido descobertos, não se sabe exatamente de que forma. Dentre eles estão:

A castidade com que abria as coxas;
O que se passa na cama;
O chão é a cama;
Esta faca;
Tenho saudades de uma dama;
Sob o chuveiro amar;
Amor – pois que é palavra essencial;
Jardim ou Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas;
– e  A moça mostrava a coxa.

De modo geral, os poemas eróticos de Drummond nos mostram o amor enquanto natureza e que o amor é também sexo. A sensualidade é posta como conhecimento de nós mesmos, os momentos de excitação, de desejo, são parte constituintes de nós. A obra figura desde momentos de grande incitação ao desejo até o cansaço após o coito, da consumação do ato sexual até a frustração do desejo diante da negação.

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E para finalizar, deixo abaixo alguns poemas desse Drummond ousado, que poucos conhecem, mas que não deixam de ser tremendamente fascinante:

AMOR – POIS QUE É PALAVRA ESSENCIAL

Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

A LÍNGUA LAMBE

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

PARA O SEXO EXPIRAR

Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante.
Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor — o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.

Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.

Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe?
enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.

Pois que o espasmo corroe o instante do meu termo,
e assim possa partir, em plenitude a ser,
de sêmen aljofrando o irreparável ermo.

O CHÃO É A CAMA PARA O AMOR URGENTE

O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama.

***

Referências:

ANDRADE, Carlos Drummond de. O amor natural. Rio de Janeiro: Record, 1994

PRADO, Priscila Finger do.  A representação de eros em O amor natural.  Artes, Letras e Comunicação, S. Maria, v. 10, n. 1, p. 1-14, 2009.